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Jackie Stewart: Escocês suave

José Luis Abreu by José Luis Abreu
15 Agosto, 2024
in Autosport Exclusivo, AutoSport Histórico, F1, FÓRMULA 1, Newsletter, pv2
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Jackie Stewart: Escocês suave

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Na sombra de Jim Clark emergiu outro notável escocês. Rápido, consistente e com um estilo de condução suave, mas preciso como um relógio, Jackie Stewart marcou uma época na Fórmula 1

Já pensou conduzir com uma bola dentro de um alguidar em cima do capot, sem a deixar cair? E, para dificultar, que tal ter que o fazer num slalom? Pode parecer uma habilidade digna do circo, mas Jackie Stewart mostrou que isso era possível durante uma demonstração de condução “finesse” realizada já há um bom par de anos no Autódromo do Estoril.
Oescocês ficou para a história da disciplina graças ao seu estilo de condução meticuloso e cerebral, em que a suavidade fazia parecer fácil o que só estava ao alcance de alguns – tripular nos limites as perigosas e por vezes inguiáveis máquinas de F1 da década de 60. Pontual como um relógio suíço, Jackie Stewart foi coleccionando vitórias e três títulos, até se retirar no seu 99º GP em 1973. A trágica morte do seu companheiro na Tyrrell, François Cévert, nos treinos para o GP dos EUA – que seria o 100ºde Stewart – foi a gota de água, para um piloto que em toda a sua carreira se batera pela segurança na F1 (ver caixa). Jackie
Stewart retirou-se da competição com um recorde de 27 vitórias, que só seria batido 20 anos mais tarde por outro mestre da pilotagem cerebral – o “Professor” Prost.

Ascenção meteórica
Em 1960, John Young Stewart, nascido a 11 de Junho de 1939, esteve perto de se qualificar para os Jogos Olímpicos. Não é que o automobilismo fizesse parte das modalidades olímpicas, mas o escocês era um exímio praticante de tiro aos pratos. Amargurado com o falhanço, estaria longe de imaginar que o destino lhe preparava outro ponto de mira. A sua família estava ligada aos automóveis, como representantes da Jaguar em Dumbarton, e o jovem Jackie desde muito novo trabalhou na oficina como aprendiz de mecânico. O apelo das corridas corria lá em casa, já que o seu irmão Jimmy era um reputado piloto local, que chegou a integrar a Ecurie Ecosse e a competir no GP da Grã-Bretanha de 1953. No entanto, um acidente em Le Mans, colocou um ponto final na carreira de Jimmy, mas não nos sonhos de Jackie, apesar da forte oposição familiar.

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O estigma do acidente do irmão não o impediu de aceitar um convite de Barry Filer, um cliente da oficina, para fazer um test-drive em Oulton Park com alguns dos seus carros. Jackie mostrou imediatamente aquilo que qualquer caçador de talentos descobre a olho nú – era um talento natural. Naquele tempo também já havia “olheiros”, e a fama de Jackie Stewart chegou aos ouvidos de Ken Tyrrell, que o convidou para realizar uma sessão de testes em Goodwood.



Era o início de uma bela amizade e de uma das mais frutuosas parcerias da F1. Jackie Stewart sentou-se no Cooper F3 que Bruce McLaren estava a testar e imediatamente bateu os tempos do experiente neo-zelandês, que regressou imediatamente à pista, para não “passar vergonhas” com o jovem rookie.

Mas Jackie voltou à pista de novo e, uma vez mais, foi superior a McLaren. Logo ali, Ken Tyrrell propôs-lhe um contrato para a temporada de 1964 em F3 e, na sua corrida de estreia, em Snetterton, o escocês obteve uma retumbante vitória. Depois desse primeiro e brilhante ano de formação, Jackie Stewart transitou para a F1, onde se juntou a Graham Hill na BRM, já que, nessa época, Tyrrell não tinha ainda a sua equipa na Fórmula 1.

