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James Hunt ‘the Shunt’: selvagem, descomprometido, louco na vida e nas pistas

José Luis Abreu by José Luis Abreu
18 Dezembro, 2024
in Autosport Exclusivo, FÓRMULA 1
A A
F1, James Hunt: Admirável mundo louco

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Selvagem. Descomprometido. Louco na vida e nas pistas. Um playboy que acreditava que o sexo desenfreado antes de uma corrida era meio caminho andado para vencer. O Campeão do Mundo mais improvável. O seu nome? James Hunt. Ou ‘Hunt the Shunt’, por causa dos acidentes espetaculares em que se metia com a sua pilotagem atrevida e, por vezes, demencial.

James Simon Wallis Hunt nasceu em Belmont, próximo de Sutton, no condado de Surrey. Filho de um bem-sucedido corretor bolsista, teve uma educação esmerada, nos melhores colégios que o dinheiro da família permitia, preparando-se afincadamente para a profissão de médico. Mas, um dia, tinha ele 18 anos, aceitou o convite de um amigo para ver uma corrida de automóveis – foi paixão imediata e, a partir daí, o jovem James nunca mais foi o mesmo.

 Drogas, sexo e álcool

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Desde cedo carismático e charmoso, rapidamente se tornou uma personagem pouco convencional, mesmo depois (se calhar principalmente…) de estar na F1. Hunt tinha um medo horrível de morrer num acidente mas, apesar disso, usava as corridas como válvula de escape para a enorme dose de adrenalina que o fazia viver intensamente uma vida de excessos – muito à imagem do que faziam os gentlemen drivers riquíssimos da década de 50, em que os pilotos morriam quase semanalmente e procuravam viver cada dia como se fosse o último. Que, tantas vezes, até era…

Só que isso, nos anos 70, mesmo ainda com os ecos do Maio de 68 e do ‘make love, not war’ do movimento hippie, já não era bem visto. Por isso, James Hunt se tornou uma lenda – mesmo enquanto foi vivo. Mesmo quando, já na década de 90, decidiu colocar um travão na sua vida desregrada e deixar de beber, de fumar e de tomar drogas.

As histórias são quase cómicas, perfeitas para figurarem numa antologia do improvável. Mas, afinal, elas são verdadeiras e comprovadas por algo mais que o “diz-se diz-se” dos paparazzi, nessa altura uma classe de ‘jornalismo’ ainda algo incipiente.

Por exemplo: duas semanas antes do mítico GP do Japão, aquele em que o seu principal rival, Niki Lauda, teve medo e deixou a pista encharcada pelo dilúvio, permitindo-lhe terminar em terceiro lugar e vencer o título de Campeão do Mundo de F1 por um único ponto, James Hunt dormiu com 33 hospedeiras de bordo, na sua suite no Hilton de Tóquio. Ele e o seu inseparável amigo Barry Sheene, que nesse ano tinha já ganho o título mundial nas 500cc.

A orgia foi organizada pelo próprio piloto, que conhecia as raparigas das inúmeras viagens que fazia com a British Airways e que, curiosamente, ficaram hospedadas no mesmo hotel. A festa, que meteu álcool, marijuana e cocaína, durou duas semanas e terminou poucas horas antes de o piloto rumar à pista de Fuji, onde tinha lugar o GP de F1. Uma vez lá chegado, ‘engatou’ uma garota japonesa e fechou-se com ela nas boxes, onde foi apanhado por Patrick Head, literalmente, com as calças… abaixo dos tornozelos! Depois, mesmo antes da corrida começar e após ter cumprido o seu habitual ritual de vomitar profusamente as drogas e o álcool ingerido até minutos antes, não teve grandes pruridos em abrir o fecho do fato de competição e urinar frente ao público, que aplaudiu vigorosamente a façanha, mal ele terminou. Hunt acenou com veemência, agradecido…

Após a prova e já com o título (inesperado…) no bolso, Hunt voou para Inglaterra no avião de Bernie Ecclestone, onde continuou alegremente a festejar os acontecimentos, durante 12 divertidas horas. Chegou a Heathrow perdido de bêbedo e saudou os cerca de 2000 fãs que o esperavam, apoiando-se nos braços da mãe, Sue, e da sua namorada de então, Jane Birbeck, que desconhecia a faceta galã do piloto e muito menos a orgia de Tóquio.

