Em Portugal trabalha-se tão bem, ou melhor, do que lá fora. Temos portugueses reconhecidos em todo o mundo graças à sua qualidade e ao seu trabalho. São verdades, repetidas vezes sem conta, o que sentimento de orgulho de quem vê as nossas cores reconhecidas. Mas, por vezes, falta conhecer melhor a realidade. Quem são os melhores e como se destacam? Foi isso que quisemos fazer com a Vialsil, uma empresa cada vez mais ligada ao mundo do desporto motorizado.
Há quase 30 anos que a Vialsil constrói e conserva vias de comunicação em Portugal, a partir da sua sede em Baião. Um trabalho contínuo e quase invisível de conservação e preparação de estradas que todos os dias recebem milhares de veículos. Um trabalho que apenas é entendido e valorizado em casos extremos como o do comboio de tempestades que obrigou várias empresas a trabalhar dia e noite para repor vias de comunicação como a A1. A Vialsil tornou-se numa referência nesta área, graças ao seu trabalho.
Mas foi em Vila Real, que a empresa deu os primeiros passos no desporto motorizado — um percurso que, mais de uma década depois, a levou até ao novo Circuito de Madrid, palco do Grande Prémio de Fórmula 1.
Por altura das corridas de Vila Real, falámos com Nuno Magalhães, diretor de produção e diretor comercial da Vialsil, sobre esta jornada, os desafios técnicos do projeto espanhol e o orgulho de ver mão-de-obra portuguesa a garantir a segurança de um dos espetáculos mais mediáticos do mundo.

O que é a Vialsil e em que áreas atua?
“A Vialsil já há muitos anos é uma empresa de conservação de vias, como autoestradas, estradas nacionais, construção de vias, limpeza de vias, guardas de segurança, estruturas em betão, estruturas metálicas. Portanto, a manutenção de estrada e autoestradas. Trabalhamos com parceiros como a Brisa, Ascendi, Infraestruturas de Portugal.”
Quantos colaboradores tem a Vialsil atualmente?
“210 colaboradores próprios, mais alguns subcontratados — atualmente andamos na ordem dos 250 a 260 colaboradores. Dos 210, cerca de 30% são imigrantes, já há muitos anos connosco, completamente integrados. Sabemos receber pessoas — são tão válidas como as outras.”
Como é que a empresa começou a trabalhar no desporto motorizado?
“Ao longo do tempo fomos entrando no desporto motorizado, na parte dos equipamentos de segurança, os “rails”, os equipamentos de betão, as redes, assistência durante o fim de semana de prova. Isto começou aqui em Vila Real, há mais de 10 anos. Com exceção de um ano, foi sempre connosco. E daqui partiu para outros palcos: começámos a fazer alguns trabalhos no circuito de Portimão, Estoril, Montalegre, entre muitos outros exemplos, e começámos a trabalhar com conhecidos parceiros nesta área. Criamos uma relação muito estreita com um líder mundial de segurança certificado pela FIA, que é o grupo Geobrugg, e acabámos por surgir neste projeto comum, em Madrid.”
Qual foi, concretamente, o momento que marcou o início desta ligação ao motorsport?
“É aqui a nossa intervenção no Motorsport, aqui em Vila Real que nasce. Eu sou de cá, nasci em Vila Real, tenho responsabilidades na Vialsil, sou diretor de produção e comercial, e como tenho esta paixão, foi um passo em que uni a parte profissional a uma vertente emocional muito forte. Fomos aprimorando e desde então abriram-se outras portas, outros desafios que temos encarado com grande entusiasmo.”

Magalhães recorda ainda um episódio marcante nesse percurso inicial, um grande acidente com mais de 20 carros envolvidos em 2018. Nesse dia, pensou-se que a festa teria de ser adiada para o outro dia, mas o trabalho da Vialsil, juntamente com todos os comissários, permitiu que a corrida recomeçasse em tempo record, pouco mais de uma hora depois. Depois de rails substituídos, pista limpa, carros retirados e tudo verificado. Um tratado de como se trabalha depressa e bem:
“Fomos nós que fizemos a assistência, que fizemos a reparação, em tempo record — 15, 20 minutos. Questionaram-se se era possível haver corrida no dia seguinte. Nós dissemos: ‘isto compõe-se, se nos derem ordem, compomos já, daqui a 10, 15 minutos estão a correr.’ E foi assim. Nós demorámos muito pouco tempo a reparar as guardas — muito menos tempo do que demoraram a tirar as viaturas.”
