
Faltam seis Grandes Prémios para o final da temporada, sendo esta a fase crítica da decisão dos títulos deste ano. Depois da paragem estival a Mercedes parece ter dado um passo competitivo que poderá ser determinante para o desfecho do campeonato, mas raramente as aparências conferem uma visão fiável da realidade.
Antes de mais é preciso ter em atenção as duas filosofias antagónicas dos dois carros mais eficazes do plantel – o Red Bull RB16B Honda adoptou o conceito de “high-rake”, o que o favorece em circuitos onde a carga aerodinâmica máxima é necessária; o Mercedes continua a abraçar o conceito “low-rake”, que se revela na sua melhor forma em traçados que exigem a eficácia aerodinâmica.
Para percebermos melhor, Monte Carlo é o exemplo extremo de uma pista que requer apoio aerodinâmico sem que o arrasto seja uma penalização a ter em conta, ao passo que Monza está do outro lado, exigindo o máximo de apoio possível sem que o arrasto trave o carro.
Ao longo da temporada temos vindo a verificar que o equilíbrio competitivo tende para um lado ou para o outro de acordo com as características dos circuitos, mas após as férias de verão tem vindo a notar-se um ascendente da Mercedes, mas será esta melhoria da equipa de Brackley uma situação circunstancial ou será algo mais profundo?
Vamos rever os últimos cinco Grandes Prémios

GP da Bélgica – Max Verstappen
Este deveria ser um fim-de-semana em que a Mercedes poderia ter algum ascendente, dado ser uma pista que privilegia a eficácia aerodinâmica, mas a Red Bull conseguiu apresentar uma solução técnica eficaz graças à sua asa traseira, o que colocou os homens da equipa do construtor germânico sob pressão.
Contudo, todo o exercício tornou-se académico com a chuva, tendo Verstappen vencido uma corrida que não existiu graças à sua pole-position.
GP da Holanda – Max Verstappen
O traçado holandês tinha tudo o que o Red Bull RB16B Honda gosta – encadeamento de curvas de média / alta velocidade e o holandês dominou completamente o fim-de-semana.
Lewis Hamilton nada pôde fazer quanto ao ascendente ao seu rival.
GP de Itália – Daniel Ricciardo
Em Monza esperava-se que a Mercedes dominasse e, na verdade, estava um passo à frente relativamente à Red Bull. Bottas foi o mais rápido na qualificação, seguido de Hamilton, e foi o primeiro na Qualificação Sprint. Mas o finlandês montou a sua quarta unidade de potência e teve de arrancar do final da grelha de partida.
Hamilton não arrancou bem nem para a Qualificação Sprint nem para o Grande Prémio, o que o deixou numa posição em que se envolveu num toque com Verstappen, abandonando os dois.
A Mercedes tinha o carro mais competitivo no traçado italiano, mas erros operacionais da equipa e maus arranques levaram à dobradinha da McLaren e ao triunfo de Daniel Ricciardo.
GP da Rússia – Lewis Hamilton
A Mercedes nunca foi batida em Sochi desde que o circuito russo passou a integrar o Campeonato do Mundo de Fórmula 1, sendo um traçado bastante simpático para o conceito do carro de Brackley.
Face ao ascendente esperado da sua adversária, a Red Bull elegeu montar uma quarta unidade de potência no monolugar de Max Verstappen, o que o enviou para o final da grelha de partida.
Com esta decisão, nunca se pôde perceber verdadeiramente se os Mercedes eram mais eficazes que o Red Bull do holandês, uma vez que este, ao longo do fim-de-semana, nunca realizou uma volta em configuração de qualificação.
Para além disso, o líder do Campeonato de Pilotos adotou uma afinação com pouca asa, para lhe permitir ultrapassar durante a corrida, ficando por saber qual o real valor do Red Bull em Sochi.
No entanto, a Mercedes capitalizou o seu ascendente, com o triunfo de Hamilton, mas Verstappen limitou os danos com um segundo lugar oportuno fruto da chuvada nos momentos finais da corrida.
GP da Turquia – Valtteri Bottas
O Istambul Park poderia cair para cada um dos lados – tem longas retas que vão de encontro às características do Mercedes e curvas de média / alta velocidade que poderiam beneficiar o Red Bull.
No entanto, os carros de Brackley mostraram-se claramente à frente e Valtteri Bottas venceu confortavelmente frente a Max Verstappen, que beneficiou da montagem do quarto motor de combustão interna no carro de Hamilton, que ficou em quinto, para terminar em segundo e recuperar a liderança no Campeonato de Pilotos.
Mas a Red Bull foi surpreendida pela crescente aderência do asfalto turco, o que lhe causou problemas de subviragem extrema na entrada das curvas, que se transformava em sobreviragem repentina a meio, quando os pneus dianteiros ganhavam ‘grip’.
Este comportamento permitiu a melhoria de andamento de Pérez, adepto de um monolugar subvirador, ao passo que Verstappen teve mais dificuldades já que gosta de um carro com a frente precisa.
Esta foi uma situação que já se verificou em Hungaroring, onde a Red Bull nunca conseguiu equilibrar o seu carro, perdendo muito para a Mercedes.
A equipa de Brackley foi mais forte, mas deveu-se mais às dificuldades da sua rival, que a uma superioridade técnica inerente da sua parte.
Face ao demonstrado, acreditar que existe agora algum tipo de ascendente da parte da equipa de Brackley parece ser extemporâneo, até porque estamos a falar de diferenças muito curtas – nunca excederam o meio segundo – e estas deveram-se às características dos circuitos e a questões episódicas.
Daqui para a frente veremos, mas pode-se prever que a Red Bull será forte no México e Qatar, ao passo que a Mercedes deverá ser melhor nos Estados Unidos da América na Arábia Saudita. Já o Brasil e Abu Dhabi podem pender para qualquer um dos lados.
Mas sem grandes surpresas ou abandonos, parece seguro que teremos um campeonato intenso até ao último Grande Prémio da temporada.









