Confirmou-se o cenário da saída de Mattia Binotto da Ferrari. O líder da Scuderia desde 2019 apresentou a sua demissão e a Ferrari resolveu aceitar o pedido. Há questões a serem respondidas nos próximos tempos, mas também fica a sensação de que a Ferrari sai fragilizada desta situação. Quanto às questões que podem já ser respondidas, essas podem dar uma luz sobre a situação atual.
Quem é Binotto? É um homem da casa que durante quase três décadas esteve ao serviço da marca italiana. Em 1995, juntou-se à Scuderia Ferrari como engenheiro de motores na equipa de teste. De 1997 a 2003 foi engenheiro na equipa de Fórmula 1, durante a muito bem sucedida era Schumacher, quando Luca di Montezemolo era Presidente e Jean Todt era Diretor. Em 2004, foi nomeado chefe do Departamento de Motores de pista para a equipa de corrida e, a partir de 2007, foi responsável pelas operações da Unidade Motriz. Foi nomeado chefe adjunto do Departamento de Motores e Eletrónica em 2013 e passou a ser Chefe de Operações da Unidade Motriz. A 27 de julho de 2016, assumiu o cargo de Diretor Técnico Chefe da Scuderia Ferrari. Desde 7 de janeiro de 2019, assumiu as funções de Diretor da Gestione Sportiva e de Diretor da Equipa Scuderia Ferrari.
O que fez Binotto? O contributo de Binotto foi notório ao longo dos anos. Foi subindo na Ferrari por mérito próprio e foi resolvendo problemas à Scuderia. No final de 2014 foi nomeado COO para a Unidade Motriz e em 2015 a Ferrari venceu corridas. Em 2016 assumiu a liderança da direção técnica e em 2017 a Ferrari aproximou-se da luta pelo título. Binotto nunca teve uma presença muito vincada nem é o mais carismático dos líderes, mas à sua maneira foi impondo a sua filosofia. Em 2019 entrou para o lugar de diretor de equipa, substituindo Maurizio Arrivabene. Binotto começou a ficar descontente com a forma como Arrivabene geria a equipa e gerou-se um confronto interno entre os dois. O Arrivabene nunca foi consensual e o segundo recolhia o respeito e admiração de grande parte do staff da Scuderia (e mesmo fora da equipa) e a liderança da Ferrari foi colocada sobre si. Muitos disseram na altura que era um erro e que Binotto não teria capacidade para fazer o que de melhor sabe, que é liderar tecnicamente a equipa, perdendo tempo com os típicos jogos políticos. Acabou por se concretizar a profecia.
Que desafios encontrou? Mattia Binotto não teve vida fácil e logo em 2020, teve de enfrentar uma das piores épocas da equipa, com um sexto lugar, depois do caso da unidade motriz em que Ferrari e FIA resolveram o assunto entre si. Seguiu-se um 2021 de recuperação e um 2022 em que a Ferrari voltou a ser candidata ao título. Saiu da luta pelo troféu demasiado cedo e, como é habitual na Ferrari, o castelo desmoronou-se mais uma vez.
Com Binotto, os engenheiros da Ferrari tiveram carta branca para arriscar, sem medo de falharem. Com Binotto, o ambiente na equipa melhorou e a pressão diminuiu… ligeiramente, afinal trata-se da Ferrari. Mas com Binotto ao leme a Ferrari mostrou um pouco mais do que pode fazer. Vimos a inovação das entradas de ar laterais subidas que passou a ser usada por grande parte das equipas antes da entrada em cena desta nova regulamentação. A Ferrari foi a única a seguir um conceito de flancos proeminentes e criou um carro com potencial para o título. A Ferrari conseguiu recuperar o que perdeu em 2019/2020 e voltou a ter um motor potente (apesar de ainda pouco fiável). A Ferrari de Binotto era uma equipa que arriscava, que tentava coisas novas e que, não poucas vezes, acertava. É certo que a polémica da Unidade Motriz de 2019 trouxe dores de cabeça, mas Binotto sempre incentivou os engenheiros a pensarem fora da caixa e isso por vezes acarreta riscos. Mas o que falhou muitas vezes foi a parte desportiva. A gestão interna dos pilotos, as estratégias, as decisões desportivas. Talvez Binotto tenha deixado esse capítulo para o fim. Talvez achasse que era preciso uma série de vitórias sólida para dar confiança nesse capítulo e isso só se consegue com um excelente carro e por isso a aposta voltou a ser na área técnica. Basta lembrar que Arrivabene saiu da Ferrari depois de uma época em que erros em pista custaram demasiado caro, tal como este ano.
A Ferrari de Binotto está mais próxima de ser candidata ao título do que a Ferrari de Arrivabene, a de Marco Mattiacci e até a de Stefano Domenicali.
Então por que motivo Binotto saiu da Ferrari? Porque é a Ferrari. Porque a atenção mediática é enorme, porque a cada ano que a Scuderia não vence, um mar de fãs da equipa desespera, porque uma estrutura com tantos fundos deveria estar no topo. Binotto saiu por causa da filosofia que ele tentou eliminar, de que tudo tem de ser imediato. Nada na F1 é imediato ao nível da gestão. A Red Bull tem a espinha dorsal da sua estrutura diretiva praticamente igual desde os seus primórdios. A McLaren começa agora a aproximar-se do topo, pois encontrou uma estrutura forte, bem delineada, que tem a força e a paciência para crescer com tempo. A Mercedes foi grande enquanto teve a sua estrutura diretiva unida e perdeu alguma consistência quando Niki Lauda faleceu e agora volta a mostrar os mesmos argumentos, depois de estabilizar. A Aston Martin e a Alpine iniciaram recentemente planos para chegar ao topo e ambas sabem que são necessários cinco anos para tal. O que falta à Ferrari é estabilidade. Sem estabilidade dificilmente uma estrutura ganha força e cresce. Foi isso que Binotto tentou fazer. Proteger a sua equipa para que pudesse crescer e ter dores de crescimento (erros) sem medo de falhar. Mas a sua postura calma não fica bem na TV. Binotto é muito diferente de Christian Horner ou Toto Wolff e ficará sempre a perder, pois não tem uma postura que agrade aos fãs. Mas sempre pareceu ser o homem certo para o cargo. Sai desgastado, criticado, mas com obra feita e quem chegar terá uma Ferrari bem melhor do que encontrou. E não faltarão interessados nos seus serviços. Se Binotto quiser, regressará rapidamente ao Grande Circo, pois não faltarão interessados nos seus serviços. E isso diz muito da sua capacidade.











