Em 2026, o regresso oficial da Ford à Fórmula 1, em parceria com a Red Bull, alterou drasticamente o eixo de prioridades de Detroit.
O CEO da Ford, Jim Farley, é um entusiasta das corridas, mas também pragmático.
A estratégia da Ford Performance baseia-se agora em ícones globais: a Fórmula 1 como palco máximo para a eletrificação e marketing global, com estreia marcada em março com o novo motor em parceria com a Red Bull Powertrains.
No Dakar, o Ford Raptor, desenvolvido com a M-Sport, é o produto que a Ford quer vender globalmente, e neste Dakar a marca norte-americana aproximou-se bastante dos seus adversários mais fortes.
No WEC / Le Mans, o Ford Mustang GT3 é a bandeira da performance acessível e das corridas de clientes.
Neste tabuleiro, o WRC (com o Ford Puma Rally1) tem tido dificuldade em justificar o retorno sobre o investimento, especialmente com a instabilidade dos regulamentos técnicos que a FIA tarda em fechar e colocar na mesa.
M-Sport: o sobrevivente nato
Como se sabe, a M-Sport de Malcolm Wilson é uma empresa privada que “presta serviços” à Ford. Se a Ford retirar o apoio financeiro e técnico direto ao Rally1, a M-Sport continuará ligada à Ford no Dakar e nos GT3, mas no WRC fica claro que a estrutura de Malcolm Wilson precisa de um construtor que pague parte das contas do escalão principal. Wilson já provou no passado que, embora o seu coração seja Ford, o seu negócio é a competição. E nesse contexto, não deixará a estrutura de Dovenby Hall morrer por falta de um logótipo na grelha.
Lynk & Co: rumor que ganha tração
A entrada da Lynk & Co (marca do gigante chinês Geely) faz todo o sentido por vários motivos. Teve sucesso nos TCR, já dominaram as corridas de turismos e querem dar o salto para um palco mundial mais “aventureiro”. A tecnologia é da Geely, grupo que, como se sabe, detém a Volvo, Polestar e Lotus, que têm tecnologia mais do que suficiente para o que é necessário no WRC. Caso se concretize a saída da Ford, a M-Sport torna-se a “chave na mão” perfeita. A Lynk & Co não precisaria de construir uma equipa do zero; bastaria entregar o design do carro e o orçamento a Malcolm Wilson.
Contudo, o grande motivo para a indefinição atual é que todos estão à espera da clarificação final dos regulamentos de 2027. Se a FIA/WRC decidir simplificar drasticamente os carros (mudando para uma base de Rally2 “vitaminado”), isso pode atrair a Lynk & Co, mas também pode ser a desculpa final para a Ford sair, por considerar que o topo da pirâmide perdeu o apelo tecnológico.
A Ford está a tornar-se uma marca de “estilo de vida e performance” e o WRC atual, com os seus custos elevadíssimos e visibilidade fragmentada, encaixa cada vez menos nessa visão do que a F1 ou o Dakar.
Contudo, se os novos regulamentos resultarem, rapidamente a Ford regressa, pois convém lembrar que a herança da Ford nos ralis assenta numa presença contínua e vencedora que atravessa mais de meio século, desde a era do Escort até à atualidade do Fiesta e do Puma. O ponto de viragem surge em 1973, com a criação do Campeonato do Mundo de Ralis (WRC), onde o Ford Escort RS se torna rapidamente uma referência, vencendo o icónico 1000 Lagos com Timo Mäkinen e impondo-se como um dos carros mais bem-sucedidos da história da modalidade.
Ao longo dos anos 70, o Escort consolida esse estatuto, culminando no primeiro título mundial de construtores para a Ford em 1979, com o Escort RS1800 e um plantel de luxo que incluía Hannu Mikkola, Björn Waldegård e Ari Vatanen. Essa geração de máquinas e pilotos ajuda a fixar a imagem da Ford como marca “dos ralis”, associada a carros robustos, rápidos e relativamente simples de preparar.
Nos anos 90, a transição do Sierra para o Ford Escort WRC e, depois, para o Focus WRC, já sob a gestão da M‑Sport de Malcolm Wilson, mantém a marca na linha da frente, com pilotos como Carlos Sainz e Colin McRae a somarem vitórias e pódios. Esse trabalho acaba por ser recompensado com dois títulos mundiais de construtores em 2006 e 2007, com Marcus Grönholm ao volante do Focus RS WRC.
Na era moderna, a Ford prolonga a sua herança com o Fiesta WRC, carro com o qual Sébastien Ogier conquista o Mundial de Pilotos e a M‑Sport/Ford o título de construtores em 2017, reforçando um palmarés que inclui dezenas de vitórias e uma longevidade ímpar no WRC. Nomes como Ogier, McRae e Sainz Sr. simbolizam essa herança, feita de competitividade constante, evolução técnica e uma ligação muito forte à cultura dos ralis a nível mundial.










