Histórias ‘proibidas’ dos bastidores da Fórmula 1


Por mais profissional que seja o meio da Fórmula 1, muitos pilotos e alguns patrões de equipas são verdadeiros especialistas noutra área: a de assustar e embaraçar os amigos, no que é um verdadeiro concurso de “reality comedy” ao longo dos anos. Como estas coisas podem ferir susceptibilidades, optámos nesta breve resenha de “malfeitorias”, por deixar de fora os pilotos actuais, cujos ‘feitos’ serão contados quando se retiraram. Por isso aqui ficam histórias dos anos oitenta e noventa.



Atenção aos detalhes até impressiona: Uma organização perfeita
Esta é daquelas histórias que por mais anos que passem só podem ser contadas sem mencionar nomes… para não levar a divórcios. Por isso a narração fica a cargo do piloto europeu protagonista secundário deste verdadeiro crime perfeito: «No final da temporada fui passar férias a casa do meu companheiro de equipa, na América do Sul e num dos primeiros almoços ele e o irmão começaram a falar duma reunião na concessionária da Kodak, para tentar que esta marca patrocinasse a nossa equipa no ano seguinte.
Disseram-me que eu também tinha de ir, apesar de não falar a língua e lá fomos os três, deixando as mulheres deles em casa. Chegámos ao centro da cidade, parámos diante duma farmácia e mandaram-me ir buscar uma encomenda que estava lá em meu nome. Não percebia nada, mas lá fui, e a empregada deu-me uma enorme caixa, com um grande sorriso e fez-me perceber que estava tudo pago.
Sentei-me no banco de trás do carro e vi que a caixa estava cheia, mas mesmo cheia, de preservativos… e ainda percebi menos. Saímos da cidade e ao fim dum bom bocado chegámos a uma fazenda, onde nos esperavam mais homens, familiares e amigos do meu companheiro de equipa, incluindo o seu cunhado, marido da mulher. E eu com centenas de preservativos nas mãos… e sem perceber nada!»
E o nosso interlocutor continua: «Estava ainda confuso quando, pouco depois, chegaram duas carrinhas cheias de mulheres lindas… e foi então que se fez luz e, verdade seja dita, fiquei aliviado! Não havia regras, excepto a de que era proibido fechar portas, pelo que nas horas que se seguiram aconteceu de tudo e toda a gente viu tudo o que quis.
Quando a festa acabou, voltámos para casa e quando estávamos quase a chegar, o irmão do meu companheiro de equipa abriu um saco que tinha consigo e deu-me uma caixa da Kodak, com uma máquina descartável, rolos, e mais material promocional, tirando outra para o meu companheiro de equipa e outra para si. Perante o meu olhar de espanto, disse-me: “Se estivemos seis horas em reunião na Kodak, é claro que eles nos deram alguns presentes, não achas?” Na manhã seguinte mostraram os presentes às suas mulheres, mas o pior foi que no fim-de-semana fizeram um churrasco lá em casa e tive de ser “apresentado” ao cunhado, a primos e tios e outros familiares como se não os conhecesse, tentando não me lembrar das posições em que os tinha visto…» Um exemplo de organização perfeita em que a atenção aos detalhes garantiu um sucesso absoluto!


Capelli capricha nos detalhes: O susto do “dottore”!
Ivan Capelli e o Dr. Ricardo Ceccarelli, responsável pela preparação física dos pilotos da Toyota, têm uma amizade de mais de 20 anos, mas o actual comentador da RAI TV também faz do bem disposto “dottore” a sua vítima de predilecção. Ceccarelli tem uma enorme paixão por relógios e há uns anos conseguiu desencantar uma preciosidade soviética, que exibiu com grande orgulho aos seus amigos mais próximos, entre os quais, claro, se conta Ivan, o terrível.

O “dottore” tanto elogiou o relógio soviético, de que dizia ter todas as qualidades possíveis e imaginárias, que Capelli decidiu pôr mãos à obra e começou a procurar uma imitação em todas as feiras por que passava. Com tanta sorte que ao passar numa vila italiana encontrou uma réplica muito bem feita, que comprou de imediato. Sem perder tempo, convenceu dois amigos a distraírem o bom do doutor na corrida seguinte, enquanto todos almoçavam, para levar avante o seu plano.

