Os pilotos que venceram só uma prova no WRC


Chame-se o que se quiser: sorte, estar no local certo na hora certa, o especialista. Mas a verdade é que, na história do WRC, existe uma mão-cheia de pilotos que, com apenas ‘one shot’, ficaram com o nome gravado no Álbum de Ouro da modalidade. Alguns ainda podem dar sequência a esse triunfo, como é o caso dos mais recentes a conseguirem-no, mas a grande maioria ficou mesmo pelo ‘One Shot’.

O último foi Elfyn Evans (Ford) que venceu o Rali da Grã-Bretanha de 2017, depois de ter estado muito perto do conseguir antes, no Rali da Argentina, quando perdeu para Thierry Neuville por 0.7s. Antes dele, o feito tinha sido conseguido por Esapekka Lappi (Toyota), que triunfou no Rali da Finlândia de 2017, depois de se ter estreado com um World Rally Car, meses antes, no Rali de Portugal. Hayden Paddon (Hyundai) venceu o Rali da Argentina de 2016. Dani Sordo, que venceu o Rali da Alemanha de 2013. Mads Ostberg venceu o Vodafone Rally de Portugal em 2012, na secretaria, depois do verdadeiro vencedor, Mikko Hirvonen, ter sido desclassificado por irregularidades no seu Citroën DS3 WRC.

Os africanos
África teve três importantes provas no WRC. O rali de Marrocos, o Safari (no Quénia) e o Costa do Marfim (ou Bandama). Do primeiro, que existiu somente nos primeiros anos do campeonato, não vale a pena falar – até porque nunca foi ganho por um piloto de ‘one shot’. Dos outros dois, sim. Realizados em zonas africanas distintas, eram caraterizados por condições e cenários também diferentes. Enquanto no Safari as estradas eram mais rolantes, em zonas de savana e com um trânsito infernal à mistura, no Bandama atravessavam-se zonas muito mais florestadas, quase tropicais e, como tal, muitas vezes com cheias violentas e quase inultrapassáveis. Numa coisa, porém, eram iguais: apenas os verdadeiros especialistas conseguiam lá ganhar.

E aqui não vamos falar em nomes como o local Shekhar Mehta, que venceu o Safari por cinco vezes; ou dos europeus Björn Waldegaard, Juha Kankkunen ou Colin McRae que, numa ou em ambas, assinaram o Livro de Honra por mais de duas vezes. Vamos, isso sim, falar dos verdadeiros ‘locais’, que pouco saíram da sua terra e só brilharam no WRC por terem lá ganho.

Alain Ambrosino, marroquino de nascimento, foi um desses pilotos. Venceu o Campeonato africano de Ralis em 1983, 1986 e 1987 e chegou a correr no rali do seu país, que terminou m 11º em 1975. Mas foi no Bandama que venceu a sua única prova no WRC. Depois de ter sido 3º em 1980 e 1985, ganhou-a em 1988, com um Nissan 200 SX, aproveitando-se do facto de a concorrência quase não existir: apenas chegaram ao fim dez equipas e o 2º foi o belga Pascal Gaban, com um pequeno Mazda 323 4WD.

Dois anos mais tarde, foi a vez do francês Patrick Tauziac – nascido no Vietname, mas residente na Costa do Marfim desde os 24 anos – vencer a mesma prova, com um Mitsubishi Galant VR-4, depois de ter sido 3º em 1988 e 2º em 1989. Nesse ano, mais uma vez quase não houve concorrência – o 2º classificado, o Audi 90 Quattro de Rudi Stohl – ficou a mais de duas horas!

Finalmente, falemos do queniano Ian Duncan, um dos mais cotados pilotos do seu país, onde foi campeão por seis vezes (1987 a 1989, 1991, 2000 e 2011, neste ano já com 50 anos!). A sua coroa de glória teve-a em 1994, ano em que finalmente ganhou o Safari, com um Toyota Celica Turbo 4WD, cotando-se como o melhor piloto da equipa oficial, que viu ficarem pelo caminho Juha Kankkunen e Yoshio Fujimoto e ser apenas 3º o francês Didier Auriol, que era outro dos favoritos.

