Na semana antes do Rali de Monte Carlo, publicámos a antevisão do Mundial de Ralis e é sempre curioso confrontar um texto desses com a realidade que nos é transmitida pelos acontecimentos. Claro que só decorreu ainda uma prova, ainda por cima a que mais facilmente acontecem situações para lá da valia dos pilotos que afetam fortemente resultados – por exemplo escolhas erradas de pneus – mas seja como for vamos ‘contestarmo-nos’ a nós próprios.
Começamos com Ott Tänak, pois é ele o piloto que achamos poder impedir que Sébastien Ogier chegue ao oitavo título. Na passada semana escrevemos que “Só meses depois, no regresso, venceu, mas depois teve alguns azares e não ficou sequer, perto do título. Este ano, nada o impedirá de entrar a todo o gás. Pode, efetivamente, sentir algum ‘desconforto’ em termos mentais com o acidente de Monte Carlo 2020, mas Tanak é nórdico, frio, pouco falador, e nunca ninguém vai perceber muito bem se o acidente o afetou ou não. Honestamente, acho que Tanak é o favorito a vencer o WRC 2021”. Continuo a achar o mesmo, mas Ott Tanak voltou a ter um mau Rali de Monte Carlo. Curiosamente, começou bastante bem, venceu os dois primeiros troços, mas optou por levar apenas um pneus sobressalente na mala, para ganhar em termos de peso, e isso tramou-o. Talvez tenha sido apenas um azar, mas a verdade é que desde que foi para a Hyundai só na Estónia 2020 vimos o Tanak de 2019 que na Toyota ‘esmagava’ a oposição. Portanto, um caso a rever, este abandono não muda a minha posição.
Quanto a Thierry Neuville, piloto que venceu o Monte Carlo de 2020, para mim é quase inexplicável que ‘em cima’ da prova tenha trocado de navegador. Não sabemos o que se passou com Nicolas Gilsoul, nem ele o quis revelar, mas se uma troca de navegador é complicada qualquer que seja a primeira prova juntos, muitos mais o é no Rali de Monte Carlo. No final, Neuville disse que Martijn Wydaeghe, fez um bom trabalho, mas também não podia dizer outra coisa.
Na semana passada disse que Neuville “arrisca-se a ficar como o eterno segundo no WRC, mas isso também significa que tantas vezes tenta, que um ano consegue”. Para já, não começou mal, pois não teve qualquer preparação com o novo navegador, em prova, claro, e terminou o rali em terceiro, mesmo com alguma sorte. Mas mais mérito que sorte.
Andou um bocado aos ‘papéis’ em determinadas alturas, mas quando parecia que ia baquear, melhorou e terminou o evento com o melhor que podia aspirar nestas condições. Portanto, nada de muito diferente do Neuville que conhecemos. A única agravante é ter sido terceiro numa prova que o ano passado ganhou bem e em luta direta com o ‘master’ de Monte Carlo, Sébastien Ogier. Tal como Tanak, um caso a rever.
O primeiro piloto em que tenho de dar a mão à palmatória é Elfyn Evans. Dele disse a semana passada que “Elfyn Evans dificilmente volta a ter 14 pontos de avanço à entrada da prova decisiva do ano. Venceu bem na Suécia – todos sabem que é capaz de vencer provas, de vez em quando – e aproveitou bem para vencer na Turquia. E esteve quase a ser campeão. Mas num campeonato ‘normal’, ou pelo menos, ‘mais normal’ dificilmente baterá Ogier, Tank e Neuville ao mesmo tempo. Teve a sua oportunidade. Se voltar a fazer o mesmo isso vai surpreender-me”.
Para já surpreendeu-me embora tenha começado a utilizar a exata mesma tática que quase o levou ao título o ano passado. É o mesmo Evans de 2020, mas pareceu mais confiante e um bom bocado mais perto de Ogier, Neuville e Tanak, quando as coisas correm normalmente a todos. Se mantiver esta bitola, começo a acreditar que pode lá chegar, embora tenhamos que esperar, pois como já referi que não é uma prova que me vai mudar a opinião para já. Resumidamente, precisa neste momento de menos esforço, para andar junto da frente.
Não posso dizer que Kalle Rovanpera me surpreenda muito com o que vem fazendo no WRC, mas ele está a consegui-o. Na passada semana escrevi que “o desafio de Kalle Rovanperä este ano será bater Elfyn Evans e chegar-se mais ao trio que luta pelo título. Talvez vença pela primeira vez este ano. Realizou provas brilhantes o ano passado, mas também cometeu alguns erros”.
