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F1: A velocidade ao ritmo da mente

Fábio Mendes by Fábio Mendes
13 Abril, 2020
in Autosport Exclusivo, F1, FÓRMULA 1
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O sucesso no desporto motorizado exige uma conjugação de fatores nem sempre fácil de conseguir. Mas há um ingrediente fundamental que faz a diferença entre os grandes campeões e os bons pilotos.

A primeira vez num carro de competição é algo inesquecível e que nos acompanha para o resto da vida. Tudo acontece a uma velocidade tremenda, mas o que mais impressiona é a exigência mental necessária para controlar tudo em frações de segundo. No final da experiência chega-se ao fim e surge inevitavelmente a questão… se isto é assim aqui, imagino num F1.

Na verdade é difícil para o “comum dos mortais” imaginar o que será enfrentar as forças G em curva e na travagem de um F1, ou a força em aceleração. A juntar a tudo isto, os pilotos têm de lidar com a dinâmica do carro, com um volante complexo que comanda um sem fim de funções e configurações, com a estratégia, com a sinalização dos comissários, com os adversários… Dizer que pilotar um F1 hoje em dia é fácil é como dizer que é fácil domar um leão; é fácil para quem sabe, dá muito trabalho e mesmo assim pode correr mal.

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Tudo isto exige treino intenso, ininterrupto e uma dedicação sem fim. Horas e horas no carro a aperfeiçoar a técnica. E como se isso não bastasse, há também a componente física. A exigência física de um F1, em que os pilotos passam praticamente 8 horas dentro do carro, numa posição em que o corpo não está concebido para estar, sujeito a calor extremo, forças extremas, isto durante 20 fins de semana, exige do piloto uma preparação física a toda a prova. A frequência cardíaca média ronda as 180 pulsações por minuto, o que durante uma corrida de hora e meia provoca um desgaste extremo no organismo. É por isso que vemos os pilotos a terem cuidados redobrados com a sua forma física.

Os primeiros cuidados

Ayrton Senna percebeu cedo que não estava preparado fisicamente para a F1 e sem a parte física apurada, não poderia ter o rendimento máximo desejado e recorreu ao preparador Nuno Cobra para ganhar a força e resistência necessária para estar ao mais alto nível de forma constante. Terá sido dos primeiros pilotos a levar mais a sério a questão física (e mental) e essa preocupação ganhou outro impulso com Michael Schumacher, famoso por levar consigo um ginásio onde treinava com uma regularidade religiosa.

https://www.youtube.com/watch?v=5JvSeL2eBgU

Se nos anos 90 a questão do treino físico era pouco comentada, hoje faz parte do dia a dia dos pilotos e é inconcebível que qualquer piloto de topo não tenha um programa de condicionamento físico, independentemente da categoria onde compete. E as cargas físicas que a que se sujeitam em nada ficam a dever a outros desportistas de alto nível. Jenson Button por exemplo, tornou-se praticante de triatlo e os seus tempos não ficavam muito longe dos feitos por atletas olímpicos.

A força mental

Toda esta dedicação, todo este trabalho exige algo fundamental na F1… força mental. Tudo o que foi acima referido, todo o trabalho, todo o talento só faz sentido se o piloto tiver a capacidade mental para lidar com a exigência. E por muito fácil que possa parecer a vida de um piloto, a realidade é muito diferente.

Lembro-me sempre de Tiago Monteiro quando vai a Vila Real correr. O mar de gente que enche a capital transmontana quer ver o ídolo nacional em ação. É impossível contar a quantidade de autógrafos, selfies, cumprimentos que o piloto português tem de dar. Num fim de semana tem de interagir com centenas de pessoas, nos quais se incluem fãs, patrocinadores, representantes de várias entidades, tudo isto sem perder o foco que é a corrida. A cada sessão de treino tem de falar com o engenheiro e tentar afinar o seu carro, depois falar com jornalistas, falar com fãs, falar com convidados… independentemente do que aconteceu dentro de pista. Não há tempo para lamentar um mau resultado ou um problema, é preciso continuar a sorrir e alimentar a máquina de marketing que é a grande fonte de rendimento dos pilotos e dos campeonatos.