Nos antípodas
Depois, há as provas realizadas nos antípodas – isto é, na Austrália mas, especialmente, na Nova Zelândia. São mais de 17.500 quilómetros de viagem desde a Europa e, por isso, a maior parte das equipas de fábrica optava por ficar em casa. Disso se aproveitaram os austríacos Franz Wittmann (1987) e Sepp Haider, com este a ganhar em 1988 com um Opel Astra GSi de tração dianteira. Já François Duval, que ganhou na Austrália em 2005, apenas conseguiu ter a sorte (pois batia mais do que chegava ao fim…) de estar no local certo na hora certa, quando o Loeb abandonou por acidente e Solberg teve problemas mecânicos. Ao volante de um Citroën Xsara WRC, Duval ficou na frente de Harri Rovanpera (Mitsubishi Lancer WRC 05) e de Manfred Stohl (Citroën Xsara WRC). Dos outros, rezam as próximas páginas…

Jogar em casa
Se deixarmos os mais recentes casos de pilotos em atividade (Elfyn Evans na Grã-Bretanha e Esapekka Lappi, na Finlândia) houve uma mão-cheia de pilotos que apenas ganharam a ‘sua’ prova caseira. Principalmente os nórdicos, especialistas na neve e nos térreos gelados, mas também outro tipo de especialistas. Dois bons exemplos disso foram a vitória de Bernard Béguin, no asfalto da Volta à Córsega, em 1987 e o de Roger Clark, que só andava realmente bem na sua ilha, no RAC, em 1976.

Per EKLUND – Suécia (1976)
Piloto da SAAB nos seus primeiros anos no WRC, ficaram célebres os seus duelos ‘assassinos’ com o seu colega de equipa, Stig Blomqvist. E foi depois de um desses duelos que ganhou o Rali da Suécia, batendo o seu rival (e amigo, já agora…) por 1m36s nos pisos cobertos de neve do seu país natal. Anders Kullang, num Opel Ascona, ficou em 3º, mas a mais de 22 minutos.
Até 1997, teve participações esporádicas no WRC, nunca chegando a fazer a totalidade de uma temporada. Por isso, o seu melhor resultado no WRC foi o 5º lugar em 1982, com 57 pontos – num ano em que foi 2º nos ralis de Portugal/Vinho do Porto, Nova Zelândia e Costa do Marfim, com um Toyota Celica 2000 GT. O seu principal ‘patrão’ foi o Clarion Team Europe, a partir de 1985 e para quem pilotou carros como os Audi Quattro S2 e A2, MG Metro 6R4, Lancia Delta HF 4WD e Integrale 16V, Nissan March Turbo e Subaru Legacy RS. No total, correu em 83 ralis do WRC.

Roger CLARK –RAC (1976)
Sir Roger Clark foi o maior piloto britânico de ralis antes de Colin McRae… mas só andava mesmo bem em Inglaterra. No WRC, correu de forma esporádica entre 1973 e 1981 e, depois, fez o seu “trabalho de casa” em 1984 (Porsche 911 SC RS) e 1995 (Subaru Impreza WRX). No total, foram 21 ralis – 11 deles o RAC. Curiosamente, ganhou esta prova por duas vezes (1972 e 1976) e, depois desta última, foram precisos 18 anos para outro piloto britânico conseguir ganhar em casa (Mcrae Em 1994). Em 1976, bateu o SAAB 99 EMS de Stig Blomqvist por 4m37s. Fora da ilha, o seu feito principal foi o triunfo no Acrópole, mas em 1968, quando ainda não havia o WRC. Morreu vítima de doença súbita, aos 58 anos.

Kyösti HAMALAINEN – 1000 Lagos (1977)
Especialista em pisos gelados, venceu o seu primeiro campeonato finlandês em 1973, com um Alfa Romeo 2000 GTV. Depois disso e até 1986, conquistou mais 12 títulos caseiros – oito deles consecutivos, a partir de 1979, com um Ford Escort RS 1800/RS 2000. No WRC, a sua participação foi principalmente no seu Mil Lagos (14 num total de 19 provas), que ganhou inesperadamente em 1977, naquele que foi o seu melhor ano no campeonato, em que foi ainda 5º na Suécia e 6º no RAC. Hamalainen terminou a sua carreira depois dos Mil Lagos de 1988, aos 43 anos.

