O ecossistema nacional de empreendedorismo tem feito correr muita tinta e o automobilismo não escapa à vaga. Algures na Maia vão começar a nascer os novos protótipos e monolugares da marca Juno.
Fundada em 1999 pelo ex-engenheiro da Williams F1, Ewan Baldry em Inglaterra, a Juno Racing Cars é conhecida entre nós pelos sport-protótipos que nos últimos anos colecionaram troféus no Campeonato Nacional da Montanha pelas mãos de Pedro Salvador, Paulo Ramalho ou Pedro Castañón. No Verão de 2014 a então empresa britânica foi adquirida pela Ginetta Cars com o propósito de produzir o novo protótipo Ginetta-Juno LMP3. Com Baldry a ocupar o cargo de Diretor Técnico na Ginetta, a designação Juno foi desaparecendo e a própria marca foi caindo no esquecimento. Nisto, o jovem empresário Nuno Magalhães, fundador da Comval Racing, viu uma oportunidade. Afinal, o ex-engenheiro de pista da Juno Racing e importador da marca para a Península Ibérica conhecia como poucos os produtos criados em Leyland. Em 2016, o portuense avançou com a compra da marca que a partir do próximo mês de Março vai começar a produzir sport-protótipos e monolugares na Maia. E aqui se inicia um novo capítulo…
A Expansão
Apesar do incontornável entusiasmo existente no nosso país pelos desportos motorizados, Portugal continua a ser um país periférico no panorama mundial do automobilismo, o que levará muitos a interrogarem-se qual o propósito de investir num projeto desta natureza. Sendo esta uma aventura comercial, apesar da paixão pelo nosso desporto daqueles que o abraçaram, obviamente que ninguém na rejuvenescida Juno espera que a marca sobreviva do insignificante mercado interno português. Presente nos cinco continentes, a Juno é uma marca verdadeiramente internacional. “Temos carros a competir por toda a Europa, temos nos Estados Unidos da América, temos carros a correr desde a África do Sul, passando pela Malásia, Austrália e Nova Zelândia. Vamos ter um campeonato na Austrália e outro na Nova Zelândia, com o monolugar, que também irá competir nos Estados Unidos da América. Também temos interesse de Espanha e até da China para este monolugar. Há uma série de oportunidades a explorar”, esclarece Magalhães. Num mercado global, onde a concorrência é vasta, não podem existir falsas expectativas. “Nós somos realistas, gostaríamos de conseguir vender cerca de 20 unidades neste primeiro ano, o que é muito acima do que aquilo que a Juno vendia por ano até aqui, mas achamos que é uma meta tangível”, afirma Magalhães. “A fábrica tem 600 m2, o que é o dobro da fábrica anterior, em Inglaterra. As pessoas aqui em Portugal têm a ideia que uma fábrica de carros de corrida é uma coisa muito grande, mas na realidade não é. A nível de funcionários somos dez, o que é o triplo do que a Juno tinha anteriormente”, explica o CEO.
Para além de ter herdado o espólio material que estava em Inglaterra, a Juno “portuguesa” herdou também os clientes, mas isso não é garantia per se de sucesso neste competitivo mundo empresarial. “Vamos trabalhar o mais rápido possível para apresentarmos produtos novos, para que não fique a ideia que compramos uma marca antiga e não comercializamos nada de novo. O facto de ser ‘made in Portugal’ poderá ser um estigma que tenhamos de ultrapassar”, admite o empresário, que no entanto reconhece as “muitas vantagens” de ter base em Portugal, a começar pelos custos da mão de obra e rendas, mas a aposta passa igualmente “por uma imagem de marca forte”. O primeiro passo foi dado no mês passado, quando a representação nacional participou no prestigiado NEC Birmingham Autosport International Show e regressou a casa com o troféu do expositor com o design mais criativo atribuído pelo organizador do evento.
O novo CN
Em 2018 a Juno vai lançar para o mercado um novo produto, o protótipo CN18, que é a evolução natural dos “irmãos mais velhos” SSE, CN09, CN12 e CN16. Este marcará o fim dos chassis tubulares e honeycomb de alumínio e a introdução dos chassis em carbono, como assim quase obriga o mercado actual. “Nós estamos a testar o uso de placas de carbono em ninho de abelha no chassis do mais recente CN2016, e tem resultado”, explica Magalhães. “O CN2016 é em todo semelhante aquele que tem sido visto nas pistas desde 2015. Contudo, a aerodinâmica será melhorada, sendo que a principal diferença se situa no splitter dianteiro que será reforçado e aligeirado no interior. Deste modo, as barras de apoio em alumínio, que se estendiam até às laterais, serão removidas e poderemos assim aproveitar ainda mais carga aerodinâmica. Por seu lado, o CN2018 será um carro totalmente novo, praticamente não usaremos nenhuma peça do modelo anterior”.
