Estatisticamente, Toto Wolff é um dos melhores, senão mesmo o melhor chefe de equipa da história da F1. Mas, apesar dos números serem muito importantes, sabemos que não contam a história toda. Depois de sete anos de domínio absoluto, a Mercedes foi finalmente desafiada por outra equipa e perdeu o título de pilotos. Será que Wolf falhou no seu primeiro teste de fogo?
A Mercedes é uma estrutura fortíssima, que já mostrou por diversas vezes que consegue responder a momentos críticos. Foi assim das várias vezes que a Ferrari se aproximou dos Flechas de Prata nesta era híbrida. A Mercedes chegou a recear que a Scuderia pudesse ter vantagem, mas o soberbo trabalho da equipa germânica eliminou sempre a vantagem da Scuderia que, na verdade, nunca foi muito evidente. Temos o exemplo da saga do motor Ferrari, que no início de 2019 era a referência e que obrigou a Mercedes a encontrar mais performance. No entanto, a Ferrari foi obrigada a desfazer o trabalho, com o famoso acordo com a FIA, mas a Mercedes lucrou pois ficou com um motor ainda melhor. A Mercedes encontrou sempre solução para os desafios.
O trabalho de Toto Wolff tem de ser elogiado. É verdade que recebeu uma estrutura já bem oleada e preparada para o desafio, fruto do trabalho de Ross Brawn, mas a entrada de Wolff na Mercedes trouxe uma filosofia mais saudável e positiva para a equipa. O conceito “culpa mínima, responsabilidade máxima” pretendeu retirar a pressão dos vários departamentos e dos indivíduos que trabalham na equipa, ao mesmo tempo que os responsabilizava mais. Assim, nunca ninguém apontou o dedo internamente (permitindo mais liberdade e assim mais criatividade) e a equipa sempre remou para o mesmo lado. O sucesso que a Mercedes tem conquistado tem vários responsáveis, mas Wolff é claramente um dos maiores responsáveis pelos feitos dos Flechas de Prata.
Mas 2021 trouxe um desafio diferente a Wolff. Pela primeira vez teve de enfrentar a Red Bull e a sua estrutura. Wolff teve um “reinado” relativamente calmo até este ano, tendo apenas de lidar com a luta interna de 2016 entre Nico Rosberg e Lewis Hamilton. Foi a primeira vez que Wolff foi desafiado e foi logo pela Red Bull. Christian Horner é um “animal político” que sabe movimentar-se na F1 como poucos, sabe usar a comunicação social e já lutou com a Ferrari e McLaren noutros tempos. Mais que isso, tem ao seu lado Helmut Marko, um apoio importantíssimo e poucas vezes valorizado.
Do outro lado havia apenas Wolff, que além de se ver envolvido pela primeira vez numa luta destas proporções, não tinha o apoio de ninguém, numa estrutura ainda órfã de Niki Lauda. Lauda foi o farol da equipa, a voz da razão, o timoneiro que trazia calma e experiência à estrutura. A morte de Lauda foi mais do que a morte de um ícone do desporto. Foi a morte de uma peça importante na engrenagem da Mercedes que nunca foi substituída. A falta de Lauda fez-se sentir ao longo do ano, principalmente no último terço em que Wolff perdeu um pouco mais o controlo.
Será que Wolff falhou como chefe de equipa? Não se pode dizer que falhou, pois a Mercedes enfrentou o desafio e conseguiu sair com um título. A Mercedes soube recuperar da desvantagem e chegar à última corrida com tudo para levar os dois títulos. Uma equipa que vence durante tanto tempo e que continua a colecionar vitórias, dificilmente tem uma má liderança. Wolff não falhou completamente como chefe de equipa, mas pela primeira vez tropeçou e mostrou algum desnorte. Foi “picado” como nunca pela Red Bull e teve, sozinho, de enfrentar o duo “infernal” Horner/Marko. Wolff, pela primeira vez mostrou pontos fracos, desequilibrou-se. Não falhou completamente, mas o manto da invencibilidade foi rasgado e a sua liderança saiu enfraquecida. Faltou Lauda para dar equilíbrio, faltou outra voz de comando, mais experiente, mais lúcida talvez. Wolff soube terminar de construir uma estrutura tremenda, um trabalho que ainda agora lhe dá frutos. Mas foi o que mais perdeu este ano e a sua liderança ficou algo enfraquecida. Provou pela primeira vez as agruras das F1 e sentiu pela primeira vez o desafio de “velhas raposas”. Uma lição que terá sido aprendida? O futuro dirá.











