F1: 12h e mais de 150 voltas. O trabalho de um piloto nos simuladores das equipas

Por a 13 Outubro 2025 17:02

Nos últimos tempos era recorrente ver a Red Bull com dificuldades às sextas-feiras, com o andamento revelando nos treinos muito longe do desejável, para no dia seguinte ver a equipa a surgir em pista muito mais competitiva. O trabalho feito no simulador da equipa revelou-se fundamental para nessas situações. Assim, a posição de piloto de testes e desenvolvimento, muitas vezes encarada como secundária, tem uma importância fulcral.

O exemplo de Alex Albon

Antes de ingressar na Williams, Alex Albon foi piloto de testes da Red Bull. O seu no simulador durante a temporada de 2021 revelou-se fundamental para o sucesso da equipa e mereceu elogios públicos de Christian Horner. O piloto tailandês desempenhou um papel decisivo na afinação dos monolugares de Max Verstappen e Sergio Pérez, tornando-se uma peça-chave na preparação dos fins de semana de Grande Prémio.

Durante os fins de semana de corrida, o seu papel consistia em replicar no simulador os problemas relatados por Verstappen e Pérez, testando soluções em tempo real. “Se o Max diz que o carro está solto de traseira na Curva 2, ajustamos o simulador para sentir o mesmo e encontrar a correção ideal”, explicou.

Esta colaboração constante permitiu à Red Bull otimizar o carro entre sessões e reforçar a sua competitividade num campeonato extremamente equilibrado. O próprio Albon reconheceu que a experiência o tornou um piloto mais completo. “Estar envolvido em todo o processo ajuda-me a perceber melhor o que é preciso para tornar o carro mais rápido. É algo que levo comigo para o futuro”, afirmou.

O trabalho de Will Stevens na McLaren

No coração do McLaren Technology Centre (MTC), enquanto Lando Norris e Oscar Piastri enfrentam o cronómetro nos circuitos de Fórmula 1, Will Stevens entra em ação no simulador, desempenhando um papel essencial no desempenho da equipa britânica. O ex-piloto de F1 — que competiu pela Caterham e pela Manor — é hoje piloto de testes e desenvolvimento da McLaren, uma função que combina precisão técnica, experiência de corrida e uma profunda compreensão da dinâmica dos monolugares modernos.

Stevens divide o seu tempo entre o Campeonato do Mundo de Resistência (WEC), onde é vencedor das 24 Horas de Le Mans, (ao lado de António Félix da Costa) e o trabalho de bastidores que sustenta os resultados da McLaren nos Grandes Prémios. “O meu trabalho é criar a ponte entre o mundo real e o virtual”, explica, sublinhando que o simulador permite testar variações de afinação impossíveis de realizar em pista, devido às restrições de tempo e logística.

“Podemos dividir isto em três tarefas principais: a primeira é o desenvolvimento geral do carro deste ano, tentando, em última análise, torná-lo mais rápido. Além disso, há obviamente uma grande mudança no regulamento a chegar, pelo que grande parte do nosso foco está agora virado para isso, desenvolvendo tudo, desde a suspensão à aerodinâmica para 2026.

A terceira e última parte é o apoio ao fim de semana de corrida. Sou eu e a equipa de engenharia do simulador, aqui na fábrica, enquanto os carros estão na pista. Não importa onde a equipa se encontra no mundo, ou a que hora do dia isso se traduz aqui em Woking, estaremos aqui a contribuir para a tomada de decisões”.

O que acontece ao fim de semana

Durante os fins de semana de corrida, o britânico e a sua equipa de engenheiros replicam as condições do circuito em tempo real. Quando os carros estão em pista, Stevens analisa dados e imagens a bordo; quando regressam às boxes, ele entra no simulador para testar hipóteses de afinação, ajudando a equipa a tomar decisões estratégicas. “Em pista, conseguem experimentar duas ou três coisas. No simulador, testamos dezenas”, resume.

Longas jornadas

O trabalho é exaustivo — jornadas de 10 a 12 horas e mais de 150 voltas simuladas por dia —, mas crucial. As informações recolhidas são debatidas nas reuniões técnicas que definem a afinação final do carro para a qualificação.

“Começamos o dia cerca de 30 minutos antes da partida dos carros para o TL1. Observámos isso e ouvimos as comunicações da garagem e dos pilotos, e começámos a construir uma imagem do que estão a viver e quais são os fatores que limitam a performance do carro. Sempre que eles estão na pista, eu não estou no carro e estamos a analisar dados e a observar as câmaras onboard. Quando eles não estão na pista, é quando entro no simulador e tento fazer o máximo de testes possível no tempo disponível.”

TL1 e TL2 fundamentais

“Assim que o TL1 terminar, iniciaremos as nossas primeiras simulações de correlação e veremos como o simulador replica bem o que acontece na pista, especialmente em termos de equilíbrio do carro, para que estejamos prontos para apoiar a equipa na pista e fazer quaisquer testes que nos solicitem.”

“Temos uma janela de duas ou três horas após o TL2. Há uma avaliação de desempenho do chassis na pista e precisamos de partilhar as informações que recolhemos durante o dia nessa reunião. Neste momento, são tomadas as decisões sobre a forma como o carro será montado para o TL3 [os últimos 60 minutos de treinos livres realizados no sábado, antes da qualificação]. Portanto, temos um prazo para cumprir. Tentamos encaixar o máximo de voltas e testes possível e, em geral, ser o mais produtivos possível para fornecer o máximo de informação possível para esta reunião.

“Esta é a parte principal do trabalho – mas a última parte do meu dia é testar a afinação para o TL3 e fornecer feedback à equipa na pista quando chegar à pista na manhã seguinte.”

Um piloto para dois estilos de pilotagem

Will passa cerca de 50 dias por ano no simulador e, embora o apoio em pista possa ser menos intenso do que o trabalho de desenvolvimento, tendo dado talvez 150 voltas na sessão — mais do dobro da distância da corrida — com as horas após o TL2 a terem a carga de trabalho mais intensa. São à volta de 30 engenheiros com o piloto no simulador para melhorar o carro.

Mais do que um exercício técnico, o trabalho exige sensibilidade. Stevens precisa de adaptar o seu estilo de condução para reproduzir fielmente o de Norris e Piastri, assegurando que as simulações refletem o comportamento real dos pilotos.

“Penso que eles têm perfis de pilotagem semelhantes, mas há nuances”, diz Will. “Tento ao máximo alternar entre os dois quando simulamos o carro do Lando [Norris] ou o do Oscar [Piastri], o que pode ser complicado quando alternamos rapidamente entre os dois, como por vezes é necessário. É uma parte importante do trabalho, porque, se pilotar de forma muito diferente dos pilotos em pista, pode influenciar o resultado do teste. Cabe-me a mim pilotar como eles da melhor forma possível.”

Desenvolvimento pessoal

Para Stevens, o papel na McLaren é também uma fonte de crescimento pessoal. “O trabalho de desenvolvimento tornou-me um piloto mais completo. Aprendi o que um carro precisa para ser rápido — algo que levo também para o WEC.”

Entre a pista e o simulador, Will Stevens é o exemplo de como, na Fórmula 1 moderna, a performance nasce tanto no asfalto como nos bastidores digitais de Woking.

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