F1: Em busca do “ouro negro”… sintético
Se do lado da aerodinâmica e da mecânica estamos a entrar numa fase de menor inovação, com o controlo de custos, do lado das unidades motrizes teremos um congelamento que irá durar até 2025, em que as unidades não poderão ser modificadas (salvo algumas exceções). Mas há um componente que ganha cada vez mais importância e que poderá ser a chave do sucesso no presente e no futuro… os combustíveis.
Sem combustíveis, não há corridas. É uma premissa muito fácil de entender pois o “coração” das máquinas depende do precioso líquido que se transforma em energia. A busca pela eficiência energética levou a que as unidades motrizes da F1 atingissem os 50% de eficiência, um numero tremendo que deveria ser publicitado em todo o mundo. Numa altura em que as preocupações ambientais são cada vez maiores, é importante, além de encontrarmos novas formas de energia, tornar os sistemas atuais mais eficientes (fazerem o mesmo trabalho com menos energia despendida) e a F1 começou a percorrer esse caminho em 2014. Se em pista a evolução foi penosa e muito cara, o resultado final é motivo de orgulho. Unidades motrizes que conseguem ser eficientes e fiáveis, sendo que cada motor tem de fazer, em média, 7 GP o que significa à volta de 2500 km (número redondo que varia de caso para caso) a um ritmo diabólico com níveis de desgaste infernais. Não podemos dizer que os F1 gastam menos que um carro de estrada, pois o seu consumo médio ronda os 38L/100km o que não faz deles máquinas poupadas… à primeira vista. Estas unidades motrizes gastam menos um terço do que as unidades V8 gastavam e se a tecnologia aplicada à F1 fosse aplicada ao dia a dia, teríamos carros com uma eficiência espantosa (aliada a um custo tremendo, dado o que custam estes sistemas).
Podemos falar de MGU-K, do fabuloso MGU-K, das baterias, todos componentes fundamentais na obtenção da grande eficiência dos motores, mas esquecemos por vezes um componente que é fundamental nesta equação. O combustível.
Com a chegada dos novos motores, foi preciso retirar ainda mais potência de um bloco mais reduzido, pois não podemos esquecer que os V8 eram blocos de 2.4L sendo que os atuais V6 são blocos de 1.6L. Cada explosão na unidade de combustão interna passou a ter mais importância ainda e cada gota de combustível passou a ter de ser usada com mais eficiência. Era preciso fazer o combustível explodir de forma mais específica, com mais sofisticação e no tempo certo. Começamos a ouvir falar cada vez mais de novos combustíveis específicos, criados pelos fornecedores de cada equipa para potenciar a eficiência das unidades motrizes. Muito do trabalho que é feito nas unidades motrizes depende também do trabalho de investigação feito nas companhias petrolíferas que usam a F1 como laboratório para novas soluções. Não se trata apenas de fornecer uma equipa de F1 e ter o nome no carro. Daqui para a frente, as petrolíferas vão querer estar na F1 nem que gastem muito dinheiro, pois o seu futuro começa a depender disso.
A F1, tal como a grande maioria das competições automobilísticas assumiu a sua responsabilidade ambiental e pretende ser neutra em emissões de carbono em 2030 e muito desse esforço depende da introdução de um novo combustível 100% sintético e sustentável. A ideia é retirar o carbono do ar para o voltar a usar nos combustíveis, uma tecnologia que já existe mas que ainda é cara. Mas é aqui que reside o segredo da fórmula para o futuro da F1… e dos motores a combustão. Ninguém duvida que os motores elétricos são a solução para o futuro, pois são muito mais eficientes, fáceis de manter e mais versáteis. Mas não são a única solução. É esta ideia quase dogmática de que os elétricos são a salvação do mundo a médio prazo que começa a ser rebatida pela F1 e por outras competições. Os motores a combustão ainda têm muita vida pela frente e podem ser usados, desde que façamos as mudanças adequadas e os combustíveis sintéticos são essa solução. Se conseguirmos usar os motores de combustão sem aumentar o carbono no ar, poderemos dar mais vida aos motores enquanto preparamos de forma mais ponderada e planeada o futuro elétrico. Este pensamento está na base da F1 do futuro, que pretende dar aos motores a combustão um palco privilegiado, com relevância desportiva e ambiental. E nesse palco entram também as empresas petrolíferas.
Cada equipa tem quase um fornecedor exclusivo de combustível e por motivos fáceis de entender. Cada empresa pode oferecer soluções técnicas únicas e com isso uma vantagem competitiva, além de poder ser publicitada como uma das empresas que têm “combustíveis limpos.” As parcerias como a da Mercedes com a Petronas, da Ferrari com a Shell, da McLaren com a Gulf, da Alpine com a BP/ Castrol, da Aston Martin com a Aramco da Red Bull / Alpha Tauri com a ExxonMobil, da Alfa Romeo com a PKN Orlen passam a ser mais do que apenas contrato de fornecimento. São parceiras técnicas com um peso tremendo na competitividade da equipa. E estas empresas não vão olhar a meios para atingir os fins. E quais são esses fins? Serem bem sucedidos em pista e, acima de tudo, criar combustíveis sintéticos. Por isso não será surpreendente se a guerra entre fornecedores de combustíveis comece a subir de tom, que outras empresas se interessem também (trazendo mais dinheiro). Pois no final, há “apenas” dez montras para mostrar as soluções para o futuro.
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Chicanalysis
7 Fevereiro, 2022 at 14:55
Greenwashing.