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Ford Escort Mk II: Eterno símbolo dos ralis

José Luis Abreu by José Luis Abreu
2 Outubro, 2025
in Newsletter, pv2, Ralis, WRC
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Ford Escort Mk II: Eterno símbolo dos ralis

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O Ford Escort RS 1800 Mk II é o grande culpado da marca da oval azul ter ganho uma reputação tão forte nos ralis ao ponto de chegar a ícone da modalidade, facto que pilotos como Ari Vatanen, Hannu Mikkola ou Joaquim Santos trataram de exponenciar .

Um adepto dos ralis dos anos 70 pode não recordar com muita saudade a roupa colorida e psicadélica com calças à boca-de-sino que usava, a música disco que ouvia, ou quem sabe o movimento hippie que seguia, mas há um inesquecível detalhe que deverá ser comum à quase totalidade de quem naqueles tempos gostava das provas de estrada: O Ford Escort Mk II, um carro que conquistou admiradores em todo o mundo e se tornou num imenso fenómeno de popularidade nos ralis.

Agora que partilha com Juha Kankkunen os deveres de chefe de equipa da Toyota, para lá do Toyota Celica, pode bem ser com um Ford Escort Mk II que Jari-Matti Latvala se vai divertir nos tempos livres que passa em Tuuri, a sua casa na Finlândia, um carro que quando o finlandês nasceu, a 3 de abril de 1985, estava prestes a ser posto de lado ao mais alto nível no Mundial de Ralis, depois de uma década de grandes sucessos.
Para Latvala, “o Escort foi o maior carro de ralis dos anos 70, muito antes de eu nascer, e é sempre uma grande emoção para mim quando posso seguir as pegadas de alguns dos meus heróis nos ralis, pilotos como Hannu Mikkola, Ari Vatanen e Björn Waldegard, que levaram aos píncaros os Escort Mk II”.
Latvala é só um exemplo do forte sentimento que o Escort criou nas pessoas. A Roger Clark, o primeiro piloto inglês a vencer uma prova do Campeonato do Mundo de Ralis (o RAC de 1976, claro, com um Ford Escort Mk II), foi um dia pedido que escrevesse um prefácio onde se lê: “Não diria que era um carro indestrutível, mas foi sempre bom ter esta máquina a meu lado todo o tempo.
O magnífico RS 1800, que me deu a segunda vitória no RAC e a primeira no WRC, foi o melhor carro que alguma vez guiei, e olhem que guiei alguns. Uma vez perguntaramme se existiria um carro que preferisse ter guiado ao invés do Escort. Respondi que se alguma vez tivesse encontrado um carro que fizesse por mim o que o Escort Mk II sempre fez, teria mudado. Mas nunca encontrei…”

Carro eterno
A primeira prova do novo Ford Escort foi a 3 de Fevereiro de 1968, no Ralicross de Croft, o primeiro rali, o Circuito da Irlanda de 1968 e a primeira prova internacional, o Sanremo desse mesmo ano. A versão anterior ao Mk II, denominada Twin Cam, pecava pelos escassos 160 cv do motor de 1598 cm3, pouco ameaçadores face ao na altura dominador Porsche 911. Em Outubro de 1970, estreava no Rali de Portugal o RS 1600, com um motor maior (1798 cm3) e uma potência acima dos 200 cv. Ficou conhecido por Mk I e permitiu a pilotos como Timo Makinen e Hannu Mikkola a obtenção das suas primeiras vitórias no Mundial. Em 1975, a Ford lançou a segunda geração do Escort, que no final do ano, substituía oficialmente o Mk I nos ralis.
O RS 1800, conhecido por Mk II, tinha um motor de 2 litros com 250 cv. As cavas das rodas, mais largas, permitiam albergar um maior curso da suspensão, tornando-o teoricamente mais competitivo em todos os pisos. Contudo, na fase inicial o Mk II adotou muitas das soluções do seu irmão mais velho, o RS 1600, e por isso havia ainda muito trabalho a fazer. Os pilotos diziam que o novo formato permitia uma melhor visibilidade e o carro era mais fácil de pilotar. No sentido de dotar o RS 1800 de maior competitividade em pisos de asfalto, a Ford solicitou os serviços de Tom Walkinshaw, para dar sugestões e utilizar os seus reconhecidos talentos. Foram feitas alterações no eixo traseiro, novas molas, e os resultados depressa surgiram com a vitória de Roger Clark no Manx International, face a uma oposição bastante bem equipada, especialmente os Porsche. Pouco depois, Makinen liderou o Tour de France, suplantando novamente os Porsche e Lancia Stratos, embora o motor tenha falhado, levando o finlandês ao abandono. Nesta altura, um misterioso problema de motor
deu fortes dores de cabeça aos engenheiros de Boreham, até que finalmente foi descoberta uma falha num cilindro.

Quando tudo ficou resolvido e a fiabilidade restaurada, o Ford Escort RS 1800 começou a fazer justiça ao que dele se esperava. No final da época, Roger Clark venceu o RAC e no Campeonato Britânico de Ralis, muito importante na altura para a marca, a bandeira da Ford era hasteada por pilotos como Ari Vatanen, que foi campeão, Billy Coleman e Russell Brookes, que muito contribuíram para a evolução do Escort RS 1800. Em 1977, o departamento de competição da Ford realizou uma tentativa mais séria para vencer o WRC, mas àparte algumas vitórias no WRC, Björn Waldegard (Safari, Acropóle e RAC 1977 e Suécia ‘78), Kyosti Hamalainen (1000 Lagos ‘77), Hannu Mikkola (RAC ‘78), só em 1979 o Mk II deu à marca da oval o primeiro mundial de marcas, feito só repetido em 2006 e 2007 com o Ford Focus WRC, numa época em que Waldegard (que também foi campeão de pilotos) e Mikkola travaram épicos duelos, ainda hoje relembrados, com os Fiat 131 Abarth de Markku Alen e noutras marcas, e o Ford Escort RS 1800 foi perdendo o fulgor dos anos anteriores.

