Há momentos que transcendem a mera vitória, inscrevendo-se na memória coletiva como o início de uma nova era. Em 2008, o Alto Alentejo foi palco de um desses instantes, quando a Baja de Portalegre não só celebrou o talento e a audácia, mas também testemunhou a estreia mundial de uma máquina que prometia reescrever a história: o Mitsubishi Racing Lancer. Sob a batuta do lendário Stéphane Peterhansel, o ‘deserto’ de Portalegre, molhado pela chuva, recebeu o batismo de fogo de um futuro campeão, num espetáculo que evocou o passado glorioso e abriu as portas a um porvir movido a diesel.
O batismo de fogo de um novo campeão
Mês e meio após a sua épica despedida do Pajero Evolution, no Pax Rally, Stéphane Peterhansel regressou a Portugal para um desafio ainda maior: conduzir o novo Racing Lancer ao seu primeiro triunfo. A expetativa era palpável, e o público, sempre fiel, acorreu em massa para presenciar o que muitos antecipavam ser o prenúncio de uma nova era. Peterhansel, já imbatível nas suas três deslocações anuais a solo português, sabia que a pressão era imensa. “É sempre uma honra,” afirmou, “ainda mais quando temos pilotos tão bons dentro da equipa.”
Contudo, a adaptação não foi imediata. O traçado alentejano, técnico e traiçoeiro pela chuva que caíra, exigiu o melhor do piloto francês. “De início, tive efetivamente algumas dificuldades para me adaptar às condições do piso, nem sempre tendo a melhor sensação do carro – sem qualquer preparação específica para este tipo de terreno. Por isso mesmo, foi complicado andar rápido logo na Super Especial e também no início do segundo dia,” confessou Peterhansel. Mas a mestria do “Senhor Dakar” falou mais alto: “Aos poucos, fui ganhando confiança, aumentando o ritmo e procurando conduzir sempre de forma limpa, até porque era muito fácil cometer um erro.”
Duelos na poeira e o sentimento de missão cumprida
Mesmo com um furo que o atrasou cerca de dois minutos e meio, Peterhansel assumiu a liderança após o primeiro setor, explorando o potencial do Racing Lancer e garantindo uma vantagem confortável. No pódio, ladeado por motores Diesel, Filipe Campos emergiu como o “melhor dos portugueses”, numa performance memorável que o viu quebrar a hegemonia de Peterhansel no último setor. “Ele é realmente de outro campeonato,” reconheceu Campos, “Pela nossa parte, sentimo-nos satisfeitos por as diferenças nunca terem sido expressivas e por termos sido os primeiros entre os portugueses, após uma prova sem registo de qualquer problema.” Um segundo lugar que coroou “a melhor de toda a minha carreira”.
Miguel Barbosa, na sua estreia com o BMW X3, fechou o pódio, mas não sem alguma frustração. “Este não era o resultado que mais ambicionava. Acreditava que podia lutar pela vitória, mas as coisas estiveram longe de correr como o desejado,” lamentou, sentindo que o carro nunca esteve totalmente afinado. Outros nomes, como Tonnie van Deijne, Pedro Grancha e Ricardo Leal dos Santos, também deixaram a sua marca, enfrentando os desafios do terreno com a resiliência característica do todo-o-terreno.
O olhar no futuro: Dakar e a fiabilidade diesel
Para a Mitsubishi, a vitória em Portalegre foi mais do que um troféu; foi a confirmação de um projeto ambicioso. Peterhansel, elemento fundamental no desenvolvimento do Racing Lancer, sabia o peso deste triunfo. “O importante foi sair daqui com uma vitória, fundamental para moralizar toda a equipa que trabalhou afincadamente neste projeto durante os últimos seis meses. Nessa perspetiva, foi sem dúvida um bom começo para todos.”
Com o Dakar 2009 no horizonte, o piloto francês depositava a sua confiança na fiabilidade do novo carro. “Se, por um lado, temos agora um carro que é muito mais fácil de conduzir que o anterior Pajero, por outro, estamos muito confiantes no grau de fiabilidade que já conseguimos atingir com este Racing Lancer. Essa foi sempre, aliás, a imagem de marca da Mitsubishi: não arriscar nada na fiabilidade, mesmo que para isso seja preciso sacrificar a performance. E sem problemas, julgo mesmo que será possível ganhar o próximo Dakar,” previu Peterhansel, com a visão de um campeão que sabe que a lenda se constrói passo a passo, ou melhor, quilómetro a quilómetro. O rugido diesel de Portalegre ressoava como um aviso: a Mitsubishi estava pronta para um novo capítulo na história do todo-o-terreno.








