Há trinta anos, em 1996, o AutoSport publicou um artigo intitulado «De 800 a 17 mil contos – Quanto custa o “TAP”», que explorava os diferentes custos de participação no TAP-Rali de Portugal desse ano, desde os orçamentos mais modestos aos mais avultados. Mas como se comparam esses valores com os custos atuais, considerando a inflação?
Contextualização Financeira: contos para euros e inflação
Para uma comparação fidedigna, é crucial converter os valores de 1996 para a moeda e o poder de compra atuais. Oitocentos contos em 1996 equivalem hoje a aproximadamente 7.600€, enquanto 17 mil contos correspondem a cerca de 162.000€. Esta conversão não é meramente cambial; é necessário aplicar um fator de atualização da inflação, que ronda os 1,92, com base nas variações anuais do Índice de Preços.
Custos de participação em 1996
Em 1996, os pilotos que ambicionavam os lugares cimeiros e investiam num bom carro e numa estrutura técnica robusta podiam gastar até 17 mil contos. Foi o caso de Rui Madeira, Campeão do Mundo de Grupo N.
Olhando para orçamentos intermédios:
A participação de José Miguel, com um Ford Escort da RAS, rondava os 12 mil contos.
Jorge Bica, com um Subaru Legacy da Procar, investia cerca de 10 mil contos.
Estes valores incluíam, em alguns casos como o de Madeira ou Bica, um carro de treinos. José Miguel, por exemplo, preferiu usar o seu Sierra habitual. Todas as despesas estavam incluídas: material de substituição, seguros, inscrição, alojamento, deslocações e refeições.
Nos orçamentos mais baixos:
Ramiro Fernandes, com apenas dois mecânicos e uma carrinha de assistência, gastou cerca de 800 contos com o seu Lancia Delta de Grupo N.
José Fernandes e José Pereira, com dois Toyota Celica de Grupo N, cinco mecânicos, uma carrinha e um carro rápido, investiram cerca de mil contos.
Nas estruturas de dimensão média:
António Jorge e António Gravato, da Mega Sport, contavam com oito mecânicos, duas carrinhas e um carro rápido. Cada piloto investiu aproximadamente 1.500 contos.
Uma estrutura maior, como a de Luís “Licas” Pimentel, campeão açoriano, incluía três carrinhas, um carro rápido e uma autocaravana, com uma equipa de 12 pessoas. Somando os treinos, as deslocações dos Açores e a participação, os seus custos totalizaram cerca de sete mil contos.
A realidade atual dos custos no Rali de Portugal
E como se apresentam os custos hoje? Para disputar todo o Rali de Portugal – não só o CPR – incluindo despesas de inscrição, pneus, combustíveis, alimentação, hotéis e o aluguer do carro, um piloto de um Rally4 gasta cerca de 35.000€. Já para um Rally2, um valor intermédio, o custo ronda os 70.000€.
Comparando os 800 contos de Ramiro Fernandes em 1996, que seriam 7.640€ atualmente, é evidente que um Rally4 não custa menos de 35.000€. Isto demonstra que, no passado, era viável correr no Rali de Portugal com orçamentos mais modestos, algo que hoje já não acontece. Atualmente, o carro mais “fraco” a participar na prova, por exemplo, é um Peugeot 208 Rally4, enquanto no passado era comum ver carros significativamente menos potentes, ou até mesmo viaturas que não cumpririam as especificações atuais da FIA. Hoje em dia, um carro não-FIA, simplesmente não corre numa prova do WRC.
Conclusão para Orçamentos Baixos: Correr no Rali de Portugal é, hoje em dia, consideravelmente mais dispendioso para quem tem orçamentos limitados.
Orçamentos Maiores: uma nova perspetiva
Nos orçamentos dos Rally2, a situação muda. Um Rally2 custa aproximadamente 70.000€, valores médios, um valor equivalente ao que Luís Pimentel gastava em 1996 (7.000 contos). Rui Madeira, por sua vez, gastou o equivalente a 162.400€ a valores de hoje. É importante notar que estes são valores aproximados e podem variar significativamente.
A principal diferença reside no facto de que em 1996 o “mercado” era muito mais restrito, com pouca concorrência e valores mais elevados. Não existiam tantas equipas portuguesas como hoje, e a qualidade geral era diferente.
Pode, no entanto, haver quem possa gastar 100.000€ no Rali de Portugal, entre os melhores Rally2, mas ainda assim, por aqui se percebe que esta se revelou uma das melhores categorias implementadas pela FIA. Apesar do aumento dos preços, a verdade é que muitos países com forte tradição em ralis contam com um número impressionante de carros a competir.
Com as novas evoluções, muitos carros mais antigos, mas ainda muito competitivos, permanecem no mercado.
Tudo isto contribui para um mercado mais dinâmico, com mais equipas, pilotos e carros em prova.
E como é lógico, o mercado beneficia com isso, porque para haver tanto carro, em toda a Europa, e não só, isto significa que, de um modo geral os valores são comportáveis.
Como se percebe, os números mostram duas realidades. Quem tem pouco dinheiro encontra hoje muito mais dificuldades. Os 800 contos de Ramiro Fernandes valem cerca de 7.640 € em 2026, mas correr com um Rally4 custa cerca de 35.000 € numa participação completa no Rali de Portugal. O acesso à prova ficou muito mais exigente, até porque hoje só correm carros homologados pela FIA. E este é um dos problemas atuais dos ralis. O que era muito mais drmocratizado, hoje tornou muito mais elitista e é aqui que está boa parte da explicação para o facto do Rali de Portugal, no passado, significar tanto para a maioria dos pilotos e hoje, são muito poucos ou nenhuns os heróis do fundo do pelotão, como há 30 anos foram Ramiro Fernandes, António Gravato, Manuel Rolo, António Teixeira, Pedro Carmo, João Martins, Luis Fonseca, Delfim Bastos, José Pedro Miranda, Paulo Freire, José Vieira Leite, Miguel Monteiro, Fernando Mendanha, Miguel Barata, Paulo Guimarães.
Esta lista de 15 concorrentes portugueses que chegaram ao fim do TAP Rali de Portugal 1996 é maior do que a lista de portugueses inscritos no Rali de Portugal de 2026, 13! Isso diz muito o que se perdeu nas malhas do tempo, nos ralis…












Artigo interessante, retratando como as coisas “evoluíram”, ou deixaram evoluir… mas que obviamente não me surpreende! Sorri com os valores do “fundo do pelotão”. Eu fiz ralis de Portugal, por exemplo, com MUITO menos dinheiro: ficando em casa de amigos ou em pensões onde não conseguia dormir a noite TODA, refeições em “tascas” (mas onde se calhar comi muito melhor…) e claro conduzindo a pensar que não tinha praticamente material nenhum para substituir na assistência… que ás vezes nem era minha! Enfim, outros tempos, mas este desporto não precisava estar de todo agora tão caro!! Eu podia explicitar aqui os… Ler mais »