Totalmente verdade ou apimentada pelos biógrafos, a realidade de que se fala que James Hunt dormiu com cerca de 5000 mulheres; ‘vendeu’ a sua primeira mulher, Suzy Miller por um milhão de dólares – a quantia que Richard Burton (então zangado com Elizabeth Taylor) lhe pagou para ele apressar o divórcio, depois de a conhecer numa viagem de ambos para a Suíça; fez da sua lua de mel com Suzy uma… despedida de solteiro; no seu fato de competição tinha um autocolante que dizia, claramente e para quem o quisesse ler: “Sexo. O café da manhã de todos os campeões”; fumava como se quisesse matar-se constantemente, mais de 60 cigarros por dia; era habitual conseguir entrar numa festa de gala apenas vestido com uma t-shirt e umas calças de ganga, quando toda a gente andava de smoking e de vestido de noite…

Carismático, bem-falante e encantador, de longas melenas loiras desgrenhadas, era o oposto daquilo que se pensava ser um piloto de F1, nos anos 70, em que se começava a olhar para a modalidade com olhos mais sérios e com diferentes exigências, especialmente em termos de segurança e espetáculo.

Era, porém, também capaz das cenas mais imprevistas, pois a sua personalidade era a de um homem que fervia em pouca água e se estava marimbando, literalmente, para quem tinha ou não razão. Algumas cenas de soco ficaram famosas: ainda na F3, a 3 de outubro de 1970, em Crystal Palace, desentendeu-se com Dave Morgan, atirou-o contra os rails e continuou a luta do outro lado das barreiras metálicas; no dia em que conquistou o título, ao sair do McLaren, pensou que o tinha perdido e foi à procura de Teddy Mayer, o diretor de equipa, para lhe dar uns valentes socos, acusando-o de ter falhado a estratégia durante a corrida. No GP do Canadá de 1977, desistiu depois de um acidente e, ao procurar saltar os rails para atravessar a pista, com os outros carros a passarem, foi impedido por um comissário… que acabou com um par de valentes sopapos nos queixos!

Talvez por tudo isto, haja quem diga que James ‘The Shunt’ Hunt foi o pior campeão do Mundo que a F1 jamais teve. Mas isso não é verdade.

Rápido e talentoso

Estreou-se com um Mini, antes de passar para a Fórmula Ford e, de imediato, para a Fórmula 3. Ganhou a reputação e ser um piloto tão rápido quanto agressivo, bem como a alcunha de ‘The Shunt’, por causa dos acidentes consecutivos em que se envolveu.
Piloto da equipa STP-March, sob a batuta de um tal Max Mosley, foi contra as ordens deste no GP do Mónaco de F3 de 1972, sendo por isso despedido. Então, foi contratado pela Hesketh Racing, uma equipa estranha, formada por uma ainda mais estranho Lord Alexander Hesketh – estreando-se na F1 em 1973, com um March 731, desenvolvido por Harvey Postlethwaite. No ano seguinte, foi afastando a ideia que existia no mundo da F1 de que a Hesketh era uma anedota, com resultados cada vez mais inesperados, que culminaram com o triunfo no GP da Holanda de 1975, com o Hesketh 308C. Estes resultados atraíram a atenção da McLaren, que o foi buscar no final desse ano; ‘The Shunt’ agradeceu a prova de confiança com o título mundial em 1976 e permaneceu com a equipa por mais dois anos.

Porém, cada vez mais desmotivado, venceu a sua última corrida de F1 em 1977 e, em 1978, conquistou somente oito pontos, sendo mesmo algumas vezes batido pelo seu inexperiente colega de equipa, Patrick Tambay. O acidente mortal de Ronnie Peterson, que ajudou a retirar do Lotus em chamas, foi a gota de água: deixou a McLaren no final do ano, mas aceitou o convite de Walter Wolf para pilotar para a sua bem-sucedida equipa. Porém, nunca percebeu bem o novo efeito de solo dos F1 e, desiludido, anunciou oficialmente o seu abandono num comunicado emitido mal desistiu no GP do Mónaco. Nunca mais se sentou num monolugar de F1, apesar de, em meados da década de 80, ter conversado a esse propósito com Frank Williams e testado em segredo um dos seus carros.

Depois de deixar a F1, tornou-se comentador para a BBC e, após diversas depressões e de uma vida sem regras em Marbella, onde era assíduo cliente de todas as discotecas e bares – bem como dos courts de ténis e de squash… – assentou um pouco mais. Passou a jogar futebol e críquete, em equipas com outros pilotos de F1, afastando-se então dos vícios que tinha cultivado com tanto esmero e carinho até então, numa decisão repentina, no início da década de 90.
Foi talvez isso que o matou: um ataque cardíaco fulminou-o na sua casa de Wimbledon, aos 45 anos de idade, a 15 de Junho de 1993, apesar de uma nova vida livre e saudável, em que as suas paixões eram correr de bicicleta e um imaculado Austin A35 Van.

Tags: James Hunt
José Luis Abreu

José Luis Abreu

Entre curvas e muito pó, descobri que o olhar treinado pela fotografia e a paixão pelos ralis só podiam levar a um destino: o jornalismo desportivo. E já lá vão mais de 30 anos…

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