Primeira equipa portuguesa a conquistar o Campeonato da Europa de Ralis, a The Racing Factory abre o livro sobre os bastidores do sucesso, a crise de pessoal e os rumos que a modalidade precisa de tomar.
Conquistar o topo da Europa nos ralis não é para todos, mas a The Racing Factory fê-lo, e entrou para a história como a primeira equipa portuguesa a alcançar tal proeza no ERC. Numa entrevista de fundo, a estrutura nacional abre o livro de uma época memorável — marcada pela aposta certeira no experiente Teemu Suninen e na competitiva máquina da Skoda — e analisa o panorama atual da modalidade.
Entre os altos e baixos de um calendário europeu de exigência máxima, a conversa aborda a esmagadora competitividade internacional, a ascensão do modelo técnico dos carros Rally2 como o novo padrão de ouro mundial e as profundas dificuldades económicas e logísticas que afetam o setor automóvel e as equipas no terreno.
Longe de fechar os olhos aos problemas estruturais, a equipa reflete sobre a crise de recursos humanos, a urgência de repensar agendas e horários para aliviar a pressão sobre os mecânicos e profissionais, e lamenta o impacto a longo prazo da ausência do Rali de Portugal no panorama nacional. Um retrato frontal e apaixonado de quem vive os ralis por dentro, combinando o orgulho de um título histórico com alertas cruciais para o futuro do desporto automóvel.

AutoSport: Aloísio Monteiro, pela primeira vez uma equipa portuguesa ganha o Campeonato da Europa de Ralis. É um feito monumental. Conta-nos toda esta história: como é que tudo começou e como chegaram até ao título?
Aloísio Monteiro: “Nós começamos a estruturar o projeto da The Racing Factory em 2018 e a nossa grande aposta foi sempre, desde o primeiro dia, o Campeonato da Europa. Temos investido forte nesse campeonato, estivemos várias vezes perto de vencer e terminámos muitas vezes como segundos classificados. No ano passado, andamos o ano todo a lutar com o Andrea Mabellini e o objetivo era claramente ganhar.
Este ano, a grande aposta passou por ir buscar o Teemu Suninen, um piloto que estava um pouco apagado e em quem ninguém apostava efetivamente para fazer uma época completa. Conseguimos montar um pacote técnico extremamente forte: a Skoda apresentou um carro altamente competitivo; o Suninen é um piloto com enorme experiência de WRC, com um conhecimento profundo sobre como gerir e lutar em cada prova; e depois tivemos uma equipa técnica à volta dele que se portou maravilhosamente bem.”
AS: As boas histórias fazem-se também de altos e baixos. Conta-nos um bocadinho deste percurso, porque nem tudo foi um mar de rosas…
Aloísio Monteiro: “Começámos muito bem no Rali Sierra Morena. A nossa maior preocupação era o facto de o Suninen já não correr em asfalto há dois anos, e temíamos que a performance dele nessa superfície pudesse sofrer. Surpreendeu-nos a todos: adaptou-se incrivelmente bem ao carro e entrou a ‘matar’ na época de asfalto.
Depois, quando tudo corria maravilhosamente bem e liderávamos um rali na Escandinávia, tivemos um pequeno toque num ‘anti-cut’ mesmo a acabar um troço que nos atirou para fora da prova. Estávamos a liderar, por isso foi o momento mais desastroso da época, pois estávamos confiantes de que aquela vitória ia cair e dar-nos pontos cruciais logo no arranque.
Em Roma, num rali duríssimo, onde os italianos são extremamente fortes a correr em casa, conseguimos sair com um pódio fantástico no meio daquela luta intensa. E a primeira vez do Suninen no Barum — que é um rali extremamente difícil e técnico —, terminar com um pódio colocou-nos numa posição pontual muito agressiva para o resto do campeonato.
Chegámos a Inglaterra para a derradeira prova e já éramos campeões, num rali em que curiosamente tivemos dois percalços. Ele fez dois piões e bateu duas vezes, furou um radiador… Momentos de alta tensão em que pensamos que ele não iria chegar ao fim. Mas a assistência resolveu tudo e o final coroou uma época espetacular. Nos últimos anos a equipa já tinha vencido vários campeonatos com o Armindo Araújo, mas esta foi uma dimensão diferente.”

AS: Fazendo um paralelo: o que é trabalhar em Portugal face ao Campeonato da Europa?
Aloísio Monteiro: “Costumo dizer que admiro profundamente o Europeu de Ralis porque, além da caravana habitual, em cada prova tens sempre de contar com quatro ou cinco pilotos locais extremamente fortes, que querem brilhar perante o seu público. Isso dá ao campeonato uma competitividade brutal: os pilotos do ERC têm de se preocupar não só com os adversários diretos ao título, mas também com os locais. Junta-se o melhor dos dois mundos e o nível desportivo é altíssimo.
A grande diferença para o campeonato nacional é precisamente essa exigência. No Europeu, os pilotos só fazem duas passagens por troço; têm de fazer um enorme trabalho prévio com vídeos e ferramentas digitais para extrair o máximo de informação. Depois, no rali, é quase uma roleta-russa com quatro ou cinco candidatos reais à vitória.
No campeonato nacional, sinto que está a faltar formação e, sobretudo, mais troféus de promoção. Os troféus é que acendem a chama e trazem novos pilotos para as categorias mais altas. Enquanto não investirmos nisso e criarmos mais dois ou três troféus capazes de lançar anualmente novos talentos para o topo, vamos continuar a passar por ciclos de défice de pilotos de topo.”