O sucesso, como nos contou Capelli, foi total: «A meio do almoço falei do relógio e o Riccardo começou logo a dizer maravilhas dele. Pedi-lhe para mo mostrar, pois estava mesmo curioso e apesar dele desconfiar que eu tinha alguma coisa engatilhada, acabou por mo colocar na mão, mas só depois de eu ter jurado por toda a minha família que não iria danificar a sua preciosidade. Foi nessa altura que os meus amigos o distraíram por cinco segundos, tempo suficiente para eu trocar o relógio do “dottore” pela minha imitação, colocando-a na mesa. Depois, disse ao Riccardo que não acreditava que o relógio soviético fosse mesmo anti-choque e para provar que tinha razão, tirei um martelinho que tinha no bolso e dei uma grande pancada no relógio. É claro que, sendo uma imitação barata, o relógio desfez-se todo e o Riccardo ia tendo um enfarte!


Começou a gritar que eu era um assassino, e depois atirou-se para o chão para tentar recolher todas as molas e engrenagens que estavam espalhadas como se fosse possível reconstruir o relógio. Claro que nos rimos todos ainda mais da sua reacção o que o deixou ainda mais nervoso. Mas ainda o fiz suar mais uns minutos, antes de lhe contar a verdade e lhe devolver o relógio soviético,. Relógio que ele agora guarda em casa e nunca mais trouxe para as corridas…»


Ron Dennis no papel de Capitão Gancho: No meio dos crocodilos!
Gerhard Berger sempre teve um sentido de humor perverso, mas uma das suas coroas de glória foi a de ter sido capaz de fazer com que Ayrton Senna se descontraísse um pouco, enquanto foram companheiros de equipa, começando a entrar no jogo do austríaco. E com Ron Dennis como patrão dos dois, não foi difícil encontrar a vítima perfeita. A história que se segue foi-nos contada por Josep Leberer, ao tempo fisioterapeuta da McLaren, que acompanhou aquele trio numa viagem promocional a Miami, entre duas corridas disputadas no continente americano.

«Num dos dias tínhamos a tarde livre e o Ron mostrou interesse em visitar uma espécie de viveiro de crocodilos, em Everglades, perto de Miami. Aí, criam crocodilos, para preencher os pântanos, pois a espécie estava um pouco em perigo. Nem eu nem os pilotos tínhamos mais nada para fazer, pelo que fomos todos ao viveiro e quando chegamos lá o chefe daquela instituição serviu-nos de guia. Cada lago estava coberto por uma rede metálica, para evitar que os crocodilos saíssem de lá e vimos como eles eram alimentados, como se exercitavam, enfim como viviam, ao mesmo tempo que nos era explicado como eram, depois, libertados nos pântanos de Everglades.»

Mas, como conta Leberer o melhor estava para vir: «Estávamos quase a chegar ao fim da visita quando passámos ao lado dum lago em que a rede metálica estava aberta e sem aviso prévio o Gerhard empurrou o Ron lá para dentro e com a ajuda do Ayrton tentou fechar a rede metálica. Ora o lago era escuro como um pântano e o Ron não podia ver nada no meio da água, começando a gritar com os seus pilotos para o deixarem sair. Claro que o Gerhard e o Ayrton exigiam que ele duplicasse os seus salários para o deixarem sair e ele acabou por concordar com tudo o que lhe pediam, enquanto eu pensava que ele estava mesmo para ter um ataque cardíaco, pois esperava a todo o momento que um crocodilo o atacasse. E eles lá o deixaram sair, antes do Gerhard explicar o que tinha feito. Mal percebeu como funcionava o parque, ele perguntou se não havia nenhum lago sem crocodilos e foi o chefe do viveiro que lhe indicou o último lago como estando disponível. E foi por isso que ele atirou o Ron lá para dentro, pois sabia que não havia nenhum crocodilo ali… só que o Ron não sabia disso. Para mim, contudo, o mais engraçado foi o regresso ao hotel, pois imagina o que é entrares num hotel de cinco estrelas com um fulano completamente encharcado, com lama e algas agarradas às calças e aos sapatos e a tresandar dum modo incrível. O que não deve ter custado ao Ron fazer aquela figura…»