Na F1 o cenário é o mesmo, mas com exigência e pressão a dobrar (e o mundo do WTCR já é muito exigente). Só os mais bem preparados e mais forte psicologicamente poderão singrar num desporto assim. São muito os casos de grandes talentos que ficaram pelo caminho porque não conseguiram lidar com a pressão da F1. Outros bateram no fundo, mas conseguiram recuperar. O caso de Romain Grosjean é o exemplo perfeito.

O caso Grosjean

Grosjean era a grande esperança do automobilismo francês, tendo vencido na Fórmula Renault francesa, Fórmula 3 Euro Series, Auto GP, GP2 e GP2 Asia Series por duas vezes. O seu currículo nas categorias de iniciação antevia uma carreira brilhante na F1, mas a realidade trouxe algo diferente e o francês enfrentou muitos desafios. Muitos dirão que nos melhores dias, Grosjean está ao nível dos melhores e os dados mostram isso, mas é um piloto muito dado a erros. Em 2012 a sua carreira esteve a beira do fim com o acidente em Spa a ser o corolário de uma série de erros e acidentes que levaram a uma suspensão. Podia ter sido o fim, mas o Grosjean reconheceu que precisava de ajuda, procurou um psicólogo e desde então o piloto mudou radicalmente. Desde o acidente até a sua ida para a Haas em 2017, foram praticamente inexistentes os erros do piloto francês que conquistou 10 pódios nesse intervalo de tempo. Voltou a errar na Haas, com a pressão mediática a ser ainda mais intensa, mas conseguiu sempre recuperar e vai-se mantendo na F1 apesar de a cada ano se pensar que é o último.

Kvyat Vs Gasly e o exemplo de Albon

Daniil Kvyat viu a sua carreira subir de forma meteórica e quase à mesma velocidade ficou fora da F1. Depois de uma promoção quase inesperada e uma ascensão demasiado rápida à Red Bull, o russo não conseguiu gerir da melhor forma a sua despromoção da Red Bull para a Toro Rosso, e chegou até a chorar mo rádio, o GP do Mónaco, tendo sido afastado ainda antes do fim do campeonato. Se não fosse por um golpe de sorte (falta de jovens talentos no programa da Red Bull), a sua carreira na F1 estaria acabada. Pierre Gasly passou pelo mesmo, mas conseguiu encontrar a força para se reerguer na Toro Rosso, e até conquistou um inesperado pódio e não tem a carreira em risco mesmo depois da despromoção. Esta é a grande diferença entre um piloto forte mentalmente e outro sem a mesma capacidade.

Alex Albon é outro caso que merece destaque. Esteve várias vezes perto de dizer adeus à sua carreira de piloto mas foi superando as adversidades e em 2019 teve a oportunidade de ouro na Toro Rosso, que não desperdiçou. Mais ainda foi colocado à prova na Red Bull na segunda metade do ano e conseguiu impressionar os responsáveis da equipa, quando a pressão era grande. Sem a força mental que o tailandês tem evidenciado era fácil ter falhado o objetivo.

Link para o vídeo AQUI

Hulkenberg vs Pérez

Nico Hulkenberg e Sergio Pérez são outra dupla que merece alguma análise. Hulkenberg é visto por todos como um grande talento e a sua carreira nas categorias de iniciação fazia antever um futuro brilhante. Se compararmos os feitos do “jovem Hulkenberg” com os do “jovem Pérez”… não há comparação possível. A quantidade de títulos conquistados pelo alemão superam em muito os do mexicano. No entanto na F1, Hulkenberg tem o triste recorde de ter feito 177 GP sem nunca ter subido a um pódio enquanto Pérez em 179 GP tem oito pódios em seu nome. Ambos passaram pela Sauber, ambos correram pela Force India e a sua carreira tem alguns paralelismos interessantes. A grande diferença é que quando Pérez teve oportunidade de subir ao pódio nunca desperdiçou. Hulkenberg teve as mesmas oportunidades mas nunca conseguiu materializa-las e a pressão foi aumentando.

