O que vimos ontem em Abu Dhabi foi mais do que uma luta pelo título que acabou de forma polémica e dramática. Foi mais do que um campeonato intenso que terminou da mesma forma. Foi a confirmação que a F1 está bem viva, sempre esteve e tem agora condições para crescer ainda mais.
A F1 é um desporto curioso, complexo e apaixonante. Mas tinha um problema. Não estava acessível a todos. Desde que as corridas deixaram de dar em canal aberto, algo que coincidiu com um momento de menor fulgor da competição, houve uma espécie de desapego geral da F1, que foi perdendo espaço. Mas a F1 nunca deixou de ser interessante.
Um caso prático disso é um amigo meu, que deixou de ver a F1 há muitos anos e que à força de me ouvir e ao Pedro André Mendes falar do assunto, começou a interessar-se de novo. Tinha vivido as gloriosas lutas dos anos 80 e 90, mas desde a hegemonia Ferrari que perdeu o interesse. Mas voltou a tentar ver uma corrida. Disse-me na altura que não tinha gostado muito, que era tudo muito confuso, com DRS, vários compostos de pneus, undercuts, overcuts… Mas foi vendo mais uma e outra vez, numa altura em que a F1, ainda no tempo de Bernie, não fazia esforço nenhum para explicar o que se passava. O tempo foi passando e o que era algo pouco interessante passou a ser o ponto alto do fim de semana, e esse tal amigo passou a ver de forma fervorosa a F1. Acabou por não ser difícil ele se apaixonar outra vez pelo Grande Circo.
A chegada da Liberty trouxe muitas coisas boas, uma delas foi o maior acesso a conteúdos, mais informação durante as corridas. É muito mais fácil para quem quer começar a ver, entender a mecânica das provas, entender quem são as estrelas, quem são as promessas para o futuro, quem são os melhores e os piores e o que está a acontecer em pista. Os ingredientes estavam todos reunidos mas faltava algo… algo que convencesse as pessoas a olhar a sério para a F1 e não apenas durante 10 episódios do Drive To Survive. A resposta chegou em 2021.
Depois de sete épocas de domínio absoluto da Mercedes e de Lewis Hamilton, a Red Bull deu finalmente a Max Verstappen um carro capaz de lutar pelo título e o resultado está à vista. O campeonato mais renhido de sempre, disputado até ao último metro, decidido na última volta, com polémica, drama e tudo a que um desporto à escala mundial tem direito.
Não foi o final que desejávamos? Certamente, pois os erros da direção de corrida e dos comissários, que se repetiram durante o ano, ensombraram um espetáculo tremendo. Mas prefiro esquecer esse “pormenor” (a ser desenvolvido noutros textos) e focar-me no positivo. Ontem, toda a gente falou de F1. Toda a gente vibrou com a corrida, uns festejaram a vitória de Verstappen, outros lamentaram a derrota de Hamilton. Quem vencesse, seria o justo campeão e embora os números pendam a favor de Verstappen, a recuperação de Hamilton nas últimas corridas foi notável. A melhor solução era a que Fernando Alonso propôs, cortar a taça ao meio e entregá-la aos dois. E era merecido, pelo talento das duas estrelas, pela forma como nos envolveram este ano nesta luta tremenda e acima de tudo, por terem colocado a F1 onde merece.
Nunca vimos tantas publicações nas redes sociais sobre a F1, nunca vimos tantas discussões, uma de pessoas já com muitos anos de F1, outras que claramente acabaram de “chegar”. As estatísticas de ontem terão sido avassaladoras e a F1, por um dia, sobrepôs-se ao resto. Alguns diziam que nunca mais veríamos grandes rivalidades na F1. Vivemos a primeira grande rivalidade da F1 transmitida via redes sociais onde todos podem e querem opinar e mostrar o seu ponto de vista.
Mas esta luta foi muito mais do que Lewis vs Max. Graças a esta luta que ficará para a história, o mundo pôde descobrir também Lando Norris, Charles Leclerc, George Russell, pôde apreciar os últimos momentos de Kimi Raikkonen, o regresso de Fernando Alonso, o novo capítulo de Sebastian Vettel, a nova rivalidade Toto Wolff vs Christian Horner. Nomes como Ricciardo, Sainz, Ocon, Schumacher passaram, ou voltaram a ser referidos. A luta pelo título 2021 escancarou a porta deste desporto e mostrou um mundo novo (para quem não conhecia ou se tinha afastado), de novos ídolos, novos pilotos, gente de caráter forte, posições vincadas. A F1 deixou de ser tão reservada, tão politicamente correta. A F1 sem filtros conquistou o mundo. Li algures que é fácil gostar de F1. Não podia estar mais de acordo e prova foi dada este ano. Quem não gostava viu, quem gostava adorou e quem não conhecia ficou a querer mais.
2022 traz uma nova era, com carros que vão dar os primeiros passos e a experiência mostra-nos que as primeiras épocas com novos regulamentos não são tão entusiasmantes. Mas deixemos de lado o discurso de Velhos do Restelo e olhemos para o que aconteceu ontem. A F1 pode ser isto e muito mais. Imaginem uma luta pelo título em que juntamos outros nomes? É muito fácil gostar de F1! Foi um privilégio acompanhar esta época. A quem chegou… bem vindos! Vamos ter mais para vos mostrar.