Qual é, exatamente, o trabalho da Vialsil no novo Circuito de Madrid?
“É da nossa responsabilidade toda a parte que de guardas de segurança e redes de proteção. É engraçado, porque lá não são guardas metálicas “rails”, são elementos de betão, com uma rede de proteção por cima, uma estrutura combinada entre metal e betão. Há uma parte fabricada em Portugal e transportada para Madrid, que são os elementos de betão. As partes metálicas foram transportadas de outro país, e ambas foram montadas e instaladas pela Vialsil. A assistência à prova também vai ser nossa. Para além disto, instalaamos também os elementos TechPro, e as barreiras SAFERs, usadas na NASCAR, que foram aplicadas na Curva Monumental e noutras zonas. Para nós é um grande desafio, que aceitámos com muita vontade. Tem corrido muito bem, graças a Deus, temos sido reconhecidos por toda a gente.”
Existe muita diferença entre trabalhar em autoestradas e trabalhar num circuito de Fórmula 1?
“Há princípios que têm de ser os mesmos: a qualidade, a pontualidade, a disponibilidade — que são os nossos valores — são os mesmos, é tudo transversal. Mas, efetivamente, há alguns desafios que se impõem: há ainda menos espaço para erros. Nos nossos trabalhos correntes, nas autoestradas, também temos horários rígidos — trabalhamos de noite, temos que sair às 6h, 6h30, para que as pessoas quando vão para o trabalho de manhã não deem conta de que houve trabalhos durante a noite. Mas aqui há muito menos espaço para erro. As velocidades são muito superiores. Temos de ter duplas verificações em tudo, temos de planear ainda mais estes trabalhos de fim de semana de apoio ao evento. O pessoal tem de verificar tudo — se não falta nenhum material, o parafuso, o cabo, a calha, o prumo alto, o prumo baixo. Tem de haver todos os elementos. Quando vamos para a pista, temos de conseguir fazer o trabalho — não há espaço para voltar ao estaleiro para ir buscar material. É esse planeamento que nos permite ser eficientes. Existe lá fora também, mas aqui em pista o espaço para o erro é muito mais reduzido. Os equipamentos têm de ser duplicados, as ferramentas têm de ser duplicadas. Temos de estar sempre a pensar nisto constantemente, porque efetivamente não há plano B. É à primeira, ou então ficamos mal e servimos mal o cliente.” Tudo tem de ficar resolvido num curto espaço de tempo pois um grande espetáculo depende disso.”

A Vialsil faz parte apenas da instalação ou também do projeto de engenharia?
“Tratamos apenas da instalação. Em Madrid fazemos parte da solução, juntamente com outras empresas — a Tilke, que faz o projeto e acaba por fiscalizar. O nosso parceiro é a Geobrugg, que tem os elementos certificados, e a TechPro, também com elementos certificados. Nós instalamos aquilo que nos é imposto, de acordo com as regras e as características do produto. Por vezes somos questionados se faz sentido desenvolver alguma alteração — damos os nossos inputs. São sempre equipas pequenas, decisões rápidas, com duas, três entidades a conversar para facilitar o desenvolvimento. Estão sempre a desenvolver novos produtos, sempre a otimizar produtos antigos. São elementos testados em ambiente controlado, ao mais ínfimo pormenor. É muito parecido com a norma que existe para as vias de comunicação, mas no motorsport tem o carimbo FIA. São precisos muitos desenvolvimentos, e nós somos muitas vezes parte da solução.”
São os vossos trabalhadores que reparam as barreiras em caso de acidente durante o Grande Prémio?
“No Grande Prémio de Madrid, se um carro for contra uma proteção e virmos algumas pessoas a tentar reparar, são portugueses que estão a trabalhar. 95% dessas reparações vão ser feitas por colaboradores de uma empresa portuguesa.“
Essas pessoas são formadas por vocês?