Link para vídeo AQUI

As recuperações de Massa, Vergne e Perera

Felipe Massa é outro caso que merece destaque. O piloto brasileiro esteve perto de se sagrar campeão do mundo perante o seu público mas viu o seu sonho escapar-lhe entre os dedos, naquela que terá sido a sua vitória mais amarga. No ano seguinte sofreu um acidente que lhe ia custando a vida, regressou mas teve dificuldades em voltar ao nível que tinha mostrado. 2012 terá sido um dos anos mais difíceis para o brasileiro e nas primeiras 10 corridas apenas conseguiu por quatro vezes marcar pontos enquanto o seu colega Fernando Alonso conseguiu seis pódios. Massa, que ponderou abandonar a competição naquele ano, recorreu a um psicólogo e os resultados saltam à vista: as 10 corridas seguintes foram terminadas nos pontos, seis no top5 das quais duas no pódio.

Jean Éric Vergne perdeu a vaga na Red Bull para Daniel Ricciardo e penou para regressar ao mais alto nível. No ano seguinte em que foi colega de equipa de Kvyat arrastou-se pelas pistas sem motivação até ser dispensado, sem surpresa. Demorou alguns anos até reencontrar a forma e a alegria de correr, na Fórmula E e no ELMS.

Franck Perera piloto da Lamborghini bateu-se com Lewis Hamilton nas categorias de iniciação, teve um contrato com a Toyota, estando inserido no programa de jovens pilotos mas ficou sem vaga na F1 depois do corte radical da marca nipónica no projeto o que o deixou sem carreira e sem rumo, lutando contra uma depressão. Demorou tempo até regressar a um nível competitivo decente, apostando nos GT´s. Perera admitiu a dificuldade que foi recuperar mentalmente e adaptar-se a uma realidade nova. Agora é piloto de fábrica bem estabelecido.

O exemplo de Rosberg

Nico Rosberg enfrentou aquele que é considerado por muitos um dos melhores pilotos de sempre da F1, Lewis Hamilton. Ao nível da velocidade pura, Rosberg não estava longe de Hamilton mas o alemão dava-se mal com a guerra psicológica que o britânico provocava. De tal forma que obrigou Rosberg a dedicar-se de corpo e alma no busca pelo seu objetivo, o campeonato. Contratou um profissional para lidar com a parte mental, muitas horas ao treino mental. Desse tempo, 40 minutos diários foram usados na pratica de meditação. Resultado? Rosberg bateu Hamilton e foi campeão, saindo logo de seguida admitindo que a época tinha sido demasiado exigente e que não estaria disposto a sacrificar a sua família como fez.

Mesmo Lewis Hamilton, que agora é provavelmente o piloto mais forte mentalmente do grid, sofreu muito para chegar ao nível que atingiu. Nos primeiros anos era fácil verificar variações na sua performance e em tom de brincadeira, dizia que se ele estivesse chateado com a namorada que não valia a pena contar com ele para as apostas. Hamilton evoluiu muito nesse capítulo e agora é difícil que perca o foco, que cometa erros ou que se deixe abalar com problemas fora do seu controlo. Embora tenha sempre recusado a ideia de trabalhar com psicólogos desportivos, Hamilton beneficiou muito do trabalho de Aki Hintsa. Hintsa era especialista em Cirurgia Ortopédica e Traumatológica e trabalhou como médico e Diretor Médico no paddock de Fórmula 1 durante 11 anos. O seu interesse em melhorar o desempenho de atletas começou enquanto ele trabalhava como médico missionário na Etiópia nos anos 90. Lá, ele estudou a vida do maior corredor de longa distância do mundo, Haile Gebreselassie, e chegou a entender que o sucesso e o desempenho ideal são simplesmente um subproduto do bem-estar de uma pessoa.

