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Estará a revolução elétrica a falhar?

Fábio Mendes by Fábio Mendes
31 Maio, 2024
in AUTO+
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A necessidade de reduzir as emissões globalmente é cada vez maior. As alterações climáticas estão a produzir fenómenos cada vez mais extremos e se quisermos garantir a habitabilidade do planeta a médio e longo prazo, algo tem de ser feito.

O carro passou a ser o foco das políticas ambientais. Milhões de veículos são usados em todo o mundo e um corte drástico nessas emissões passou a ser a prioridade, mesmo que outras indústrias e outros tipos de transporte representem uma fatia mais pesada das emissões de carbono. O carro elétrico tornou-se o tema central da indústria automóvel, sendo quase impingido. As marcas foram obrigadas a aceitar o desafio e gastaram muitos milhões para oferecer soluções aos clientes. A revolução elétrica começou gradualmente a ganhar força, mas parece estar a estagnar.

Revolução perdeu gás

A melhor forma de convencer as pessoas a adotar novos comportamentos, é fazê-lo de forma a que o seu dia a dia não seja dramaticamente mudado. A maioria entende a gravidade da situação e vê nas notícias fenómenos cada vez mais intensos, com custo financeiro e humano crescente. Mas a população vive rodeada de estímulos constantes, focada no seu bem-estar, ou na suas preocupações. Entre pagar as contas ao fim do mês ou resolver a crise ambiental, as contas parecem uma preocupação mais premente e mais fácil de resolver a curto prazo. Como tal, exigir comportamentos radicalmente diferentes torna-se contraproducente.

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Ora o carro elétrico exige uma utilização diferente do que a grande maioria das pessoas está habituada. Logo aí há um travão. Mas há mais questões que, segundo a ACEA (Associação Europeia de Fabricantes de Automóveis) são prementes e que estão a motivar a desaceleração a que temos assistido.

Falta infraestrutura e incentivos

Um relatório recente da ACEA sobre a infraestrutura pública de carregamento para veículos elétricos na Europa apresentou dados que mostram uma realidade menos colorida. A ACEA estima que serão necessários 8,8 milhões de pontos de carregamento até 2030, implicando a instalação de 1,2 milhões de carregadores por ano – oito vezes mais do que os 150.000 instalados por ano, atualmente. A aprovação e instalação dessa infraestrutura precisam acelerar significativamente.

Para tornar os veículos elétricos uma realidade prática para todos os europeus nos próximos cinco anos, a implantação de pontos de carregamento público deve aumentar drasticamente. Muitos países, especialmente na Europa Central e Oriental, não tem a infraestrutura mínima para que a implementação de elétricos seja uma realidade. Quase dois terços dos pontos de carregamento da UE estão concentrados em apenas três países – Holanda, França e Alemanha – que cobrem cerca de 20% da área da UE. O terço restante está distribuído de forma dispersa pelos outros 24 membros da UE.

Transportes ainda longe da eletrificação

O desafio é ainda mais crítico no setor de logística business-to-business, que depende do transporte transfronteiriço contínuo de mercadorias. Investimentos em camiões elétricos para transporte de longa distância são fortemente desencorajados pela infraestrutura de carregamento insuficiente e inadequada.

A Europa também deve apoiar a sua ambição com os incentivos corretos para encorajar os europeus a adotar veículos elétricos. Exemplos dos países que lideram a adoção de EVs mostram o que pode ser alcançado com uma política inteligente. Uma variedade de ferramentas, como créditos fiscais, reduções de IVA (incluindo no carregamento elétrico), taxas de registo mais baixas, estacionamento e pedágios mais baratos, pode gerar resultados significativos na adoção de EVs.

Aquisição é um grave problema

Por fim, a infraestrutura e os incentivos precisam estar alinhados com uma estratégia industrial holística que os fabricantes de automóveis europeus têm solicitado – uma que abranja todo o ciclo de vida dos veículos elétricos (EV), desde P&D até a reciclagem. Produzir EVs na Europa custa mais do que modelos a combustão ou EVs importados de regiões com custos de fabricação mais baixos. Portanto, o quadro político europeu deve promover a fabricação acessível, reduzindo os custos de fabricação de baterias e energia e garantindo acesso a matérias-primas essenciais.

A acessibilidade dos EVs é uma preocupação tanto para os fabricantes quanto para os consumidores. A transição para os EVs deve ser inclusiva e acessível para todos os europeus, independentemente de idade, condições financeiras ou região.

Assim, apesar do primeiro passo ter sido bem-dado, a revolução elétrica encontra agora vários desafios que levaram à estagnação: infraestrutura de carregamento ainda pobre, falta de incentivos fiscais interessantes em certos países e o custo de aquisição ainda elevado. A juntar a isso, a mudança que a compra de um elétrico implica, faz com que ainda uma grande fatia dos condutores prefira manter o seu veículo atual ou, no máximo, optar por híbridos que garantem uma opção mais amiga do ambiente e mais eficiente, sem mudar comportamentos.

Um desafio que tem de ser resolvido com brevidade

O desafio para a eletrificação é grande e tornou-se ainda maior com a desaceleração. Serão necessárias mudanças para reavivar o interesse pelos elétricos. Os elétricos são uma solução que faz muito sentido, mas, atualmente, apenas é prática para um público muito específico que reúne condições que nem todas as pessoas podem ter, quer pelo extrato social, quer pela zona onde vivem, quer pelas necessidades de mobilidade de cada um.

O abrandamento tem sido muito notado e algumas marcas que se dedicavam apenas aos elétricos, começam a apostar em soluções híbridas. A nova mobilidade não tem de passar forçosamente apenas pelos elétricos, mas estes podem ser uma fatia importante. No entanto, atualmente, os desafios da mobilidade elétrica afastam potenciais interessados e é preciso dar-lhes condições para poderem optar por essa via.

Tags: falharrevolução elétrica
Fábio Mendes

Fábio Mendes

Em 2013 criei um blog com um grupo de amigos, que me abriu as portas para o fantástico mundo do motorsport e do AutoSport, onde escrevo desde 2017.

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