Se muito se tem falado da estratégia da Ferrari que acabou por beneficiar Sebastian Vettel, as ordens de equipa da Mercedes não terão tido o destaque merecido.
Esta terá sido das poucas vezes que a Mercedes foi apanhada de surpresa ao nível estratégico e o resultado foi… mau. Max Verstappen deu o tiro de partida e entrou nas boxes mais cedo, o que obrigou Sebastian Vettel a entrar também para evitar o tão falado “undercut” do holandês e assim tentar o mesmo a Hamilton. Charles Leclerc entrou a seguir, mas a volta canhão de Vettel deixou o monegasco para trás. Nessa altura Hamilton liderava, mas já não tinha hipótese de responder ao undercut de Vettel e tentava encontrar o espaço suficiente para ir às boxes e ganhar com isso. A Mercedes teve esperança que os Ferrari perdessem muito tempo com o comboio que seguia atrás de Hamilton e que os pneus do britânico aguentassem o esforço suplementar… não aguentaram. Hamilton foi chamado de “emergência” para estancar a hemorragia, mas o mal já estava feito. Solução de recurso encontrada? Pedir a Bottas para levantar o pé e evitar que Hamilton caísse para sexto, naquela altura.
Com isso Hamilton regressou em quarto, com “guarda de honra” de Bottas que, por acaso até é o mais directo adversário de Hamilton na luta pelo titulo, isto se considerarmos uma distância de mais de 60 pontos recuperável nesta fase do ano. Assim, com esta manobra, a Mercedes conseguiu o feito de aumentar a vantagem de Hamilton sobre Bottas em …dois pontos.
Pode dizer que por apenas dois pontos, James Vowles foi obrigado a pedir a Bottas para deixar Hamilton passar, isto depois do finlandês não ter ficado satisfeito com o comportamento de Hamilton na qualificação. É verdade que Bottas é oficialmente o “wingman”, o nº2. Mas a Mercedes escusava de repetir as cenas de Sochi 2018 por dois pontos. Vowles disse que iria compensar Bottas. Quando isso irá acontecer? Já na próxima em Sochi onde Bottas é tradicionalmente forte?
Mas no fundo, Mercedes fez o que achou melhor para os seus interesses e Bottas como empregado de uma marca fez o que lhe foi pedido. A decisão da Mercedes, analisada de forma fria, também se entende e colocou o seu nº1 na melhor posição, numa pista onde os Safety Cars são quase uma certeza e onde tudo pode acontecer. Mas vendo pelo lado humano deve ter sido duro para Bottas ter ouvido o pedido pare levantar o pé ao ritmo de três segundo por volta para deixar passar Hamilton. E a equipa poderia ter poupado Bottas até porque a diferença pontual é enorme e Hamilton tem o campeonato mais que controlado. No entanto é muito mais fácil falar de psicologia do desporto dias após a corrida, do que tomar uma decisão em ambiente de pressão como é um GP. A Mercedes foi cruel com Bottas, mas terá agido como achou melhor na altura. E por isso o desporto é apaixonante pois a busca da perfeição raramente é bem sucedida.
Bottas parece estar resignado ao seu papel de “Team Player”. Talvez isso lhe tenha valido mais um ano de contrato. Mas talvez também lhe tenha valido até agora menos sucesso do que o seu talento prometia.