Com base nessa revelação pessoal, o Dr. Hintsa criou o seu método, que foi adotado por vários campeões de F1, atletas internacionais de elite e altos executivos de grandes corporações. Hintsa começou a trabalhar com Mika Hakkinen depois do acidente em 1996 e desde então ganhou ligações fortes na McLaren tendo trabalhado também com Kimi Raikkonen, Lewis Hamitlon e Sebatian Vettel. A fisioterapeuta que acompanha Hamilton, Angela Cullen trabalha para a Hintsa Performance, empresa criada por Aki Hintsa para acompanhar atletas de alta competição seguindo a sua metodologia.

Riccardo Ceccarelli médico que trabalhou com vários pilotos, tem uma clínica de alto rendimento onde estuda as várias componentes que fazem de um piloto um potencial campeão. Ceccarelli falou recentemente de Charles Leclerc que desde cedo se evidenciou nos testes de avaliação. Enquanto, por um lado, os “traços de personalidade” mencionados por Ceccarelli são usados para avaliar os talentos muito jovens, cada estrela aprendeu a cuidar de sua área sombria de forma permanente, bem como da luz que emana do seu talento.

A combinação ideal: a dedicação à competição de campeões como Schumacher ou Fernando Alonso (ambos em constante desafio, com qualquer um), e o distanciamento que mostra Kimi Raikkonen, cujo corpo raramente mostra uma tensão específica. Nesse sentido, o campeão por excelência é Robert Kubica: “Kubica ofereceu a mais impressionante gama de dados já vistos. Trabalhar nele não fazia sentido: ele já estava pronto, por causa de suas próprias características ”.

Uma questão de sobrevivência

Não se trata apenas de uma questão de resultados ou competitividade. Na F1 uma boa saúde mental é uma questão de sobrevivência. Se noutros desportos uma distração implica um ponto perdido ou um golo para o adversário, no desporto motorizado uma distração pode ser a diferença entre a vida e a morte.

Link para vídeo AQUI

Jody Scheckter, campeão de F1 de 1979, começou a sentir que não tinha o foco ideal para correr na F1. O sul africano começou a cometer demasiados erros e deixou a competição no ano seguinte a ter conquistado o título. O piloto admitiu que já não tinha a mentalidade certa para competir ao mais alto nível e deixou a F1 por temer que algo de pior lhe pudesse acontecer. Ainda tentou convencer o seu amigo Gilles Villeneuve a deixar a F1 antes do GP da Bélgica de 1982, mas o canadiano não deu ouvidos ao seu amigo e ainda enraivecido pela traição de Didier Pironi, foi para a pista talvez sem o foco devido e o resultado foi um acidente fatal.

Uma mente sã, focada, com capacidade de resiliência e uma confiança a toda a prova são apenas alguns dos muitos aspetos fundamentais para um piloto de alta competição ser bem sucedido. Para enfrentar a exigência do desporto dentro e fora de pista. Para domar as máquinas mais potentes do mundo, enquanto avalia o comportamento dos adversários e ouve as indicações do engenheiro, isto numa corrida em que talvez esteja sob pressão do seu chefe de equipa que lhe exigiu um resultado bom, perante o lhar de milhões de fãs que não hesitarão em usar as redes sociais para ridicularizar um possível erro. Os pilotos de topo não são normais… tem uma aura diferente, uma visão do mundo diferente e uma forma de pensar diferente. Porque a sua profissão assim o exige.

Fábio Mendes

Fábio Mendes

Em 2013 criei um blog com um grupo de amigos, que me abriu as portas para o fantástico mundo do motorsport e do AutoSport, onde escrevo desde 2017.

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