Em menos de duas semanas, a FIA anunciou duas novidades nos regulamentos que podem dar que falar. Ironicamente, tratam-se de regras que limitam o discurso dos intervenientes.
Na semana passada vimos introduzida uma regra que proíbe os fabricantes de Hypercars de falarem sobre o BoP. No regulamento pode ler-se que “os fabricantes, concorrentes, pilotos e todas as pessoas ou entidades associadas às suas empresas [que competem nos Hypercars], não devem procurar influenciar o estabelecimento do BOP ou comentar o seu resultado, incluindo através de declarações públicas, nos meios de comunicação e nas redes sociais.” Qualquer violação destes princípios será sancionada pelos comissários em qualquer altura durante a competição, inclusive após a corrida.
Significa na prática que estão todos proibidos de falar publicamente do BoP. Não parece uma solução saudável. É certo que já vimos campeonatos que sentiram dificuldades com o BoP, com as marcas a fazerem jogos políticos (usando os media) para pressionar, algo que vimos com frequência no WTCR (agora morto). No WEC, a discussão do BoP foi também constante, como deve ser, pois é um elemento diferenciador e que influência os resultados, mas não terá sido tão tóxica como vimos noutros campeonatos. Agora, as equipas ficam proibidas de dizerem o que querem sobre o BoP. Uma solução radical e que não deverá encontrar muito adeptos.
Depois desta regra que é no mínimo discutível, surge agora uma alteração ao Código Desportivo Internacional. A FIA proibiu “a elaboração e exibição de declarações ou comentários políticos, religiosos e pessoais, nomeadamente em violação do princípio geral de neutralidade promovido pela FIA ao abrigo dos seus Estatutos, a menos que previamente aprovado por escrito pela FIA para Competições Internacionais, ou pela Autoridade Desportiva Nacional relevante para as Competições Nacionais dentro da sua jurisdição. O não cumprimento das instruções da FIA relativamente à nomeação e participação de pessoas durante as cerimónias oficiais em qualquer competição a contar para um Campeonato da FIA” será agora considerado uma violação dos regulamentos.
Ou seja, em pouco tempo, a FIA proibiu de falar sobre o BoP que é uma ferramenta indispensável para o WEC no formato atual e proibiu os pilotos de falar sobre assuntos políticos que não tenham a sua aprovação. Isto vem após ouvirmos há algum tempo o presidente da FIA dizer preferir quando os pilotos se focavam apenas na competição e deixavam de lado os temas políticos e sociais.
Curiosamente foi a F1 e a FIA que iniciaram uma campanha chamada “We Race as one” em busca de mais diversidade no desporto, promovendo a inclusão. Foi com iniciativas como as de Lewis Hamilton e Sebastian Vettel que este tipo de movimento ganhou força, com resultados positivos e uma mudança que deve ser realçada. E se a FIA parecia estar a dar um bom exemplo neste capítulo, parece agora seguir o caminho da FIFA que proibiu as braçadeiras com as cores do Arco Íris (símbolo do movimento LGBT) e tentou abafar qualquer tentativa de apontar o dedo ao que foi feito no Catar na preparação para o polémico mundial.
A FIA pretende manter a neutralidade, mas a verdade é que a F1 visita certos países que usam o desporto para mostrar uma face diferente ao mundo, o que é uma decisão política. E na grande maioria das provas realizadas, os governos aparecem direta ou indiretamente ligados às provas, pelo que a neutralidade é difícil de atingir. Faz sentido impedir que Lewis Hamilton, que sempre defendeu estas causas, não o possa fazer naquele que é o seu palco, sendo ele uma das grandes estrelas do desporto? Faz sentido as equipas do WEC não falarem do BoP? Faz sentido deixarmos de poder questionar o que quer que seja, e que nos seja servido um conteúdo que deve ser feito para nós e para os tempos atuais? Ou será melhor tentar manter a neutralidade e discussões polémicas para o desporto? Estão a amordaçar os intervenientes ou a proteger o desporto?
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