As vagas para Comissários da FIA deverão ficar por preencher nos próximos tempos pois trata-se claramente de um trabalho ingrato e muito difícil. Se a tarefa de julgar manobras feitas a grandes velocidades e sujeitas a várias interpretações é já dura, mais ainda é quando há ânimos exaltados e uma luta tremenda pelo título. Mas, mais uma vez, a falta de consistência leva os pilotos e fãs a questionarem as decisões.
Os limites de pista são um desses exemplos. Numas pistas a linha branca define o limite de pista, noutras são os corretores. Cada pista é única e por isso deve ser tratada como tal, mas a variabilidade neste tipo de decisões devia ser evitada ou, pelo menos, justificada. Não poucas vezes os limites de pista foram alterados ao longo do fim de semana e, se neste fim de semana se entende pois é uma pista nova, noutros traçados já conhecidos torna-se mais difícil de aceitar.
A questão das lutas em pista é também algo que, potencialmente, vai dar dissabores aos comissários. O incidente entre Max Verstappen e Lewis Hamilton no Brasil e a decisão depois do pedido de revisão vai levar inevitavelmente a que os pilotos arrisquem mais na defesa da sua posição. Mas o pior é o sentimento de inconsistência que não beneficia o espetáculo.
Lando Norris referiu-se ao incidente durante o Grande Prémio da Estíria que o viu ser penalizado depois de Sergio Pérez ter saído de pista enquanto lutava pela posição:
“Algumas das coisas que agora compreendemos significam que eu não deveria ter sido penalizado”, disse o piloto da McLaren. “Mas então também que tipos de superfícies estão no exterior do circuito, quer seja gravilha ou alcatrão ou o que quer que seja, também podem ter um efeito, o que eu não acho que seja justo ou verdadeiro. Essa é a única coisa que eu acredito que deve ter sido a diferença. Dei ainda um pouco de espaço para ele recuar, não foi como se o tivesse empurrado, e não houve qualquer contacto. Sinto que é uma pena injusta que recebi, mas é nisso que tenho de acreditar agora que a diferença em relação ao Max no fim-de-semana passado, é que eu tinha gravilha”.
O colega de equipa Daniel Ricciardo referiu-se a um incidente envolvendo Lance Stroll no Grand Prix da Áustria do ano passado.
“O facto de ele ter tentado passar e não ter conseguido, saindo da pista então isso não é uma ultrapassagem”, disse o australiano. “Não há maneira de alguém conseguir manter uma posição ao tentar uma travagem tardia e não se manter na pista. É talvez o mesmo que as situações do fim-de-semana passado”, acrescentou ele. “Mas sim, é verdade que as consequências ditam um pouco da decisão global, creio eu”.
“Tentaremos sempre correr nos limites do que nos é permitido fazer”, disse Charles Leclerc, “e é o que farei no caso de estas coisas serem permitidas. Honestamente, não me importo com o que quer que seja permitido, só quero que seja claro”, acrescentou ele. “Essa é a única coisa que me interessa.” Qualquer que seja a decisão, vou apenas adaptar a minha condução, por isso estou bem com ambos”.
Não faz sentido que todas as manobras sejam avaliadas da mesma forma, tem de haver sensibilidade por parte dos comissários para entender a especificidade de cada momento e nisso, não se pode apontar o dedo aos comissários. Mas por outro lado é preciso mais coerência e que manobras aparentemente iguais sejam julgadas de forma semelhante e com as mesmas consequências. Não é fácil ser comissário, mas complicar o que já é difícil não é boa ideia.










