A história da Baja de Portalegre é um tecido complexo, bordado com fios de superação, amizade e uma paixão que transcende a linha de chegada, uma chama que se acende e se transmite também de pais para filhos. Não se resume apenas aos seus vencedores, mas à miríade de almas que, ano após ano, se lançaram à aventura dos seus trilhos.
Em 2007, o regresso de nomes que alinharam na mítica edição de 1987 não foi apenas uma efeméride; foi a reafirmação de um laço inquebrável com a prova. Filipe Campos, que ali fez a sua estreia como navegador ao lado de Carlos Leitão, e José Mendes, que acompanhou o seu pai, o lendário Santinho Mendes, num Datsun 1600 SSS, testemunharam em primeira mão a continuidade de um espírito que perdurou durante tanto tempo, uma herança viva que se recusava a desvanecer.
Contudo, a verdadeira magia, a essência imortal de Portalegre, reside na passagem de testemunho, no eco dos motores que ressoa de geração em geração. O legado desta Baja transcende os nomes, transformando-se numa herança de coragem e determinação que os filhos abraçam, seguindo as pisadas dos pais.
Além do já evocado José Mendes, cuja história se entrelaça com a do seu progenitor nas pistas, também Edgar Condenso e Miguel Barbosa viram os seus pais – Carlos Condenso, ao volante de um robusto UMM, e Carlos Barbosa, o atual presidente do ACP, a domar um possante Range Rover – à partida da edição pioneira.
E como não nos emocionarmos com a história de Luís Portela de Morais, que, apesar de não ter nascido quando os seus pais, Miguel e Leonor Portela de Morais, enfrentaram os desafios do primeiro Portalegre, hoje carrega o mesmo apelido e a mesma paixão, inscrevendo o seu nome nos anais da prova?
Esta chama ardente é também evidente em exemplos como o de Paulo Rui Ferreira, que deixou ao filho muito mais do que um apelido sonante: passou-lhe o testemunho do todo-o-terreno, um mapa de sonhos traçado na poeira e na velocidade. João Ferreira corre agora, com a mesma garra e a coragem que herdou, rumo a um lugar entre os maiores da história do todo-o-terreno português em geral, e da Baja de Portalegre em particular. Estes são testemunhos eloquentes de que a paixão, essa sim, não conhece fronteiras temporais, nem se curva perante a passagem das estações. É um fogo que se realimenta, que se transmite de alma para alma, garantindo que o espírito de Portalegre perdure.
A Baja de Portalegre é, pois, muito mais do que uma corrida; é um hino à resiliência humana e mecânica, à camaradagem que se forja nas dificuldades do percurso e à intemporalidade de um desporto que se entranha na alma. As memórias de 1987 continuam a inspirar, a emocionar e a garantir que o rugido dos motores e a poeira do Alentejo jamais serão esquecidos, perpetuando uma lenda que se renova a cada partida.








