MEMÓRIA, Volta a Portugal de 1968: Vozes a mais para um só capotanço

 

 

Na Volta a Portugal de 1968, que disputei com o nosso saudoso amigo Adolfo Sampaio, estávamos em segundo ligar atrás de Heitor de Morais, na decisiva altura de descermos o Cavalinho, lá para as bandas de Amarante, que era, na realidade, um dos maiores “cavalos de batalha” das provas dessa época. Época em que não havia troços cronometrados, mas sim controlos de estrada muito difíceis, em que o metro chegava a ter um centímetro… Partimos, cheios de garra, nessa noite escura como breu, sem cintos nem capacetes: um problema nas luzes tinha-nos feito perder algum tempo no controlo e a entrada para o carro havia sido “de mergulho”. “Pé na tábua” e notas certas, tudo parecia estar à maravilha mais eis quando, numa curva para a esquerda, faltou a estrada… Cambalhota e mais cambalhota o “buraco” era mesmo muito alto — até que fui cuspido. Consegui, não sem custo, pôr-me de pé e apalpei-me para ver se estava inteiro. Estava e pareceu-me ver, entretanto, o Cooper S ou o que dele restava um pouco mais abaixo. Gritei: Adolfo! Estás bem? E ouvi: — Estou um bocado magoado. E outra voz, muito perto: Eu também estou mal. Ah! pensei, agora percebo, morri. E, ainda por cima, com esta escuridão, não estou no céu, com certeza. Pois que outra explicação encontrar se apenas íamos dois no carro e eu ouvi uma terceira voz? Afinal era simples: No fundo daquele barranco de mais de 50 metros tinham caído, minutos antes, o ‘Zé Manel’ Falcão e o Carmo Santos no Gordini em que disputavam a prova!