Laffite não mudou: «Lento, eu?»
Nem agora que é comentador televisivo, e já passou dos 65 anos, Jacques Laffite tem emenda. Há poucos anos, em Hockenheim, teve de valer-se de todo o seu charme para escapar a uma enorme multa: «Na entrada da vila têm daqueles sinais em que te mostram a velocidade a que passas, para te avisar se vais a mais de 50 km/hora, que é o limite. Ora eu levava o carro cheio e um dos meus amigos disse-me que o sinal marcava 57 km/hora e que eu era mesmo lento. Claro que fiz logo um pião, voltei uns 300 metros atrás e fiz o percurso original a fundo no meu carro de aluguer. Então o sinal mostrou 145 km/h ou qualquer coisa assim e toda a gente estava bem calada dentro do carro, enquanto eu me gabava de continuar a ser rápido. O pior foi convencer o policia que me esperava mais à frente que tudo não passava duma brincadeira entre amigos. Mas com muita conversa e alguma persuasão ele lá me perdoou», contou Laffite no seu modo sempre irreverente.



Os irlandeses e Silverstone: Entrar sem pagar!
Irlanda e Fórmula 1 podem parecer ter pouco em comum, mas persiste no “paddock” uma comunidade irlandesa que é pequena mas tem muito para contar.
Para David Kennedy, antigo piloto e actual comentador da Setanta Sports, nada como enganar os ingleses para ter um dia em cheio: «Em meados dos
anos 80 eu corria em Inglaterra, como o Michael Roe, o Bernard Devaney e outros, enquanto o Eddie Jordan e os seus amigos tinham uma equipa de F. 3. Claro que queríamos todos ir a Silverstone ao Grande Prémio, mas estava fora de questão pagar para entrar, pois isso era dar dinheiro aos ingleses. Forjar um passe para o carro, uma Ford Transit, e conseguir que alguém emprestasse outro ao Eddie, só para ele entrar no circuito, não era difícil, mas o que os guardas não sabiam é que na traseira da Tansit, debaixo uma carpete enorme, estavam deitados sete ou oito irlandeses, todos a entrar sem pagar. Depois espalhávamo-nos pelo paddock e o Bernie nunca percebia o milagre da multiplicação dos irlandeses… mas quando começaram com os passes electrónicos acabou-se a brincadeira e agora temos mesmo de trabalhar cá dentro para termos passes. Mas ao menos não pagamos nada para entrar em Silverstone!»


De como Laffite frustrou Frank Williams: O mestre da improvisação
O Jeiro descontraído de Jacques Laffite fez dele um dos personagens mais queridos do “paddock”, mas à medida que a Fórmula 1 se foi profissionalizando, o francês demorou a adaptar-se. Na sua segunda passagem pela Williams, em 1983 e 1984, Laffite começou a exasperar Frank Williams, porque chegava sempre atrasado às reuniões da equipa e o inglês, um dia, avisou que, «a próxima reunião começa à hora marcada e quem chegar atrasado apanha uma multa enorme!»
É claro que à hora marcada chegou e toda a gente estava na “motorhome” da Williams. Toda a gente menos Laffite, naturalmente… o que deixou Frank Williams em brasa. O resto é Patrick Head que conta: «Para piorar o estado de espírito do Frank, vimos pela janela o Jacques a dirigir-se lentamente para a “motorhome”, parando para cumprimentar toda a gente, sorrindo e mandando “bocas” para todo o lado. O Frank avisou logo que lhe ia dar uma enorme lição e quando o Jacques finalmente entrou ficámos todos calados à espera que o Frank começasse…»


Mas Frank Williams nem teve tempo de falar: «Com aquele seu jeitão bem disposto, o Jacques disse no seu inglês com grande sotaque francês: “Rapazes, passei os últimos 15 dias a ver filmes ingleses para melhorar o meu inglês e acho que consegui!” Então colocou-se à frente do Frank e disse-lhe: “What’s new pussycat?” dando-lhe um grande beijo na testa! É claro que caímos todos para o lado a rir e até o Frank se desmanchou a rir, pois tinha sido mesmo cómico. E nunca mais se falou em multas nem lições…»
Mais tarde, Laffite confessou que, «sabia que estava atrasado e que o Frank deveria estar zangado. Por isso, enquanto estava a chegar à “motorhome” lembrei-me de fazer uma das minhas cenas e, felizmente, deu certo!»