‘Tony’ FASSINA – Sanremo (1979)
Piloto essencialmente do Europeu, ganhou o campeonato de Itália em 1976 e 1979, com um Lancia Startos HF e, em 1981, com um Opel Ascona. No ano seguinte, com este carro, sagrou-se vencedor do Campeonato da Europa, tendo, entre outras, ganho o Rali Vinho da Madeira. Mais conhecido por ‘Tony’, fez por cinco vezes o Sanremo, a prova italiana do WRC, entre 1976 e 1981, conseguindo por quatro vezes acabá-la no ‘top five’: 3º em 1977 e 1981, 4º em 1976. Desistiu somente uma vez, em 1980 e, em 1979, com um Stratos HF, venceu-a mesmo, batendo um tal de Walter Röhrl, que conduzia um FIAT 131 Abarth , por 4m34s. Em carro igual, Attilio Bettega foi 3º, mas já a mais de 18 minutos. A sua única prova do WRC fora de Itália foi o RAC de 1977, em que abandonou, com um FIAT 131 Abarth. Retirou-se em 1984, regressando a partir de 2006, em ralis históricos.

Anders KULLANG – Suécia (1980)
Entre 1973 e 1988, Anders Kullang participou em 45 ralis do WRC, vencendo 57 classificativas e subindo ao pódio por quatro vezes. Piloto da Opel na primeira fase da sua carreira, em 1981 mudou-se para a Mitsubishi Team Ralliart. Em 1980, com o Opel Ascon 400 da Opel Euro Händler, surpreendeu ao bater, na neve sueca, pilotos como Stig Blomqvist (SAAB 99 Turbo), Björm Waldegaard (FIAT 131 Abarth) e Hannu Mikkola (Ford Escort RS 1800), que terminaram a seguir, por esta ordem, separados por 5m57s. Kullang, que mais tarde veio a ser professor, na escola de pilotagem que tinha na Suécia, de Colin McRae e Sébastien Loeb, retirou-se em 1988. Morreu afogado, quando fazia férias na Tailândia, aos 69 anos.

Bernard BÉGUIN –Tour de Corse (1987)
Especialista em asfalto, Bernard Béguin venceu o campeonato de ralis francês em 1979 e entre 1991 e 1992. Quinze das suas 16 provas no WRC foram o Monte Carlo e a Volta à Córsega, onde conquistou os seus primeiros pontos para o campeonato em 1982, quando foi 3º com um Porsche 911 SC. Cinco anos mais tarde, com um BMW M3 da Prodrive, com tração traseira, deixou estupefactos todos os adversários com a sua condução espetacular, vencendo a prova depois de bater ‘no braço’ os Lancia Delta HF 4WD de Yves Loubet (outro especialista da Córsega e o único líder da prova, sem ser Béguin) e Miki Biasion, que ocuparam os dois outros lugares do pódio. Béguin estava inscrito no Rali de Portugal de 1980, com um Porsche 911 SC, mas não compareceu, na que teria sido a sua única prova do WRC longe de França.

Jorge RECALDE – Argentina (1988)
Jorge Recalde foi o único piloto argentino que ganhou uma prova do WRC. Morreu com um ataque cardíaco, em 2001, aos 49 anos, quando empurrava o seu Ford Escort RS Cosworth ex-Jolly Club, que tinha recebido apenas horas antes, rumo ao parque fechado, durante o IX Rally Villa Dolores. Nascido em Mina Clavero, uma pequena cidade rural a 800 km da capital, Buenos Aires – e declarada Cpital Nacional dos Ralis em 4 de maio de 2005, numa sentida homenagem – Recalde deu principalmente nas vistas no Rali da Argentina, em que corria sempre com bons carros. Ganhou-a em 1988, depois de bater Miki Biasion, seu colega de equipa, com os Lancia Delta Integrale. Voltou a ganhar a prova em 1995, mas então não contava para o WRC.
Mesmo assim, conseguiu correr no WRC em 69 provas, tendo sido mesmo piloto da Martini Lancia, Jolly Club e da Top Run, entre 1986 e 1994 e até da Mercedes, que o colocou a correr nas provas africanas, onde foi mesmo 2º no Costa do Marfim de 1980, antes da equipa se retirar dos ralis. A sua estreia no WRC foi em Portugal, em 1980, com um Ford Escort RS, terminando em 8º lugar. Acabou a sua carreira no WRC com a Mitsubishi Ralliart, conduzindo os Lancer RS, Evo II e Evo III de Produção, tendo sido vice-campeão neste agrupamento em 1995.