A nova viatura será produzida na integra em Portugal, com a excepção da monocoque em carbono. Esta deverá ser produzida em Itália, recorrendo a Juno ao mesmo especialista que fornece a Tatuus, Ginetta ou Mygale. Quanto ao motor, estão a ser avaliadas várias hipóteses, sendo que o novo carro está a ser desenhado com base nos nossos motores mais comuns – Ford, Nissan e Jaguar V6 e Honda K20 – e numa nova versão turbo que irá equipar os carros de categoria CN muito em breve.
Preparar 2018
Enquanto o novo carro não chega ao mercado, a estrutura maiata prepara-se com afinco para este novo desafio. “Temos planeados testes em Guadix, em Ascari e noutras pistas”, esclarece Magalhães. “Vamos ter uma equipa a trabalhar com esse foco e quem irá fazer os testes do carro poderá ser um piloto português, muito provavelmente o Gonçalo Araújo. Ele foi nosso adversário no passado, mas acredito que ele é um piloto com as capacidades que se adequam a este desafio”. Por outro lado, Magalhães quer perceber realmente que produto tem em mãos. Para tal, ainda munido com o chassis híbrido de honeycomb alumínio/carbono, o atual Juno vai ser puxado ao limite e será colocado frente-a-frente com os melhores protótipos da especialidade ainda esta temporada. “Contamos participar nas provas do V de V Endurance Series na Península Ibérica – Barcelona, Portimão, Jarama e Estoril – com o objectivo de comparar o nosso carro com o da concorrência e percebermos exactamente em que nível é que estamos”. Para isso, a Juno vai recorrer a pilotos da família da marca, como, Alex Kenny e Dean McCarrol, que representam os agentes da Austrália e Nova Zelândia, assim como a outros pilotos com vasta experiência ao volante deste tipo de sport-protótipos, como Sarah Reader, Joe Tucker, ou o próprio Araújo. A equipa oficial não coloca de parte a possibilidade de colocar em pista um segundo carro no campeonato V de V Endurance Series se aparecerem pilotos interessados.
O Fórmula
A história da Juno nos monolugares iniciou-se em 2009, quando Baldry projetou o JA09 para o Campeonato Britânico de Fórmula Ford, um modelo que obteve triunfos logo na época de estreia. Quem teve a oportunidade de visitar o stand da Juno no salão de Birmingham, teve com certeza a oportunidade de ver o novo F1000. Este monolugar especificamente desenvolvido para o regulamento dos campeonatos americanos e australianos de F1000 pesará 320 kg, menos 250 kg que os atuais chassis FIA Fórmula 4 em carbono, e será equipado com um motor de moto 1,000cc. “Estamos a construir o protótipo agora. É um chassis completamente novo, com motorização de mota, feito de propósito para o campeonato dos EUA e australiano. Para o mercado americano em especial vamos usar um motor BMW, mas para os outros mercados, onde é obrigatório usar motores japoneses, a opção a usar será o motor Suzuki GSXR 1,000cc”. Para quem não tenha a noção do que se trata este fórmula: “Estamos a falar de um monolugar caixa sequencial, pneus slick, asas a sério, patilhas de volante, geometria completa, chassis tubular, como mandam as regras. É um carro totalmente novo e que não tem uma única peça do seu antecessor”. Com a proliferação de campeonatos FIA de Fórmula 4, estando já alguns deles a acusar esse desgaste e os elevados custos da disciplina que a federação gostava que fosse o primeiro degrau da hierarquia dos monolugares, o monolugar da Juno pode ser uma excelente alternativa para competições nacionais. “Estamos em conversações com Espanha, para a possibilidade para fazer algo muito parecido com a Fórmula 4, algo entre um Fórmula 4 e um Fórmula 3 a nível de performance”. A Juno tem ainda no seu catálogo o Cerberus. Este fórmula de dois lugares, equipado com um motor Jaguar V6 de 400cv, é ideal para proporcionar emoções fortes a convidados e patrocinadores, ou para ser usado em escolas de pilotagem, tendo sido aclamado pela exigente imprensa britânica desde a primeira hora.
Nós por cá
A presença em Portugal será obviamente limitada, até porque os sport-protótipos foram preteridos pelas viaturas de turismo na velocidade nacional. Os Juno protótipos estão atualmente limitados a competir no Campeonato Nacional de Montanha, onde esta temporada Hélder Silva conduzirá um exemplar ex-PRminiracing. “Apesar da empresa estar em Portugal, somos uma empresa praticamente de exportação, mas o nosso monolugar Fórmula Ford, com motorização Kent, pode participar no Single Seater Series. Estou certo que será competitivo e os custos de colocar em pista são em tudo semelhantes aos actuais Fórmula Ford Zetec”, esclarece Magalhães. A Fórmula Ford Kent, a categoria mais popular na Europa, terá esta época um prémio adicional para os Gentlemen Drivers, sendo o monolugar produzido pela Juno uma boa alternativa àquelas existentes no mercado.
Sérgio Fonseca

























