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MEMÓRIA, Carlos Sousa recorda primeiros Dakar: “Conheci o céu… e o inferno!”


Desde 1996 que a carreira de Carlos Sousa apareceu intimamente ligada à prova rainha do todo-o-terreno mundial. Durante as seis primeiras edições, consecutivas, o piloto português viveu momentos que dificilmente conseguirá apagar da memória. Histórias com final feliz e outras com desfecho dramático, mas todas elas passíveis de serem recordadas…
Para muitos, estar à partida de um “Dakar” continua a ser o concretizar de um velho sonho, o ponto mais alto de uma carreira. Talvez seja assim da primeira vez, talvez até da segunda… mas não para quem cumpre este ritual durante sete anos consecutivos, como sucede com o português Carlos Sousa. Ainda assim, o respeito pela maior e mais importante prova do terreno-o-terreno mundial manteve-se inabalável, tal como a sua vontade de fazer sempre melhor, ano após ano enquanto correu.
Com quase 60 mil quilómetros deixados para trás, as histórias sucedem-se: umas tiveram final feliz, outras um desfecho bem dramático, mas todas elas fazem parte de um livro de recordações que continua longe de estar completamente escrito.

“Aconselharam-me a não ir”
A “aventura” começou em 1996, ao volante de um Mitsubishi Pajero do Agrupamento T3. “Lembro-me que quando disse que iria disputar a prova pela primeira vez muita gente me disse que era um erro enorme começar a correr em África logo pelo ‘Dakar’ e que não iria passar da primeira semana… Foi um enorme desafio, sustentado pelo meu próprio bolso, mas que viria a saldar-se por um bom resultado final. Terminei em 12º da geral, fui terceiro na minha classe e ainda o melhor estreante desse ano”.
O segundo ano revelou-se ainda mais positivo em termos de resultado final, já que se tornou no primeiro português a triunfar na classe T1, fruto de um auspicioso décimo lugar da classificação geral. Curiosamente, não guarda grandes recordações dessa prova, “pois foi das mais fastidiosas que realizei até hoje, talvez devido ao próprio percurso, demasiado longo e sem grandes motivos de interesses. Valeu, enfim, pelo resultado”.
O ano de 1998 coincide com a estreia da nova Mitsubishi Strada, um projecto novo que o próprio português ajudou a desenvolver, mas que acabou por não ter os resultados pretendidos, pelo menos, de forma imediata: “Fui 17º em 98 e 18º em 99, os meus dois piores resultados de sempre na prova. Mas, curiosamente, foram talvez os anos em que mais aprendi, fruto dos muitos problemas que enfrentei…”.

O primeiro grande susto
O “primeiro” grande susto aconteceu em 99, numa edição em que a primeira desistência chegou a estar eminente: “nesse ano, tive uma última semana muito complicada. Cheguei a estar em nono mas, na 13ª etapa, o sonho desmoronou-se, quando a caixa de velocidades cedeu e o carro ficou imobilizado numa zona de dunas. A certa altura, pensei que teria mesmo de desistir. Ninguém respondia aos meus apelos! Finalmente, cerca das dez da noite, surgiu um camião de uns dos amigos do Willy (Alcaraz) que se prontificou a rebocar-nos ao longo dos 200 quilómetros que faltavam cumprir. Foi uma situação difícil de descrever: passamos sete horas atrás do camião e apenas conseguíamos ver as luzes traseiras! Nunca mais vou esquecer esses momentos!”. E foi assim que, cerca das cinco horas da madrugada, o português chegou ao acampamento, onde os mecânicos já o esperavam para substituírem a caixa da Mitsubishi Strada. “Cerca de quatro horas mais tarde, sem ter dormido ou descansado, apresentei-me à partida da 14ª etapa. Levei com o máximo de penalização e caí para o 18º posto. A partir daí, o objetivo passou a ser apenas atingir o final. Depois de tudo por que tinha passado, achei que merecia ver aquelas praias”. E viu. Mas como um azar nunca vem só, “ainda tive outro susto, em plena praia, quando um pneu rebentou, numa altura em que seguíamos a mais de 160 km/h. Fomos parar à água, fiquei todo encharcado e perdemos mais alguns minutos para trocar o pneu, mas isso já nem tinha importância, pois tínhamos conseguido resistir a tudo e já estávamos em Dakar”.

O melhor e o pior no mesmo ano
E assim se chega ao ano de 2000, “um ano em que experimentei dois momentos completamente diferentes. Um primeiro bastante positivo em termos de resultados, já que passamos pela liderança e vencemos duas etapas, mas um segundo completamente trágico, devido ao acidente na 13º etapa, quando fomos surpreendidos por uma duna traiçoeira e aterramos de forma violenta na areia”. Um episódio que certamente ainda está na memória de todos os portugueses e que, naturalmente, abalou bastante a carreira de Carlos Sousa. “É difícil explicar tudo aquilo por que passei. Foi uma grande lição de vida e ainda hoje é difícil esquecer aquele momento”.
Apesar de tudo, no ano seguinte, o piloto de Almada regressou à prova, terminando no quinto lugar da geral. Mas, tendo em conta tudo o que se passou, nomeadamente, “os problemas de afinação que enfrentamos e a difícil adaptação ao meu novo navegador, penso que o justo era terminarmos no pódio. De qualquer forma, provei que estava num bom nível e que estas seis participações não tinham sido em vão. Aliás, nessa altura, via que o caminho estava traçado e que nessa altura só faltava um pequeno passo para chegarmos ainda mais longe…”.