Andrea AGHINI – Sanremo (1992)
Andrea Aghini era um tipo curioso. Durante a maior parte da sua carreira, nunca passou de uma ‘eterna’ promessa. E, quando enfim chegou a grande oportunidade, em 1992, a Lancia deixou os ralis! Italiano típico, malandreco e brincalhão (quem não se lembra da ‘cena’ feita no Rali de Portugal de 1992 – que liderou, na frente de Juha Kankkunen e Didier Auriol, com os Delta HF Integrale, até desistir, por despiste – à entrada do troço de Arganil, quando chegou ao controlo 30 segundos antes da sua hora e deixou descair o Lancia, começando então uma ‘estória da carochinha’, para distrair os comissários, quando percebeu que estava a dar nas vistas…), Aghini teve também uma carreira marcada pelo azar – perdeu o seu amigo e co-piloto, Loris Roggia huma cdte no Rali de Salento de 2003 e, em 2008, matou uma esperadora que caiu de um valado, mesmo na frente do seu carro, quando tentava salvar um cão, no Rally del Cioco. O triunfo de Aghini no Sanremo foi também o último da Lancia no WRC e sucedeu depois de uma luta cerrada com Juha Kakkunen, noutro Delta, que terminou em 2º, a 40s do italiano.

Gianfranco CUNICO – Sanremo (1993)
Gianfranco Cunico foi mais um especialista em asfalto. Começou a correr aos 20 anos e a sua estreia no WRC foi em Sanremo, em 1981. Em 1993, ano em que a prova deixou de ter pisos em terra, passando novamente a ser totalmente disputada em estradas de asfalto, Cunico aproveitou bem os problemas do favorito François Delecour, conquistando a sua única vitória no campeonato. Estava também ao volante de um Escort RS Cosworth, da Ford Italia e foi 10m28s mais rápido que o carro idêntico de Patrick Snijers. Cunico, que se retirou apenas em 2011, foi piloto da Jolly Club entre 1994 e 1998, tendo com esta equipa ganho o Campeonato nacional de Itália em 1995 e 1996. Em 2000, venceu o Trofeo Rally Terra, com um Subaru Impreza S4 WRC’98.

Raffaele Pinto – Rally de Portugal (1974): A prova que esteve quase para não ser…
Piloto oficial da FIAT, venceu o Campeonato da Europa de Ralis de 1972 com um 124 Sport Spider e a Mitropa Rally Cup (que reunia provas realizadas na Áustria, Alemanha e Itália), ganhando para isso seis ralis que eram então emblemáticos: Costa Brava, Hessen, Semperit, Polónia, Yugoslávia e Mille Minuti. No WRC, não teve tanto sucesso, ganhando somente um rali, e logo em Portugal, no ano de 1974. O ano da crise petrolífera, em que, à semelhança do que havia acontecido com os ralis de Monte Carlo e Suécia, o Rali de Portugal esteve para não se realizar. Valeu uma vez mais a perseverança de César Torres, que convenceu o governo português a autorizar o rali, depois de a FIA canalizar para a nossa prova parte da gasolina que a Venezuela lhe havia cedido. O itinerário contou com uma estrutura mais compacta, à medida da conjuntura económica do momento, mas igualmente desgastante, com apenas duas etapas. Os percursos de concentração já não se realizaram, dando lugar a uma partida única, no Parque Eduardo VII, em Lisboa. A FIAT monopolizou o pódio e Raffaele Pinto liderou com à vontade, perseguido por Alcide Paganelli e um terceiro 124 Spyder conduzido pelo jovem Markku Alen.