AS: Tendo em conta que andas por muitos países da Europa, com o ERC, e já o fazes ao longo de muitos anos, quais são os campeonatos nacionais que te parecem mais fortes e onde é que o mercado dos ralis está realmente a crescer?
Aloísio Monteiro: “O campeonato que mais me surpreende é o italiano. Chegas lá e tens quatro ou cinco troféus ativos (Clio, Lancia, Peugeot, etc.), e o nível de formação e promoção de jovens pilotos é impressionante. Vês o Roberto Daprà, por exemplo, que lutou connosco nos Rally4 nos últimos dois anos, saltou para o Europeu e Mundial, e já é um piloto extremamente rápido que vence provas.
Depois de Itália, colocaria Espanha, que tem feito um trabalho federativo excelente na internacionalização dos seus pilotos, abrindo as portas das grandes equipas de fábrica.
Mas o mercado dos ralis tem crescido imenso nos países nórdicos, na Polónia, na Hungria e na Finlândia. Vamos a provas do ERC com quarenta carros Rally2 à partida, onde há uma moldura humana e de pilotos abismal a lutar pelos dez primeiros lugares.”
“Não há capacidade financeira para carros de um milhão de euros; a FIA teve de dar um passo atrás com os Rally2”
AS: Com as alterações profundas que estão a acontecer no WRC, achas que o modelo dos Rally2 — que a FIA protegeu e manteve como um negócio perfeito — está no caminho certo?
Aloísio Monteiro: “Estamos a atravessar uma crise económica na Europa muito grave, que afeta transversalmente a indústria automóvel (setor com o qual também estou ligado). Não há capacidade financeira para sustentar carros de um milhão de euros no Mundial; é urgente baixar o valor dos carros.
A FIA viu no conceito Rally2 um sucesso estrondoso, dando seguimento ao que já vinha de baixo com os Rally5. Conseguiu manter várias marcas a produzir e vender carros anualmente, com um mercado de clientes privados totalmente instaurado. Hoje, um cliente privado consegue suplantar as equipas oficiais com carros de manutenção equilibrada e acessível — nada comparável aos antigos Super 1600 ou S2000.
Contudo, há um ponto crítico no horizonte: o calendário. Se o Mundial passar a ter oito provas na Europa, começamos a ter o mesmo promotor a gerir dois campeonatos na mesma liga. Se os pilotos puderem fazer oito provas de Mundial, qual será o apelo para correr no Europeu? O promotor terá de calibrar muito bem isto. E não nos esqueçamos: um Skoda Fabia RS Rally2 passa a poder ser campeão do mundo.”
“Ninguém vem para um rali numa sexta-feira fazer 15 km e estar amarrado das 06h30 à meia-noite”
AS: E qual é o futuro da tua estrutura e da modalidade? com que ideias avançarias para o panorama nacional?
Aloísio Monteiro: “Eu quero continuar, mas acho que o mercado nacional precisava de ser repensado por um grupo de trabalho independente das estruturas federativas e organizativas tradicionais. Não digo um promotor comercial, mas sim uma massa crítica de pessoas que andam nisto há anos, com conhecimentos práticos, para apresentar algo novo e com a mente aberta.
Atualmente bate-se sempre na mesma tecla. As organizações pensam que tem de ser tudo feito com a mesma agenda e ponto final, porque são elas que estão no terreno. Mas as equipas estão exaustas.
Hoje em dia há uma carência geral de mão de obra em Portugal, e as equipas sofrem todas exatamente do mesmo mal.
Ninguém vem para um rali numa sexta-feira para fazer 15 quilómetros cronometrados e estar amarrado desde as 06:30 da manhã até à meia-noite. As agendas têm de ser a prioridade número um de alteração: os ralis têm de ser mais concentrados, as equipas devem passar o menor tempo possível em prova e os horários têm de ser compatíveis com a realidade (por exemplo, criar sessões de autógrafos ou media zones que realmente funcionem, em vez de horários desencontrados onde quase ninguém consegue comparecer).”
“O Rali de Portugal faz falta ao nosso campeonato”

AS: À margem disso, o Rali de Portugal ficou de fora do panorama nacional esta época. Que impacto é que isso de parecer vir a ter?
Aloísio Monteiro: “Muitas pessoas criticavam o facto de o Campeonato Nacional ter provas integradas no Rali de Portugal, argumentando contra a sua presença. Eu sempre fui totalmente contra essa visão: Temos de lá estar.
A ausência do Rali de Portugal vai pesar imenso na projeção do nosso campeonato a médio, longo prazo. A fatura não se paga amanhã, mas vai pagar-se no futuro, tornando mais difícil atrair pessoas e investimento para a modalidade.”
“As equipas estão exaustas e há falta de mão de obra: Os alertas de Aloísio Monteiro para o futuro dos ralis”
AS: Para fechar, como é que se combate a atual falta de pessoal técnico nas equipas?
Aloísio Monteiro: “Apostamos muito na formação interna. Tentamos firmar contratos o mais rapidamente possível com a meia dúzia de profissionais que já nos acompanham há anos para os blindar para a época seguinte. Paralelamente, pegamos em jovens que gostam do meio, ensinamos a profissão “em casa” e cultivamos um ambiente familiar forte. É isso que nos tem permitido manter a estrutura coesa.”
AS: queres deixar uma mensagem final?
Aloísio Monteiro: “sim, quero agradecer de coração a toda a equipa e estrutura da The Racing Factory que se portou de forma absolutamente excecional esta época. Não tenho palavras para descrever o orgulho neste título europeu.”

FOTOS The Racing Factory / Red Bull ContentPool








