Em relação ao artigo de opinião do José Luís Abreu (ver aqui), chegamos à conclusão que a questão dos custos não é apenas na F1, mas é transversal ao desporto motorizado.
O problema do automobilismo é a implacável busca pelo sucesso, o que leva as equipas e as marcas a darem tudo para conseguirem vitórias. E essa postura leva uma automutilação das categorias onde isso acontece. Sem dúvida que as eras em que as marcas mais despenderam se tornaram em algumas das mais memoráveis. Mas também levaram às maiores quedas.
Exemplos como os Grupo C ou os LMP1 no endurance, os TC1 no WTCC, e a constante luta a que as equipas se entregavam na F1, que levavam a orçamentos faraónicos e ao surgimento de equipas privadas que desapareciam à mesma velocidade que chegavam. Vimos lutas espetaculares em pista com o “pequeno extra” da luta fora de pista com a tecnologia a dar passos surpreendentes. Um espetáculo completo que de tão grandioso, se torna incomportável. É impossível manter um desporto sem limites de custos, correndo o risco de implodir, pois a realidade económica mundial é (cada vez mais) feita de ciclos curtos e as marcas dependem sempre desses ciclos. É verdade que as marcas gostam de justificar a entrada no desporto com a possibilidade de desenvolver novas tecnologias e por isso “exigem” um certo grau de sofisticação, que é sempre bem-vinda. Mas no final, as corridas são quase sempre um exercício de marketing.
A F1 percebeu isso a tempo, graças à Liberty e mudou as regras do jogo. O limite orçamental terá sido uma bênção disfarçada e a F1 deixou de ser um poço sem fundo para o qual as marcas despejavam dinheiro, para ser uma fonte de lucro apetecível. Como podemos provar isso? Desde a entrada em cena do limite orçamental, a F1 viu um aumento quase exponencial de investimento e de marcas interessadas. Só para 2026 serão 6 fornecedoras de motores e há mais marcas interessadas. É um nível de interesse raramente visto.
O segredo do sucesso sempre foi entendido do outro lado do atlântico. Quanto mais se limitar os custos, mais equipas se interessam e melhor se torna o espetáculo. É que as batalhas tecnológicas só interessam a um público muito específico. As corridas, essas, não precisam de muita tecnologia. São precisos alguns números surpreendentes, mas acima de tudo grandes lutas, grandes pilotos, grandes equipas, grandes marcas e que todos consigam ganhar algum dinheiro com as corridas. Um dos melhores exemplos de como se pode fazer muito com pouco foi visto no IMSA. Pegaram em chassis LMP2, incomparavelmente mais baratos que os LMP1, mudaram a estética e deram liberdade em certos parâmetros (motor e suspensões). Tivemos uns LMP2 com esteroides, que se tornaram competitivos, dando boas corridas, com um custo razoável. Essa fórmula foi aplicada agora pelo ACO, com os Hypercar e reutilizadas com os LMDh.
O segredo da longevidade e da qualidade das competições poderá ser mesmo a limitação de custos. Talvez o segredo para o WRC ressurgir são uns Rally2+, mais apimentados que os Rally2 para os distinguir, mas muito mais acessíveis que os atuais Rally1. Já vimos que quando se gasta demasiado dinheiro, o desporto acaba por sofrer. Com custos controlados, mais equipas podem chegar ao topo (os melhores destacam-se sempre), podemos ter melhores corridas, mais marcas, mais entusiasmo… Podemos ter carros menos interessantes, menos evoluídos. Mas esse é um problema para apenas uma aparente minoria. A maioria, quer torcer por pilotos e equipas, querem boas lutas em pista, uma boa dose de polémica de vez em quando e uma plataforma que possa mostrar o desporto de forma simples e apelativa. Juntar esses ingredientes, nem sempre necessita de muito dinheiro. E os desportos que agora estão na mó de baixo podem (e devem) pensar no que tem sido feito nos casos de sucesso.












