Menos custos, mais competição, futuro mais acessível para o WRC. É resumidamente isto que a FIA pretende, com os Rally2+ a tornarem-se os carros de topo do Mundial de Ralis…
O Mundial de Ralis prepara-se para mais uma enorme revolução. Até aqui, a grande maioria das suas transformações deu-se para carros mais espetaculares e rápidos, salvo uma exceção: 1987 e o Grupo A.
Em 2027, ironicamente, 40 anos depois, está previsto um novo significativo ‘downgrade’, ficando por saber quanto mais lentos os WRC2027 ficarão face aos atuais Rally1.
Os novos carros de 2027 vão basear-se nos Rally2, sendo que o chassis será o dos atuais Rally1, o novo chassis tubular estreado em 2022, o qual é bastante mais seguro.
Por muito que possa custar a muitos adeptos, este é único caminho possível para uma drástica redução de custos, mas que pode trazer outras vantagens, que passa por permitir as que muitos mais equipas possam lutar com armas semelhantes às equipas de fábrica, tal como sucedeu nos anos do Grupo A em que muitas vezes bons pilotos e equipas se ‘misturavam’ nas posições cimeiras das provas do WRC.
Por exemplo, os quintos lugares de Carlos Bica (1990) e Fernando Peres (1994) no Rali de Portugal.
Com os novos WRC27, a ideia da FIA é que surjam mais equipas com carros de ‘ponta’ (vamos ver o detalhe dos regulamentos para perceber como será, exatamente, especialmente quanto às restantes categorias.
A ideia da FIA é que se tornem os carros muito mais baratos e que isso permita abrir significativamente o leque de equipas que podem lutar pelos lugares mais à frente no Mundial de Ralis.
Os novos WRC 2027 (o documento da FIA denomina-se ‘WRC Future Technical 2027+’) será apresentado aos membros do Conselho Mundial na próxima quarta-feira, dia 11 de dezembro.
A ideia da FIA é que os carros não custem mais de 345.000 euros, sensivelmente o mesmo da geração 2012-2016 dos World Rally Cars. Haverá certamente outras alterações ao regulamento desportivo, e esse detalhe conheceremos na 4ª Feira.
Recordando a história
O Mundial de Ralis, desde a sua criação em 1973, tem sido palco de uma evolução fascinante na tecnologia, com cada era a trazer a sua própria revolução mecânica e espetáculo visual.
A Génese: 1973 – Os Quatro Mosqueteiros
Em 1973, o WRC nasceu com uma mistura eclética de máquinas. Quatro grupos distintos competiam lado a lado, como os quatro mosqueteiros, leia-se, Grupos. O Grupo 1, com os seus carros de turismo de produção em série, representava o homem comum na estrada. O Grupo 2 trazia os carros de turismo mais aprimorados, enquanto o Grupo 3 exibia a produção em série com um toque de sofisticação. Já o Grupo 4, era o topo, com os seus carros de turismo modificados, eram os rebeldes da família, e os mais competitivos.
A Revolução: 1982 – O Nascimento dos Grupos Lendários
1982 marcou uma viragem significativa. O Grupo N substituiu o Grupo 1, trazendo uma abordagem mais rigorosa à produção em série. O Grupo A, sucessor do Grupo 2, tornou-se o novo padrão para carros de turismo. Mas foi o Grupo B que roubou os holofotes, substituindo o Grupo 4 e inaugurando uma era de potência desenfreada e design radical.
O Fim de uma Era: 1986 – O Adeus ao Grupo B
O ano de 1986 ficou marcado na história como o crepúsculo do lendário Grupo B. Estes monstros de potência, que tinham capturado a imaginação dos fãs, foram banidos devido a preocupações de segurança, encerrando uma era de excessos mas de muito espetáculo e emoção. Infelizmente também de tragédias…
A Era da Razão: 1987 – O Reinado do Grupo A
Com o Grupo B fora de cena, 1987 viu o Grupo A assumir o trono como a categoria de elite. Enquanto isso, o Grupo N tornou-se o refúgio dos pilotos privados, oferecendo uma opção mais acessível e económica para os aspirantes a campeões. Foi a maior mudança em sentido inverso, com carros que eram muito menos competitivos que os ‘monstros’ de Grupo B, a última evolução dos Supercarros.