“Formadas pela Vialsil e formadas por estas três entidades de que fomos falando em Madrid. Isto é um processo: as pessoas que andaram a montar as estruturas são as mesmas que vão lá ficar, porque têm o know-how e a aprendizagem feita. As equipas foram criadas já a pensar que serão as mesmas quando ficarem para a assistência. O normal na Fórmula 1 é embater nas TechPro e se for preciso mudar ou reparar algo nessas estruturas vamos ser nós chamados. Os elementos de betão, se for preciso trocar, vamos ser nós. Mas se for necessário, alguém estará muito mal, porque as estruturas são muito sólidas e com pouca deformação. Também nas redes se for preciso trocar elementos vamos ser nós. Já sabemos exatamente os sítios onde temos de estar, a quantidade de pessoas e de responsáveis. Já ao dia de hoje sabemos onde vamos estar posicionados, as pessoas já estão escolhidas, já estão credenciadas, já está tudo tratado. Para a corrida já está tudo mais do que planeado por parte da FIA, da Tilke, e do IFEMA — que é o dono de obra.”
Esses trabalhadores, um ano antes, estavam a cuidar das nossas estradas…
“Sim. É um bocado isso. Não andamos a escolher os melhores, porque todos os nossos colaboradores são bons — para nós qualquer colaborador é o melhor, toda a gente tem a sua função. Mas sim, há um ano atrás esses colaboradores estavam a cuidar dos utentes das nossas estradas. Chamamos-lhes os cuidadores improváveis — temos uma obra de arte à porta da sede que diz isso mesmo, porque os nossos colaboradores cuidam de todos os portugueses e utentes nas vias. E agora estão efetivamente a montar um circuito a nível mundial. Podemos dizer que são portugueses que fazem parte daquele espetáculo, parte fundamental da segurança. A segurança é fundamental em tudo — hoje em dia é sempre um tema, a primeira coisa que as pessoas se preocupam é a segurança. E para nós é uma questão que nos é cara.”
Há um paralelo com a reparação da ponte danificada nas cheias, também feita pela Vialsil?
“Em parceria com a MotaEngil, conseguimos, em 15 dias, colocar aquela estrutura funcional novamente. Para nós é gratificante mas não gostamos de falar muito sobre o que fazemos. Estamos no nosso cantinho, a fazer o nosso trabalho. Para nós é muito gratificante ter acesso a estes projetos, a estes desafios. E sentimos que é reflexo do trabalho de todos, da dedicação de toda a gente, da procura incessante de desafios. Mas mais do que procurá-los, é a nossa gratidão para quem confia em nós. O que queremos é que, no final, seja o cliente particular, o presidente de junta que nos pediu 10 metros de guarda, ou a FIA no circuito de Fórmula 1, estejam totalmente satisfeitos. Isso para nós é fundamental.”

Sente-se responsável por ter trazido a Vialsil para o motorsport?
“Posso dizer que tenho uma grande responsabilidade nisso, mas não sou o culpado, porque depois as pessoas têm de acreditar, têm de gostar, de aprender a gostar. Claro que a minha paixão pelas corridas de Vila Real abriu esta porta, mas depois toda a estrutura aceitou o desafio e, com isso, cresceu rumo a desafios ainda mais aliciantes.”
A Vialsil faz também outro tipo de trabalho no circuito, além da segurança?
“Sim, fazemos também o waterblasting no pavimento, para melhorar as condições de atrito. O circuito tem pavimento totalmente novo, com o betume muito à superfície. Temos um equipamento específico para fazer limpeza a alta pressão da superfície. Se ouvirem dizer que o pavimento não tem atrito, os culpados seremos nós — mas isso não vai acontecer, porque já testámos há dois meses. Temos uma empresa alemã contratada, reconhecida pela Tilke, para nos acompanhar diariamente e medir o atrito da superfície. Portanto, Motorsport para nós é: segurança, apoio ao evento, montagens e desmontagens, limpeza de pavimentos. São pequenos ajustes daquilo que já fazíamos nas autoestradas, transportados para o motorsport — com esta paixão pelas corridas, que tem de existir, porque é um meio muito exigente e muito dedicado.”
Há outros projetos em vista?
“Temos algumas coisas, mas para já ainda não posso falar. Pagamos o preço de estarmos longe do centro da Europa — mas também temos a vantagem de, se for preciso ir para outro continente, estarmos tão longe como os outros. Há sempre várias hipóteses em estudo. Mas há outros projetos, mesmo aqui em Portugal.”