No ano seguinte somente os privados usavam o carro no Mundial e assim se manteve até à perda de homologação em 1985. Curiosamente, nesse O único título de marcas conquistado pelo Escort, em 1979, não espelha o sucesso de um modelo que fez história nos ralis O Ford Escort Mk II é um dos carros não
pertencentes aos Grupos B que maior preferência congrega entre os adeptos da modalidade ano, o melhor português no Rali de Portugal foi José Miguel Leite Faria, sexto da geral, aos comandos do mítico Escort da Rodam, terminando a prova na frente de Carlos Bica, em carro idêntico. Também como na competição principal de ralis do mundo, em Portugal o RS 1800 tem muito para contar.
No início dos anos 80, a era dos Grupos B viu Audi e Peugeot dominarem a cena dos ralis e o nome Escort só voltaria com a nova versão RS Cosworth, em 1993. Mas para um carro com o Ford Escort RS 1800, a vida continuou e por muitos e bons anos, mais precisamente até hoje, já que andam a correr
um pouco por todo o mundo, muito provavelmente, tantos exemplares como existiam no final da década de 1970. Jari-Matti Latvala é só um deles, e não existe qualquer tipo de dúvida que o veremos novamente a acelerar o Escort nos ralis históricos em que agora guia um Toyota Celica.
Já na fase descendente, David Sutton adquiriu muitos dos carros e peças que estavam em Boreham. Convenceu Hannu Mikkola e Ari Vatanen, seduziu a Rothmans como patrocinadora, e quando em 1981 Mikkola optou por se mudar para a Audi, Vatanen ganhou o Campeonato do Mundo de Pilotos com o Ford Escort RS 1800. Que melhor homenagem poderia ter o RS 1800 no seu fim de vida?
Com o surgimento do motor turbo e da tração integral, os convencionais Grupo 4 ficaram condenados. A Ford ainda desenvolveu o Escort RS 1700T, do qual Ari Vatanen testou, em 1982, duas versões da nova arma em Portugal, uma com motor turbo de 1780 cm3 e outra com o propulsor Hart de F2 com 2,4 litros, não evitando uma saída de estrada na Serra da Boa Viagem. A estreia foi sucessivamente adiada e quando ficou pronto a correr, estava já ultrapassado face aos Audi Quattro e Lancia Rally. A Ford abandonou o projeto, apontando mais tarde baterias para o RS 200.

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A exemplo de muitos outros países, o currículo do Ford Escort RS em Portugal foi pouco menos que fabuloso. Entre 1976 e 1985, o mítico carro alcançou nada mais nada menos que 43 vitórias, distribuídas por pilotos como Joaquim Santos (19), Mário Silva (13), Giovanni Salvi (3), ‘Larama’ e Carlos Torres (2), Ari Vatanen, Hannu Mikkola, Andrea Zanini e Aly Kridel, uma cada. Muitos outros pilotos guiaram em Portugal o mítico Escort, não todos o Mk II, mas nenhum deles se destacou tanto quanto Joaquim Santos. Não há ninguém que não sinta alguma saudade de ver Joaquim Santos aos comandos do ‘diabólico’ Ford Escort RS 1800. Entre as muitas matrículas dos carros que na década de 80 ajudaram a mistificar o Campeonato Nacional de Ralis, há uma que sobressai. IZ-98-28 é tão só a matrícula do Ford Escort RS 1800 que permitiu a Joaquim Santos e Miguel Oliveira conquistarem o primeiro dos seus três títulos nos anos dourados da equipa Diabolique Motorsport, numa história que começa quando a equipa oficial da Ford, então patrocinada pela Rothmans, registou o carro, a 30 de abril de 1977. Desde aí, e sem certezas absolutas, cientificamente comprovadas, o Escort RS 1800 com o chassis número 59 de Terry Howle e assistido por David Sutton passou pelas mãos de Hannu Mikkola, Bjorn Waldegaard e Ari Vatanen, os três grandes mosqueteiros da Ford, antes de chegar já ‘ensinado’
às mãos sábias de Joaquim Santos, ainda hoje o detentor do recordes de vitórias em ralis nacionais.
Quando em 1981, ‘Quimsan’ integrou a Diabolique Motorsport e se juntou ao Dr. Miguel Oliveira, juntos formaram uma das mais famosas duplas de sempre. Mário Silva também muito contribuiu para imortalizar o Ford Escort em Portugal, com triunfos que remontam a 1979, e Carlos Torres foi outro dos míticos pilotos que levaram aos píncaros o Ford Escort RS 1800, ao ser quatro vezes (1978, 1979, 1980 e 1982) o Melhor Português no Rali de Portugal. Como nos quatro cantos do mundo, Portugal não foi exceção como montra para o Escort, carro que ainda hoje diverte muito os espectadores.

José Luis Abreu

José Luis Abreu

Entre curvas e muito pó, descobri que o olhar treinado pela fotografia e a paixão pelos ralis só podiam levar a um destino: o jornalismo desportivo. E já lá vão mais de 30 anos…

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