No seu ano de estreia (1965), Jackie Stewart é a grande revelação, somando o seu primeiro ponto na corrida de estreia em Kyalami, e alcançando a sua primeira vitória apenas no oitavo GP – e logo no exigente traçado de Monza. Nesse campeonato, Stewart “o vesgo”, como era conhecido no paddock, deixou de olhos em bico pilotos consagrados como Clark ou Surtees e terminou o campeonato em 3º lugar.

Consistência
A época de 1966 começou da melhor forma para Jackie, que esteve quase a vencer as 500 Milhas de Indianapolis na primeira vez que correu naquela clássica americana. No entanto, um problema mecânico roubou-lhe o ceptro a oito voltas do fim. O azar continuou a persegui-lo e seria vítima de um aparatoso acidente em Spa, que lhe deixaria sequelas psicológicas e lhe daria uma nova visão sobre o desporto. A carreira de Jackie Stewart só receberia novo e decisivo impulso em 1968, quando Ken Tyrrell o convidou para integrar a Matra-Ford. Depois da morte de Jim Clark, emergia um novo ídolo da Escócia e Stewart foi logo nesse ano vice-campeão, batido pela “velha raposa” Graham Hill. Seria finalmente na sua quinta temporada na F1, em 1969, que Jackie alcançaria o título que já merecia. Apesar das falhas mecâncias que tantas vezes o penalizaram, Jackie Stewart garantiu seis vitórias, duas poles e o seu primeiro título mundial. No dealbar de uma nova década, “o vesgo” era o novo Príncipe da Escócia e Rei da F1. Em 1970, Stewart aceitou um contrato chorudo e transferiu-se para a March, uma opção que resultaria errada, já que o March 701 nunca se mostrou suficientemente competitivo para se bater com Jochen Rindt e Jacky Ickx e, por isso, Stewart aceitou novo convite de Ken Tyrrell para realizar as últimas três provas do ano e integrar a sua equipa na temporada seguinte.

A parada era alta, e a pressão imensa mas, com a frieza e consistência que o caracaterizavam, Jackie Stewart recuperou o ceptro com facilidade, terminando o campeonato com quase o dobro dos pontos do segundo classificado. Esta demonstração de autoridade conferia-lhe o favoritismo para a temporada de 1972, mas afligiam-no úlceras de estômago, a juntar ao estrabismo e à dislexia diagnosticada. Mas a maior úlcera acabou mesmo por ser brasileira: o jovem Emerson Fittipaldi, que despontou como o mais novo campeão mundial de F1 da história. Quando parecia que o seu reinado estava acabado e a sua carreira a dar as últimas, o piloto de bóina escocesa, cabelinho à Beatle e relógio Rolex fez aquela que seria a sua última e provavelmente mais brilhante temporada de F1. Com a motivação em alta e o perfeito domínio da técnica de condução e interpretação do carro, Jackie Stewart deu recitais de condução, como em Monza,
em que, depois de um furo, recuperou de 20ª para 4º, classificação suficente para se sagrar tricampeão do mundo de F1. A alegria daria lugar à tristeza quando, nos treinos para o último GP da época, viu desaparecer Cevert, seu amigo e “protegé”. Jackie pendurou o capacete mas manteve-se para sempre ligado à competição, primeiro como acutilante comentador de TV, depois como proprietário de uma equipa de F1 com o seu filho Paul, que acabaria por ser adquirida pela Ford (por 100 milhões de dólares), formando a Jaguar. Na história da Stewart F1, fica a sua única vitória, alcançada por Johnny Herbert, no Grande Prémio da Europa de 1999.

José Luis Abreu

José Luis Abreu

Entre curvas e muito pó, descobri que o olhar treinado pela fotografia e a paixão pelos ralis só podiam levar a um destino: o jornalismo desportivo. E já lá vão mais de 30 anos…

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