Mas o popular ‘Lele’ ficou mais conhecido por outro episódio – e também tendo como palco a prova portuguesa. Foi em 1973, o ano do primeiro WRC (ainda pontuando apenas para as Marcas). Como já vinha sendo hábito, a prova portuguesa era longa, difícil, com troços e ligações com médias ‘impossíveis’ de cumprir o que obrigava a notas de andamento para cerca de 2000 Km de percurso. Acompanhado por Arnaldo Bernacchini, ‘Lele’ percorria as estradas sinuosas das serras, a caminho de Vila Real. A noite estava fria e estrelada e, dentro do FIAT 124 Abarth, o co-piloto gritava as notas de andamento, numa das ligações ‘impossíveis’ atrás referidas: “Média esquerda, abre muito para trás e fecha com esquerda média”. Ao passarem por uma ponte, Bernacchini gritou “volta… VOLTA”. Tinha visto fortes marcas de travagem, antes de um muro destruído. Voltaram para trás de foram ver o qu7e tinha acontecido ali: 20 metros mais abaixo, na ravina, estava o Toyota Celica de Ove Andersson que, ao vislumbrar alguém, na estrada, lá em cima, gritou por socorro. O sueco estava fora do carro, mas não fora capaz de libertar o seu co-piloto, Jean Todt (o atual Presidente da FIA), que ficara com o braço preso entre o assento e a alavanca de mudanças, num carro que poderia arder a qualquer momento. Mas ‘Lele’ Pinto não era apenas rápido ao volante, era também muito forte e conseguiu libertar Todt.

Com o tempo perdido, chegaram a Vila Real a penalizar cinco minutos, caindo da liderança para o nono lugar. Mas não foi isso que aconteceu, porque o ‘Grande Chefe’ César Torres, assim que ouviu esta história de coragem, não perdeu tempo e anulou o controlo: “Anulado? Mas você não pode, isto é um Campeonato do Mundo!” disse Pinto, que depressa ouviu: “Eu é que mando aqui”, respondeu Torres. E assim foi. Ironicamente, ‘Lele’ Pinto ‘ficou’ pouco depois, na Serra do Marão, com uma suspensão do FIAT 124 danificada, mas isso já nada importava.

Joaquim MOUTINHO – Rally de Portugal (1986): A triste mas desejada vitória

O Rallye de Portugal – Vinho do Porto, a terceira prova do WRC, tinha tudo para ser mais um sucesso. Desde logo, uma lista de inscritos recheada com todas as equipas de fábrica da altura (Lancia, com Markku Alen, Henri Toivonen e Miki Biasion, nos Delta S4; Peugeot, com Timo Salonen e Juha Kankkunen, nos 205 T16; Audi, com Walter Rohrl, no Audi Sport Quattro E2; Ford, com Stig Blomqvist e Kalle Grundel, nos RS 200; Austin Rover, com Marc Duez, Malcolm Wilson e Tony Pond, nos Metro 6R4), mas também com Joaquim Moutinho, o campeão em título, no seu Renault 5 Turbo e ainda o aliciante da estreia de Joaquim Santos, no Ford RS 200. Esperava-se, por isso, um dos mais renhidos ralis da história da prova portuguesa.

A primeira etapa era a habitual passagem pelos três troços da serra de Sintra, onde centenas de milhares de pessoas exultavam na espera da primeira passagem dos ‘monstros’ de Grupo B. Mas, quando se previam alegria e entusiasmo, tudo esfriou com a tragédia: na Lagoa Azul, Joaquim Santos perdeu o controlo do RS 200 com as cores da Diabolique e entrou pela multidão, mal colocada na berma da estrada, ali e em quase toda a extensão dos três troços. Resultado: três mortos e cerca de 30 feridos. A prova é parada de imediato e os pilotos das equipas oficiais, mais Moutinho, reuniram-se num hotel do Estoril, decidindo abandonar a prova, em sinal de luto, respeito pelas vítimas e protesto pela insegurança que vinham encontrando nos troços até então. Ficaram as equipas nacionais e alguns privados estrangeiros, e, sem adversários, Joaquim Moutinho dominou a prova, batendo por 13,27s Carlos Bica, ainda em adaptação ao Lancia 037 Rally e o FIAT Uno Turbo de Giovanni del Zoppo, que foi 3º classificado. No final não houve festejos da vitória mais desejada, mas também mais triste da carreira de Joaquim Moutinho.

