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Clive Chapman: “A primeira vitória de Ayrton Senna foi um momento de catarse”

Fábio Mendes by Fábio Mendes
22 Abril, 2025
in F1, FÓRMULA 1, Newsletter, Newsletter destaque
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Clive Chapman: “A primeira vitória de Ayrton Senna foi um momento de catarse”

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A 21 de maio de 1985, num domingo cinzento e chuvoso, o público português e o mundo assistiram a uma das mais belas histórias da Fórmula 1. Uma página escrita a ouro, o mesmo ouro que contrastava na decoração preta do Lotus 97T, que Ayrton Senna pilotou brilhantemente até a sua primeira vitória na F1.

Quarenta anos depois, num dia igualmente cinzento e chuvoso, o mítico Lotus 97T voltou ao local onde milhares vibraram — o Circuito do Estoril. Um regresso carregado de simbolismo, emoção e memória, testemunhado por fãs, antigos membros da equipa e por Clive Chapman, filho de Colin Chapman e diretor da Classic Team Lotus.

Clive partilhou os seus sentimentos ao AutoSport durante este momento marcante, numa breve viagem no tempo. Ao observar fotografias da época e rever o carro em pista, não conteve a emoção:

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“É uma grande emoção. Temos aqui uma fotografia na parede da Team Lotus em 1985, com o carro e com o Helio [de Angelis] em Ketteringham Hall… Pensamos em todo o trabalho que foi investido naquele carro. A minha mãe era a diretora da equipa na altura porque o meu pai tinha falecido três anos antes. Ela decidiu manter a equipa viva, com Peter Warr, o diretor da equipa, e todos permaneceram unidos com um objetivo: voltar a vencer.”

A chegada de Ayrton Senna à Lotus em 1985 foi, segundo Clive, um ponto de viragem não só para a equipa, mas também para todo o universo da Fórmula 1. A vitória em Estoril, em condições extremamente difíceis, foi a consagração imediata de um talento fora do comum:

“Ganhar numa corrida tão difícil, tão cedo na época, foi extraordinário. O Ayrton não só venceu — fez a pole position, a volta mais rápida, liderou cada volta da corrida e terminou com mais de um minuto de vantagem. Ele deu uma volta a todos, menos ao segundo classificado. Isso não acontece todos os dias.”

Mas não foi apenas a performance em pista que marcou a memória coletiva. Clive recorda com carinho o ambiente de euforia no momento em que Senna cruzou a meta:

“Temos outra imagem icónica: a equipa a saltar de alegria quando o Ayrton cruza a meta. Foi a última vez que a FIA permitiu que os mecânicos estivessem na pista a celebrar, porque o Nigel Mansell teve de desviar-se deles em plena reta e ainda foi à relva. Foi um momento caótico, arriscado… mas absolutamente inesquecível. Kenny Szymanski, o tipo dos pneus que aparece a festejar nas fotos, veio de Nova Iorque. Ontem à noite, em Cascais, num bom restaurante local, estava ali sentado com quatro membros da equipa na altura. Estava a ouvi-los a recordar e partilhar esse momento novamente. Sentimo-nos honrados. Temos o privilégio de estar lá e ouvir as suas histórias e é fantástico.”

Essa vitória também teve um significado profundo para a própria estrutura da Team Lotus, ainda abalada pela perda de Colin Chapman em 1982:

“Durante dois anos e meio, a equipa viveu num estado de luto silencioso. O meu pai morreu de forma súbita. Foi traumático, mas não houve tempo para parar. Na Fórmula 1, tem-se de continuar. A minha mãe assumiu o risco de manter a equipa, mas quase todos permaneceram na estrutura. Mas aquela vitória… foi como uma libertação. Um momento de catarse. Acho que foi aí que a emoção da perda do meu pai finalmente se soltou dentro da equipa.”

Clive também refletiu sobre a personalidade e o impacto de Ayrton Senna:

“O Ayrton era um talento inacreditável, mas também um líder. Era muito consciente da importância da equipa. Sabia que precisava deles para alcançar os seus objetivos, mas, ao mesmo tempo tinha uma enorme determinação pessoal — ele sabia que podia ser campeão do mundo, e não queria desperdiçar essa oportunidade.”

O agora líder da Team Lotus não está certo que a convivência entre Ayrton Senna e Colin Chapman pudesse ser a mais saudável:

“O Ayrton tinha um caráter forte e, embora ciente da importância da equipa, também entendia a importância de se aperceber das suas capacidades. Ele sabia que podia ser campeão. O meu pai olhava para a equipa como um todo e o piloto era mais um membro. A equipa estava sempre em primeiro lugar. Teria sido uma relação picante. Mas creio que o Peter Warr foi a pessoa certa para lidar com o Ayrton. O Peter tinha mais capacidade de encontrar compromissos.”

Hoje, Clive continua o legado da Team Lotus através da Classic Team Lotus, que preserva e faz correr os históricos carros da marca. Manter essas máquinas vivas, contudo, não é tarefa fácil:

“A 97T é lindo, mas exige muito. No domingo em Goodwood, por exemplo, estava tudo perfeito… e de repente o motor falhou. Dá-se aquele baque no coração. Mas mesmo assim, vale a pena. Fazemos isto porque adoramos. Não para mostrar, não por dinheiro. Simplesmente porque estes carros merecem viver.”

A presença do carro em Estoril foi inicialmente planeada como algo discreto. Mas a emoção rapidamente contagiou outros membros da equipa original e o que seria uma pequena homenagem acabou por se tornar no ponto alto de um fim de semana para milhares de fãs que foram ver o Lotus 97T. O mesmo chassis que foi pilotado por Ayrton Senna naquela tarde, onde muitos se apaixonaram pela F1, onde outros reforçaram a sua paixão e onde um jovem brasileiro se destacou… o que viria a fazer tantas vezes.

Para muitos fãs, sobretudo portugueses, a paixão pela Fórmula 1 começou precisamente com aquele carro — com aquela vitória. Clive sente isso, e considera uma honra poder partilhar esse legado:

“Algumas pessoas ontem disseram-me que, mesmo não tendo vivido aquele momento, foi esse carro que os fez apaixonar-se pela Fórmula 1. Isso é especial. E é para essas pessoas que vale a pena continuar a fazer o que fazemos.”

Tags: Clive ChapmanF1Fórmula 1
Fábio Mendes

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Em 2013 criei um blog com um grupo de amigos, que me abriu as portas para o fantástico mundo do motorsport e do AutoSport, onde escrevo desde 2017.

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