José Pedro Fontes classificou como “vergonhosa” a situação dos concorrentes do Campeonato de Portugal de Ralis na prova de Fafe, denunciando desigualdades na ordem de partida, nas condições do piso e na luz disponível.
Depois de disputar a última especial já de noite, ao contrário de outros adversários do Nacional, o piloto questionou a continuidade do CPR no evento e defendeu que a integração numa prova do Europeu deve garantir condições de competição equivalentes, sem obrigar as equipas a suportar custos de inscrição que considera incomportáveis.

AutoSport: Os pilotos do CPR estão claramente um pouco descontentes. Antes de falarmos disso, que balanço fazes do dia?
José Pedro Fontes: “Fizemos o que pudemos dentro das condições que tínhamos, quer de estrada, quer de luz.
O último troço já o fizemos de noite, enquanto os outros carros do CPR, fizeram-no de dia. Portanto, foi muito difícil, muito duro. Acho que isto não é uma realidade para o CPR.
Mas, dentro disso, conseguimos ser os melhores do segundo pelotão, que era, no fundo, o único objetivo exequível.
Quanto ao rali em si, sou um adepto de Fafe. Fafe é a nossa catedral. A Demoporto fez muito pelos ralis em Fafe. Mas acho que a situação em que nos puseram aqui é vergonhosa. Não dignifica o CPR.
Acho muito bem que se organize uma prova do Europeu, mas, pela maneira como estamos a ser tratados, há desigualdade: quem paga mais vai mais à frente, quem paga menos vai atrás.
E os valores para ir mais à frente não são comportáveis para um campeonato nacional.
Portanto, temos todos de pensar. Acho que um país que não trata os seus bem e com dignidade é um país sem futuro.
O que aqui se vê é, no fundo, uma falta de respeito por todas as marcas, equipas, patrocinadores e pilotos que investem no CPR. E uma profunda falta de respeito também por todos os outros organizadores de provas de ralis, que se esforçam muito para estar no CPR ou que gostavam muito de estar e não têm essa oportunidade.
Estamos aqui a fazer esta triste figura de andar em último, com 19 carros, que, se calhar, agora já só são dez, ou quantos sejam.
Portanto, acho que todos, de uma forma construtiva, temos de pensar no que é melhor para o CPR.
Claramente, acho que o melhor para o CPR, quando participa numa prova internacional, é ser tratado como os outros, como acontecia no Rali de Portugal.
No Rali de Portugal, saíamos junto dos Rally2 e pagávamos um terço da inscrição que pediram aqui, num evento de nível mundial. Com todo o respeito, isto é uma prova do Europeu, mas, em termos de público, já vi ralis do Nacional em Fafe com mais gente.”
AutoSport: É possível conciliar uma prova do Europeu com o campeonato nacional ou seria melhor separar e fazer provas distintas?
José Pedro Fontes: “Acho que é possível, desde que haja vontade de todos, como houve na altura com o WRC e o ACP, que conseguiu alterar a lei da inscrição. No WRC, se te inscreves e fizeres a prova do teu país, não pagas.
Só na segunda é que pagas. Assim, podes sair junto dos outros e ter os ídolos locais a participar.
Aqui, numa prova com uma dimensão que é, digamos, 10% ou um quarto da do Rali de Portugal, não tem havido esse esforço por parte da FIA ou do promotor. Não sei de quem é a culpa, nem quero estar a dizer. Só sei que é penoso assistir ao que vemos aqui.”
AutoSport: E é uma situação que se repete. Não é a primeira vez que acontece, nem é a primeira vez que surgem estas queixas.
José Pedro Fontes: “Claro. Por isso é que acho que todos temos de perceber se faz sentido o CPR vir aqui.
E o primeiro a perceber isso tem de ser o organizador. Se calhar, para o organizador, não é importante ter cá o CPR. Nesse caso, não há problema nenhum: fazemos noutro sítio.”
AutoSport: Voltando à parte desportiva, os teus últimos três ralis têm mostrado uma evolução, com troços finais mais fortes e até uma vitória na Power Stage. Acreditas que consegues fazer o mesmo amanhã?
José Pedro Fontes: “Repara, eu ganhei o meu rali do CPR hoje. Estou à frente. Não posso lutar contra alguém que vai 30 ou 40 carros à minha frente, ou quando eu faço os troços de noite e eles os fazem de dia. Com todo o respeito.
Acho que o Rúben e o Pedro estão a lutar pelo campeonato e, portanto, tiveram de fazer o esforço de vir aqui nestas condições. O Armindo também, pelas suas necessidades e pelos seus patrocinadores, e eu compreendo isso.
Mas, para os restantes, não é possível lutar. Apanhamos uma estrada totalmente destruída e, depois, tentamos sobreviver.
AutoSport: Desportivamente, acaba por não fazer sentido, porque se trata apenas de sobreviver, nem sequer de competir entre vocês. Chega-se a esse ponto?
José Pedro Fontes: “Não acho que faça sentido. É a mesma coisa que, na Fórmula 1, uns correrem de manhã e outros à tarde. Faz sentido? Então, se não faz sentido na Fórmula 1, como é que faz nos ralis? Que eu saiba, na Fórmula 1, arrancam todos à mesma hora e acabam quando completam 70 voltas ou duas horas de corrida. Aqui, não. Uns pagam mais e partem à frente; outros partem atrás. Uns de dia e outros de noite.
Mas o que temos de pensar aqui é que, se calhar, as marcas podiam pagar e não pagaram por alguma razão: porque não estão de acordo. As marcas também têm uma responsabilidade social, que é não provocar um desequilíbrio total no campeonato, porque há pilotos privados.
Já temos as inscrições mais caras da Europa entre os campeonatos nacionais. As inscrições do nosso campeonato nacional estão quase ao nível do que pagamos no Rali de Portugal. Se passarmos a pagar 8000 euros, não sei se vamos todos para a Fórmula 1. Mas há uma coisa que sei: o espetáculo que está aqui montado está muito longe da Fórmula 1.”
FOTO AIFA








