Ontem na Fórmula E, assistimos a um espetáculo de variedades que não é muito habitual no desporto automóvel. Tivemos corrida, tivemos novela, tivemos um final dramático e… momentos de comédia.
Ainda antes da corrida terminar, o carro #13 da Porsche estava a ser investigado por uma infração técnica. Quando se trata de uma infração técnica, nunca é bom sinal. Altura ao solo, pneus, ou até alguns parâmetros de software. Pensamos logo em algo complicado. Mas quando António Félix da Costa disse publicamente que tinha sido penalizado em três minutos (!) por ter um pneu abaixo da pressão mínima e que esse mesmo pneu tinha um furo lento, assumido pela equipa à FIA, ficamos boquiabertos. Depois de tudo o que aconteceu na corrida de ontem, penalizou-se o piloto que tinha um pneu abaixo da pressão mínima.
Não é preciso fazer um esforço de memória muito grande para lembrar alguns acontecimentos que mereciam a atenção dos comissários, como o toque entre Stoffel Vandoorne e Edo Mortara, em que homem da DS Penske falha completamente a travagem. Não houve qualquer penalização. Numa corrida em que houve toques para todos os gostos, penaliza-se por um furo lento um piloto que até chegou a ser atirado contra as proteções da pista por adversários.
No further action! ‘The stewards reviewed the video evidence and concluded that no driver was wholly or predominantly to blame.’ 🫡 😵💫#LondonEPrix #FormulaE pic.twitter.com/OPYHLWeWvS
— sniffermedia (@sniffermedia) July 30, 2023
AFC foi ainda muito pertinente nas suas críticas, apontando o dedo à decisão de permitir que alguns pilotos reiniciem a corrida após as bandeiras vermelhas:
“Eles podem arriscar que os carros voltem a arrancar depois de uma bandeira vermelha sem asas dianteiras, com asas dianteiras partidas, com luzes de chuva partidas, o que quer que seja, e eu estou a cuidar de um carro para tentar levar o carro até ao fim, que considerei seguro para conduzir”, afirmou. “Provei que era seguro pilotar e agora estou a ser penalizado por causa disso. Não estou a brincar com a otimização da pressão dos pneus. Tenho um furo, um furo lento no carro. Na verdade, estou a perder desempenho com isto. Por isso, precisamos de um pouco de bom senso”.
O chefe de equipa da Porsche, Florian Modlinger, apoiou AFC e afirmou que estava nas mãos da equipa determinar se o carro poderia aguentar o recomeço sem a necessidade de mudar o pneu.
“Foi-nos dito claramente, a um mecânico e também ao piloto, que somos nós que temos de julgar a segurança”, disse Modlinger ao The Race. “Além disso, a Hankook admitiu que, com este corte do lado de fora, a segurança era sempre garantida. Também não tínhamos a certeza no início, porque já tínhamos tido este fim de semana problemas com o sensor de pressão dos pneus – se se tratava de um furo realmente lento ou se o sensor estava incorreto. Por isso, quando enviámos o Antonio para a pista, podemos ver que ele estava atrás do safety car, a verificar o carro, e deu-nos claramente a resposta de que o carro estava bem, o pneu estava bem e tudo estava bem. Esta foi a base para continuarmos”.
Ou seja, penaliza-se um carro por ter pressão abaixo da mínima estipulada, sabendo que há um furo lento. Não se penaliza um piloto que falha a travagem e que coloca em risco outro piloto. Não é fácil ser comissário desportivo da FIA e há decisões muito complicadas a serem tomadas, mas, à luz do que sabemos, esta é daquelas decisões que não fazem qualquer sentido, atribuída seguindo uma lógica pouco compreensível. E isto acontece demasiadas vezes, degradando a imagem cada vez menos positiva que os fãs têm da FIA. Se há alturas que entendemos a dificuldades e aceitamos decisões menos unânimes, desta vez torna-se muito complicado entender.










