Na Fórmula 1, a busca incessante por desempenho leva as equipas e os seus engenheiros a inovarem constantemente. Esse espírito de superação e criatividade, aliado à pressão por resultados, gera um ambiente único onde soluções tecnológicas de ponta são desenvolvidas – muitas vezes antecipando o que só muito mais tarde chega à indústria automóvel. O que está a suceder com a McLaren este ano, é um exemplo claro disso.
A Fórmula 1 é – como se sabe – um laboratório de alta velocidade onde milésimos de segundo fazem – ou podem fazer – toda a diferença. Esta pressão faz com que os engenheiros procurem soluções criativas e não convencionais (“fora da caixa”), como o uso de sistemas de refrigeração integrados às rodas ou dispositivos, termo elétricos como o Peltier, numa tentativa de otimizar cada detalhe do carro.
Muitos conceitos desenvolvidos na F1 — como aerodinâmica ativa, materiais compostos em carbono, sistemas de recuperação de energia (ERS) e agora potencialmente os módulos Peltier – são aplicados pela primeira vez em carros de corrida, antes de serem eventualmente adaptados à produção em massa para carros comerciais.
Como se pode calcular, a indústria automóvel observa atentamente a F1. Tecnologias testadas neste contexto rigoroso acabam, mais cedo ou mais tarde, por ser adotadas em veículos de estrada, contribuindo para maior eficiência energética, segurança e performance.
Contudo, até se chegar lá, estes processos passam normalmente pela Zona cinzenta dos regulamentos, que normalmente estimula criatividade. A falta de clareza ou zonas cinzentas nos regulamentos (é impossível que as ‘cabeças’ que desenham regulamentos ‘fechem’ todos os ‘buracos’ de um regulamento, e as melhores “cabeças pensantes” do desporto motorizado, estão lá para aproveitar as oportunidades. É assim que o mundo pula e avança.
Agora, foi o uso do efeito Peltier (ndr, é um fenómeno termoelétrico descoberto em 1834 pelo físico francês Jean Charles Athanase Peltier que ocorre quando uma corrente elétrica passa pela junção de dois condutores ou semicondutores de materiais diferentes, provocando a absorção de calor numa junção e a libertação de calor na outra. Ou seja, uma das junções arrefece enquanto a outra aquece, dependendo do sentido da corrente elétrica aplicada), empurra as equipas a explorar até onde podem ir. Mesmo que algumas soluções acabem por ser banidas, o seu desenvolvimento já representa um avanço técnico significativo.
Em suma, a Fórmula 1 não é somente um desporto; é um motor de inovação. A cada temporada, os desafios técnicos propostos e as soluções engenhosas encontradas alimentam o progresso de toda a engenharia automóvel — mesmo que comecem como suspeitas de truques ou manobras de bastidores.
Este caso da McLaren ilustra perfeitamente como o “jogo” técnico e regulamentar da F1 pode ter consequências muito reais e positivas para a indústria na totalidade.
Resumindo, a possível descoberta tecnológica da McLaren — que certamente já está a ser analisada pelas restantes equipas — ganhou destaque devido ao impressionante desempenho da equipa em 2025, sobretudo pela forma eficaz como consegue controlar a temperatura dos pneus traseiros, algo que despertou suspeitas por parte da Red Bull.
Após uma investigação da FIA em Miami, a hipótese de uso de líquido nos travões foi descartada, mas novas questões surgiram, incluindo sistemas de arrefecimento nas rodas e injeção de líquido na estrutura de carbono.
Uma teoria ainda mais improvável sugere que a água destinada ao piloto poderia estar a ser desviada para arrefecer os travões, algo que não é explicitamente proibido pelos regulamentos.
A Red Bull levantou ainda a possibilidade do uso de módulos termo elétricos (dispositivo Peltier) para controlar a temperatura dos pneus e a FIA já reconheceu que isso não está tecnicamente coberto pela atual regulamentação.
É um dos ‘buracos negros’ do regulamento que sempre existiram e sempre irão existir. Para que estes não existissem seria preciso que as “cabeças pensantes” da FIA fossem melhores que as das equipas. E isso dificilmente sucede.
O que acontece é a FIA refugiar-se no “espírito do regulamento” e proibir a ‘descoberta’.
Seja como for, embora a FIA não considere favorável o uso dessa tecnologia e planeie proibi-la a partir de 2026, esta não é ilegal atualmente, mantendo o mistério sobre o possível segredo da McLaren.
FOTO MPSA/Phillippe Nanchino