O que vi de Rovanpera em Monte Carlo faz-me concordar com Jari-Matti Latvala: “ele vai bater este ano o meu recorde de mais jovem piloto a vencer uma prova do WRC”. E não me admirava que fosse já dentro de um mês. Para se colocar as coisas em contexto, Rovanpera tem 20 anos. Greensmith tem 24, Katsuta Takamoto, 27, Teemu Suninen, 26. Evans tem 32, tantos quanto Neuville, Tanak tem 33. Talvez não ganhe tantos títulos quanto Ogier, porque há bons jovens a nascer nos ralis, pode fazer más escolhas de equipa ou ter azar. Sendo verdade que Tanak, Neuville e Evans têm alguns anos pela frente e a experiência conta, imagine-se com mais um ano ou dois de WRC onde pode chegar Rovanpera…
Sébastien Ogier vai sair do WRC no final deste ano, mas ainda bem que ficou esta temporada. Dele disse que :”O francês, quererá sair do WRC com mais um título. Sem dúvida. Não é preciso dizer muito mais de Ogier. Sete títulos mundiais, dois dos últimos três na M-Sport, explicam muito da sua categoria. Olhe-se para o que foi a M-Sport em 2017 e 2018 e veja-se o que é agora e o que mudou.”
Este seu título de 2020 já foi mais difícil, e acredito que em 2021 Ogier vai lutar pelo título, mas vai ser preciso que tudo lhe vá correndo bem, e que os resultados lhe vão permitindo manter-se na frente ou lá perto.
Se começar a ter ‘crises’, nesta fase da sua carreira o esforço terá de ser maior, mas a sua categoria está lá toda, e são os adversários que têm de mostrar que o podem bater, como já aconteceu no passado. O que Ogier mostrou em Monte Carlo nada muda, pois ali ele é Rei e Senhor, quando as coisas lhe correm ‘normalmente’. Numa prova que conhece de olhos fechados, teriam de ser os adversários a fazer pela vida, mas em apenas dois troços, Ogier ‘destruiu-os’ a todos…
Quanto a Gus Greensmith, que na semana passada dele dissemos que “será este ano o ‘líder’ da M-Sport/Ford. E isso chega para dizer o que é a estrutura de Malcolm Wilson hoje em dia”. Simplesmente, não tem categoria para já estar a este nível. Ainda atenua as coisas em provas de terra, tem um ou outro rali em que mostra algo, mas o que fez em Monte Carlo é mau demais para ser verdade. Não consegui ver nada positivo, quando se é regulamente batido pelos melhores R5.
Quanto a Takamoto Katsuta, continuo sem mudar a opinião. Os japoneses quer ‘fazer’ um piloto, mas os bons pilotos de ralis não se fazem. Ou são ou não são e isso vê-se cedo. Não é mau piloto tem melhorado, pode tornar-se no melhor piloto de japonês no WRC mas não mais do que isso. Continua a sua curva de aprendizagem, comete alguns erros, naturais. O ano passado teve uma fase muito má mas este ano começou bem. Fez o seu melhor resultado de sempre no WRC, e logo no Monte Carlo. Acredito que pode ser um bom piloto de top 5 mas nada mais do que isso.
Não queremos ser injustos para Teemu Suninen, por isso só dizemos que vamos esperar por mais prova e desejamos-lhe que esteja inspirado nos testes do novo carro de 2022 da M-Sport/Ford. O que fez em Monte Carlo é inadmissível. Não que um piloto de ralis não possa tentar ser o melhor, é essa a sua essência, devia ser assim sempre, com todos, mas quando o patrão lhe diz “tens que levar o carro até ao fim” e ele se despista no primeiro troço é algo não muito inteligente.
Não vale a pena falar muito de Dani Sordo, já se sabe o que vale há muito tempo, uma boa prova, e um triunfo, como se viu o ano passado, aqui e ali, mas preferimos olhar mais para o que poderá ser o futuro do WRC.
De Pierre-Louis Loubet também preferimos esperar, porque é injusto ‘bater’ em pilotos tão jovens e com tão pouco WRC ‘nas pernas’. No final da época já vai haver mais para dizer, para já seria injusto.











