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A Odisseia do Rali de Portugal: seis décadas de emoções e transformações

José Luis Abreu by José Luis Abreu
1 Maio, 2026
in AutoSport Histórico, Newsletter, pv2, Ralis, WRC
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Ao longo dos seus mais de 50 anos de história, o Rali de Portugal tem sido um camaleão, adaptando a sua estrutura às exigências dos tempos e das regras. As suas fases mais emblemáticas remontam aos gloriosos dias em que a caravana partia de Lisboa – mais precisamente do Estoril – e, após dias de intensa batalha, regressava ao mesmo ponto para a consagração dos heróis.

Com o endurecer das regras da FIA, a prova migrou para o norte do país, adotando o formato de “boucles”. Após uma década vibrante no Algarve, o coração do rali fixou-se no Porto (Matosinhos), de onde irradia para troços lendários como Arganil, Fafe e Amarante, com memórias ainda frescas das passagens por Viana do Castelo e Ponte de Lima.

Os anos dourados da TAP e as ligações determinantes
No que concerne à sua estrutura, a prova portuguesa, como seria de esperar, acompanhou as evoluções impostas pelas entidades reguladoras. Quando o 1.º Rali Internacional TAP nasceu, em 1967, a inspiração mais lógica era “emular” o Rali de Monte Carlo, então o evento mais célebre do calendário. Assim, a edição inaugural arrancou com um percurso de concentração verdadeiramente global, com partidas de dez cidades onde a Transportadora Aérea Portuguesa (TAP) operava: Londres, Copenhaga, Munique, Amesterdão, Frankfurt, Bruxelas, Paris, Madrid, Porto e Lisboa.

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As equipas inscritas convergiram em direção à pitoresca cidade espanhola de San Sebastian, onde se iniciava o percurso comum de seis etapas que as conduziria às arcadas do icónico Casino do Estoril. A TAP, enquanto patrocinadora principal, visava, naturalmente, potenciar as rotas em que operava através da visibilidade da prova. Além dos percursos de concentração, outra característica marcava esses dias: o desempenho nas ligações era o fator primordial para determinar as classificações. Em 1968, apenas oito especiais de classificação, num total de 94 km, pontuavam. Embora Sintra, Montejunto, Caramulo, Lousã e Arganil já figurassem no mapa, os troços cronometrados ainda não detinham grande preponderância. Os ralis eram decididos nos setores de ligação, em estradas abertas ao público, com controlos horários estrategicamente distribuídos ao longo do percurso, exigindo dos pilotos um ritmo rápido e constante para evitar penalizações por atraso. A noite assumia uma preponderância especial no horário da prova, pois a menor densidade de tráfego permitia médias de velocidade mais elevadas.

A Revolução dos cravos e a ascensão das especiais
A ênfase nas ligações persistiu até meados dos anos 70, um período de profunda transformação em Portugal, marcado pela “Revolução dos Cravos” em 1974. Gradualmente, o rali adaptou-se: mudou para uma data na primavera e o Instituto do Vinho do Porto assumiu o patrocínio principal, sucedendo à TAP. Por esta altura, o formato do rali já se tornava mais “familiar”, com eventos divididos em quatro a cinco dias, uma estrutura que evoluiria continuamente ao longo do tempo.

Em 1973, ano inaugural do Mundial de Ralis, a visão de César Torres já delineava pilares estruturais que perdurariam por décadas, embora com variações sobre o tema. As regiões de Viseu, Arganil, Ponte de Lima e Arganil constituíam o esqueleto do rali, recebendo afinações pontuais.

A Lenda da “Noite de Sintra” e as mudanças drásticas
Em 1976, Sintra passou de abertura a encerramento da prova, dando origem à lendária “Noite de Sintra”, um espetáculo que gravou o seu nome na história. O seu sucesso foi tal que chegou a abrir e a fechar o rali, até que em 1982 a mítica noite se desvaneceu. O rali havia mudado, e a sua “espinha dorsal” era agora composta por Sintra, Ponte de Lima, Fafe, Marão e Arganil.

O trágico acidente de 1986 na Lagoa Azul ditou uma profunda remodelação no ano seguinte, e em 1987 a prova “fugiu” de Sintra, mas permaneceu nas imediações. Tão perto que a especial de arranque da prova se realizou no Autódromo do Estoril. Em 1990, o Automóvel Clube de Portugal (ACP) descobriu o Jamor como palco para o arranque, mantendo-se aí até 1992. No ano seguinte, 1993, a super especial foi abolida, com o rali a arrancar de imediato com um troço “a sério”, o Gradil.

Em 1995, uma nova e significativa mudança marcou o fim da célebre etapa de asfalto, transformando o Rali de Portugal num evento integralmente disputado em piso de terra. Terminava, assim, o rali misto que o havia caracterizado até então. César Torres faleceu em 1997 e, no ano seguinte, a sua equipa, então liderada por Eduardo Portugal Ribeiro, ainda esteve ao leme, mas em 1999 uma nova equipa do ACP assumiu as rédeas.

O “Deserto” e o renascimento no Algarve
Na sequência do desaparecimento de César Torres, António Mocho assumiu a liderança do evento, que sofreu algumas alterações de formato, ainda que não radicais. A super especial de Baltar foi introduzida, e o cenário permaneceu relativamente estável até 2001, o “ano da tormenta”, que culminou na saída da prova portuguesa do Campeonato do Mundo de Ralis (WRC).

A história é amplamente conhecida: o Rali de Portugal atravessou um “deserto” de três anos em Trás-os-Montes, pontuando apenas para o Campeonato Nacional de Ralis. No entanto, com a mudança na presidência do ACP e a entrada de Carlos Barbosa em 2004, uma das suas promessas eleitorais centrava-se na recolocação do Rali de Portugal no WRC, e o sucesso não tardou a concretizar-se.

Após duas candidaturas bem-sucedidas em 2005 e 2006, o WRC regressou a Portugal no ano seguinte, mas desta vez ao Algarve, uma região inédita para a prova. Rapidamente, o rali demonstrou ser um enorme sucesso, beneficiando de fantásticas estruturas de apoio, como o Estádio Algarve e a área adjacente para o Parque de Assistência. Além disso, os troços da Serra do Caldeirão revelaram-se excelentes — um aspeto sempre muito elogiado pelos pilotos — e tudo decorreu de forma perfeita durante sete edições.

O Regresso triunfante ao Norte: Onde o público é Rei
Contudo, a afluência de público, que sempre caracterizou o rali em Portugal, era menor no Algarve comparativamente ao resto do país. Por essa razão, a FIA desafiou o ACP a regressar ao Norte, especialmente após o sucesso estrondoso do Fafe Rali Sprint. Foi uma “mensagem” impossível de ignorar.

Hoje, uma década depois, na caravana do WRC, poucos se recordam do rali no Algarve, pois nada falta ao Rali de Portugal, muito menos o fervoroso público. O Rali de Portugal sempre foi, e continua a ser, apesar de todas as suas atribulações, um evento fantástico que combina o puro divertimento do desporto motorizado com a excelência da pilotagem em troços tão díspares como Sintra, Fafe, Marão, Cabreira, Arganil ou Ponte de Lima, tudo isto em cenários fantásticos de um país tão pequeno quanto diversificado.

José Luis Abreu

José Luis Abreu

Entre curvas e muito pó, descobri que o olhar treinado pela fotografia e a paixão pelos ralis só podiam levar a um destino: o jornalismo desportivo. E já lá vão mais de 30 anos…

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