Alain Oreille – Costa do Marfim (1989): Quando David venceu os Golias todos
Alain Oreille esteve nos ralis entre 1974 e 1996 e foi piloto oficial a Renault durante mais de uma década. Campeão do Mundo de Grupo N em 1989 e 1990, o sue nome ficará para sempre ligado á única vitória à geral de um carro de Grupo N numa prova do WRC. Foi no demolidor Rali da Costa do Marfim, em 1989 e fê-lo ao volante de um minúsculo Renault R5 GT turbo, a viatura mais improvável para resistir em tal tipo de condições de tempo e de terreno.


Mas, afinal, quem não resistiu foram os outros todos – como os Audi 90 Quattro ou Lancia Delta Integrale, todos eles bem mais poderosos e, além disso, com tração às quatro rodas, em vez de apenas às da frente, como acontecia com o bem menos potente R5 GT Turbo cinzento do francês. Nesse ano de 1989, Oreille, associado ao seu amigo Gilles Thimmonier, inscreveu-se no Campeonato de França de Ralis com esse carro, que era preparado nas oficinas da Simon Racing e exibia os autocolantes do seu patrocinador principal, DIAC, então a financeira a que a Renault estava comercialmente ligada.
Com esse mesmo R5 GT Turbo, Oreille alinhou em cinco provas do WRC, inscrito em Grupo N: Monte Carlo, Tour de Corse, Austrália, Sanremo e Costa do Marfim. E, ganhando o Grupo no ‘Monte’, Sanremo e, claro, na Costa do Marfim, conquistou a primeira das suas duas Taças FIA no Grupo N.

Mas a sua vitória em África, que foi amplamente divulgada pela atónita imprensa da especialidade, teve contornos algo burlescos. Numa edição em que não estiveram presentes as equipas de fábrica, mas em que nem por isso a concorrência era menos forte – os Audi 90 Quattro da Audi Sport Team Europe, entregue à italiana Paola de Martini e dos privados ‘Tchine’ e Rudolf Stohl; o Mazda 323 4WD da Mazda Rally Team Belgium, com Grégoire de Mévius ao volante; os Lancia Delta Integrale de Pascal Gaban, Gustavo Trelles e Frederik Skoghag ou os vários Toyota Corolla, Celica ou Supra, entregues a especialistas locais, como o veterano Adolphe Choteau, Samir Assef ou Billy Rautenbach ou, enfim, o Mitsubishi Starion Turbo de Patrick Tauziac e o Nissan 200 SX de Alain Ambrosino, então verdadeiros “local heroes” – o principal inimigo foi o inclemente mau tempo, com fortes enxurradas a inundarem as florestais. Imune a tudo isto, Oreille foi vendo ficarem pelo caminho os seus adversários, de tal forma que apenas sete equipas atingiram o final. O R5 GT Turbo francês bateu o Starion de Tauziac e o Corolla GT de Choteau – que, de ‘orelhas’ murchas, o acompanharam no pódio final. E bem que os mais críticos podem menorizar este triunfo, dizendo que nesse ano a concorrência era diminua… O facto, isso sim, é que o mais forte foi o mais ‘fraco’ de todos!

Ove ANDERSSON – Safari (1975)
Ove Andersson foi um dos maiores pilotos da História dos ralis mundiais. Apesar de ter ganho somente uma prova do WRC, este sueco calmo e bonacheirão tem um palmarés de escassos 28 ralis no WRC, entre 1973 e 1982, tendo ganho apenas 20 roços e conquistado sete pódios e 32 pontos no total. Porém, depois de se retirar profissionalmente, tornou-se um dos mais respeitados diretores de equipa, fundando na Bélgica o Toyota Team Europe, em 1975, que acabou adquirido pela marca japonesa em 1993. O sucesso da Toyota – venceu os títulos de Construtores no WRC em 1993, 1994 e 1999 – deveu-se à muita experiência de Ove Andersson que, já sexagenário, decidiu gozar a reforma a participar em ralis de clássicos.
E foi num desses ralis, na África do Sul, onde então vivia, que Andersson perdeu a vida, aos 70 anos – numa curva cega, bem perto do seu rancho, o Volvo P444 que conduzia embateu de frente num táxi quem nesse momento, ultrapassava um camião. O sueco tornou-se assim no segundo piloto vencedor de uma prova do WRC a perder a vida durante uma competição, depois de Jorge Recalde – e, ironicamente, na África que ele tanto adorava, onde ganhou a sua única prova do campeonato, o Safari, que se realizava no Quénia, em 1975. Ao volante de um Peugeot 504, bateu os Lancia Stratos HF de Sandro Munari e Björn Waldegaard, que terminaram no pódio, com este a ficar a quase duas horas de distância…