O Grupo A reduziu a cerca de metade as potências dos motores e o Mundial de Ralis teve de fazer uma travessia do deserto.
Mas rapidamente as marcas começaram a criar carros cada vez mais competitivos, e os Grupo de 1987 nada tinham a ver com os mesmos carros de 1992-1996.
A Revolução Técnica: 1997 – Nasce o World Rally Car
Em 1997, o WRC entrou em cena uma nova era com a introdução da especificação World Rally Car. Esta mudança abriu as portas para uma nova geração de máquinas de rali, combinando tecnologia bem mais avançada com desempenho espetacular. Foi aqui que o WRC deu um significativo pulo competitivo, sendo que nesta altura os adeptos do WRC já se tinham ‘esquecido’ dos Grupos B. Esta fase do WRC foi, talvez, das melhores da sua história.
A Era da Eficiência: 2011 – Downsizing em alta velocidade
Só que a tecnologia avançada e no começo da segunda década do Séc. XXI a eficiência dos motores tinha ganho uma importância acrescida. 2011 trouxe uma mudança significativa com a introdução de novos World Rally Cars equipados com motores de 1.6 litros (ao invés dos anteriores 2.000cc). Esta mudança para motores menores e mais eficientes marcou uma nova direção para os ralis, equilibrando desempenho e sustentabilidade.
O Regresso da potência: 2017 – A Aerodinâmica encontra a ‘força bruta’
Em 2017, o WRC abraçou novamente a potência dos motores. Os carros ganharam uma aerodinâmica mais agressiva e um aumento significativo de potência, ‘saltando’ de 300 para uns impressionantes 380 cavalos. Esta mudança trouxe de volta bem mais espetáculo visual e sonoro que os fãs tanto adoram. Estes carros que se despediram em 2021 ficarão na história como os mais evoluídos tecnologicamente na mecânica utilizada, e como os mais rápidos de sempre da história do WRC, porque os que se seguiram, com os sistemas híbridos, eram mais rápidos, em determinados momentos e condições. Mas os WRC 2017/21 eram eficazes em todo o lado e com todo o tipo de troços. Num eventual confronto direto, se bem afinados (eram bem mais complexos de afinar) os WRC 2017/21 eram mais eficientes.
O Futuro Sustentável: 2022 – A Era Híbrida
A mais recente revolução chegou em 2022 com a introdução da categoria Rally1. Estes novos carros combinam um chassis tubular, redesenhado com motores híbridos, marcando o compromisso do WRC com a sustentabilidade sem sacrificar a emoção da competição. Sem dúvida, carros muito rápidos e espetaculares, mas também estupidamente caros e isso, junto com a fraca Promoção do WRC, ao momento que vive o mundo em geral e a indústria automóvel em particular tem levado a cada vez maiores dificuldades e por isso, a FIA dá agora um passo atrás de modo a solidificar o WRC, para depois o fazer crescer de novo. Se resulta, é outra história que só o futuro o dirá…
Na verdade, cada era do WRC trouxe a sua própria marca de inovação e emoção, refletindo não apenas a evolução da tecnologia automobilística, mas também as mudanças nas atitudes sociais e ambientais. De monstros de potência a máquinas híbridas de alta tecnologia, o WRC continua a ser um terreno de testes para o futuro do automobilismo.
Por isso, agora, resta aguardar pelo detalhe e esperar para ver como tudo evolui. Não esquecendo que até lá temos mais dois anos com os Rally1, já com as novidades impostas recentemente pela FIA.









