F1: Será Carlos Sainz o piloto mais subvalorizado da grelha?
Carlos Sainz voltou a sorrir no Azerbaijão. Depois de mais de meio ano de sofrimento, azares consecutivos e prestações abaixo do desejado, o espanhol conquistou o seu primeiro pódio com a Williams. Um prémio merecido para a equipa e um sinal de esperança para todos os que estão envolvidos no projeto.
Sainz foi, desde o início, uma aposta muito forte de James Vowles. Ainda vestia de vermelho e não pairava sobre si a sombra da sua saída da Ferrari, quando o diretor da Williams iniciou o namoro com o espanhol. Um namoro complicado, mas que acabou por dar em casamento. A aposta quase exclusiva de Vowles em Sainz é reveladora das capacidades do #55, numa altura em que a Ferrari decidiu abdicar dos seus serviços para apostar em Lewis Hamilton.
Um dos mais subvalorizados da grelha?
Carlos Sainz nunca teve a aura de grande talento da F1. Iniciou o seu percurso com Max Verstappen e, já na altura, o neerlandês era visto como uma estrela do futuro, ficando Sainz para segundo plano. Seguiu-se uma fase mais difícil da sua carreira, com uma passagem difícil pela Renault, resolvida com a aposta certeira na McLaren. Foi aí que começou a destacar-se e a transformar-se no Carlos Sainz da atualidade: maduro, inteligente dentro e fora de pista, capaz de cultivar boas relações com os colegas de equipa, com toda a estrutura e, acima de tudo, com uma capacidade de trabalho à prova de bala.

A comparação com os colegas de equipa
A melhor forma (mas também uma das mais injustas) de entender a prestação de um piloto é olhar para o colega de equipa. É o único com o mesmo carro, a mesma equipa e o mesmo material. Nos primeiros tempos da Toro Rosso, Sainz enfrentou Verstappen, com vantagem para o neerlandês: marcou 62 pontos contra 22 do espanhol. Verstappen conseguiu terminar 13 vezes nos pontos, contra 9 de Sainz, e no confronto direto na qualificação a vantagem também foi para Verstappen (por pouco: 11 vs 12).

Seguiu-se Daniil Kvyat, que foi completamente dominado por Sainz, com valores tão expressivos que quase nem necessitam de ser analisados ao pormenor (90 vs 8 em pontos, 17 vs 5 em top 10, 19 vs 12 em qualificação).
Com Nico Hülkenberg, na Renault, a luta foi mais renhida, com vantagem para o alemão: 59 vs 78 em pontos conquistados, 9 vs 16 em qualificação. Apenas no número de vezes que terminou no top 10, Sainz levou uma ligeira vantagem (14 vs 13).

Com Lando Norris, a vantagem tende a cair para o espanhol. Norris fez 2 pódios contra 1 de Sainz, mas a partir daí a balança pendeu para o lado do madrileno: 201 vs 146 em pontos conquistados, 25 vs 24 em top 10. Em qualificação, Norris voltou a ter vantagem (18 vs 20).
Na sua passagem pela Ferrari, também Leclerc ficou por cima de Sainz. O monegasco conseguiu seis triunfos contra quatro, e 30 pódios contra 25 do colega de equipa. Foi também melhor em qualificação (19 poles contra 6) ficando à frente de Sainz 57 vezes contra 32. Como tal, os pontos conquistados também caem a favor de Leclerc (1013 vs 900,5).

Olhando para estes números, parece claro que Sainz tem um ponto fraco na qualificação, mas é um piloto que tende a marcar muitos pontos e raramente fica muito longe ao nível de resultados dos colegas de equipa.
O piloto que melhora as equipas?
Mas há também uma tendência que parece estar a estabelecer-se: as equipas por onde passa ficam melhores. É verdade que, das cinco equipas por onde passou, três estavam em cenários de reconstrução para um futuro melhor (Renault, McLaren e agora Williams). Mas mesmo na Ferrari, uma equipa em teoria sempre pronta para lutar por títulos, houve melhorias.
Na Toro Rosso, de 2015 a 2017, a equipa terminou sempre em sétimo lugar. Na Renault, onde esteve entre 2017 e 2018, encontrou a equipa em nono e deixou-a em quarto. Na McLaren (2019 a 2020), começou com a equipa no sexto lugar e terminou com a equipa em terceiro. Na Ferrari, entrou quando esta tinha terminado na sexta posição e deixou-a em segundo.

Parece que existe uma tendência para as equipas melhorarem com Sainz. E isso deve-se ao já referido: uma capacidade de trabalho impressionante, inteligência na gestão de tudo o que envolve a equipa, e uma boa relação com os colegas de equipa. Claro que não podemos esquecer a conjuntura, mas se as equipas em apuros ou com um projeto para chegar ao topo recorrem a Sainz, por algum motivo é.
O piloto ideal para levar a equipa ao topo
Esta análise pouco pormenorizada mostra um piloto que não tem a velocidade de outras estrelas, mas que compensa isso com uma postura irrepreensível fora de pista e uma abordagem determinada e inteligente às corridas. Nesse capítulo está cada vez melhor, cada vez mais consciente das suas forças e fraquezas, e cada vez mais capaz de conseguir bons resultados. Não tem a velocidade de Leclerc, Verstappen ou Norris até, mas tem outros atributos que são tão ou mais valiosos para equipas que pretendem construir uma base forte rumo ao sucesso. Não foi por acaso que Vowles fez tanta questão de o ter. E não sabemos se a Cadillac ponderou sequer o espanhol, mas sem dúvida que teria de ser uma das primeiras opções, porque Sainz é um piloto que dá muito.

Candidato ao título?
Essa é uma questão mais difícil de responder. Mas, do que vimos na sua passagem pela Ferrari, Sainz não tem tantos argumentos para lutar por um título contra Verstappen ou até mesmo Leclerc, olhando apenas à velocidade pura. Para o espanhol ser um forte candidato, terá de estar inserido no contexto certo. Parece-nos difícil vê-lo como um dos claros favoritos nas casas de apostas.
Será que isso desvaloriza o piloto? De todo! Numa nota mais pessoal, Sainz seria quase sempre um piloto a ter na lista de potenciais alvos. Porque com Sainz há muitas vantagens e a lista de desvantagens é francamente reduzida. Está a fazer o seu caminho na F1 de forma sólida, com trabalho árduo e honesto, e com uma postura impecável. É daqueles pilotos que todos gostariam de ter na sua equipa. Um dos mais subvalorizados? Talvez! Cada vez menos. Um trunfo importante para qualquer equipa que o tenha? Sem dúvida!

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