PILOTOS COM 1 VITÓRIA NO WRC
Walter BOYCE (Ottawa, Canadá, 29/10/1946) – Press-on-Regardless (1973)
Raffaele PINTO (Casnate con Bernate, Itália, 13/04/1945) – Rally de Portugal (1974)
Ove ANDERSSON (Uppsala, Suécia, 03/01/1938 – Oudtshoorn, África do Sul, 11/06/2008) – Safari (1975)
Per EKLUND (Koppom, Suécia, 21/06/1946) – Suécia (1976)
Harry KALLSTRÖM (Södertälje, Suécia, 30/06/1939 – Strömsund, Suécia, 13/07/2009) – Acrópole (1976)
Roger CLARK (Narborough, Leicestershire, UK, 05/08/1939 – Leicester, 12/01/1998) – RAC (1976)
Fulvio BACCHELLI (Trieste, Itália, 22/01/1951) – Nova Zelândia (1977)
Kyosti HAMALAINEN (Helsinki, Finlândia, 16/09/1945) – 1000 Lagos (1977)
“Tony” FASSINA (Valdobbiadene, Itália, 26/07/1945) – Sanremo (1979)
Anders KULLANG (Karlstad, Suécia, 23/09/1943 – Huay yang, Tailândia, 28/02/2012) – Suécia (1980)
Guy FRÉQUELIN (Langres, França, 02/04/1945) – Argentina (1981)
Joaquim MOUTINHO (Porto, Portugal, 14/12/1951) – Rally de Portugal (1986)
Bernard BÉGUIN (Grenoble, França, 24/09/1947) – Tour de Corse (1987)
Franz WITTMANN (Ramsau, Áustria, 07/04/1950) – Nova Zelândia (1987)
Sepp HAIDER (Dienten, Áustria, 26/08/1953) – Nova Zelândia (1988)
Jorge RECALDE (Mina Clavero, Argentina, 09/08/1951 –  Cordoba, 10/03/2001) – Argentina (1988)
Alain AMBROSINO (Casablanca, Marrocos, 15/06/1951) – Costa do Marfim (1988)
Alain OREILLE (Sarre-Union, Alsace, França, 22/04/1953) – Costa do Marfim (1989)
Pentti AIRIKKALA (Helsinki, Finlândia, 04/09/1945 – Bray, UK, 30/09/2009) – RAC (1989)
Patrick TAUZIAC (Saigon, Vietnam, 18/01/1955) – Costa do Marfim (1990)
Armin SCHWARZ (Neustadt an der Aisch, Alemanha, 16/07/1963) – Catalunya (1991)
Andrea AGHINI (Livorno, Itália, 29/12/1963) – Sanremo (1992)
Gianfranco CUNICO (Vicenza, Itália, 11/10/1957) – Sanremo (1993)
Ian DUNCAN (Limuru, Kenya, 23/06/1961) – Safari (1994)
Piero LIATTI (Biella, Itália, 07/03/1962) – Monte Carlo (1997)
Harri ROVANPERA (Jyväskyla, Finlândia, 08/04/1966) – Suécia (2001)
Jesus PURAS (Santander, Cantabria, Espanha, 16/03/1963) – Tour de Corse (2001)
François DUVAL (Chimay, Bélgica, 18/11/1980) – Austrália (2005)
Mads OSTBERG (Fredrikstad, Noruega, 11/10/1987) – Rally de Portugal (2012)
Dani SORDO (Torrelavega, Espanha, 02/05/1983) – Alemanha (2013)
Hayden PADDON (Geraldine, Nova Zelândia, 20/04/1987) – Rali da Argentina (2016)
Esapekka LAPPI (Pieksämäki, 17/01/1991) – Rali da Finlândia (2017)
Elfyn EVANS (Dolgellau, 28/12/1988) – Rali da Grã-Bretanha (2017)