Conversar com Carlos Tavares, CEO da Stellantis, é sempre um enorme prazer, especialmente pelo facto de nunca se esquivar de colocar o dedo na ferida de forma extremamente eficiente, e isso aplica-se a todos os temas que lhe colocamos à frente.
Como sucede há algum tempo, Carlos Tavares vem a Vila Real, e foi lá que com ele falámos sobre vários temas, começando logo pelo potencial de futuro do Circuito de Vila Real, dos ralis, claro, da Lancia, da Peugeot no Mundial de Endurance, do futuro do WEC se não forem tomadas medidas, e ainda da indústria automóvel, o futuro do automóvel na Europa se continuar com o mesmo rumo que tem agora também da aplicação das taxas aos carros chineses.
Para já, os ralis, nos próximos dias, tudo o resto…
É um tema que tem estado na ordem do dia para os adeptos do WRC, que tão conturbado anda, por isso a questão foi de ‘chofre’: “Olhando para os ralis o que o WRC precisava de fazer para a Stellantis apostar a sério na categoria Rainha do Mundial de Ralis?
Tem a palavra Carlos Tavares, CEO da Stellantis: “Há vários aspetos que são difíceis, o primeiro é que obviamente a nova regulamentação, com os híbridos e tudo isso, só teve uma consequência, que foi aumentar os custos.”
“Não sei se a imagem dos ralis ficou a ser mais verde por causa dos híbridos, a única certeza que temos é que ficou muito mais caro.”
“Muito mais caro e ninguém sabe que aquilo são híbridos, nós sabemos, mas mais ninguém sabe, portanto, o valor verde daquilo foi marginal porque as emissões de CO2 não são dos carros, mas de toda a logística que anda à volta.”
“Tal como na Fórmula 1 ou em qualquer outro desporto automóvel, não são os carros que fazem o CO2, fazem muito pouco, o que faz é toda a logística que anda à volta.”
“E, portanto, eu acho que a regulamentação levou aquilo para um beco sem saída. Portanto, agora aquilo vai afundar, como todos os desportos automóveis em que há uma inflação, depois rebenta, afunda, depois começa outra, afunda, é sempre assim. E os ciclos são de três a cinco anos.”
“Portanto, vão ter que pensar outra vez, reduzir custos como foi feito com o WEC, que inicialmente também rebentou, estava em 200, 300 milhões, voltou para 50, já está outra vez em 100, 150 milhões, e enquanto não se colocar um teto orçamental no WEC, aquilo vai rebentar outra vez.
Apesar de ter um plantel fantástico neste momento…”
“E aí é que está o problema, aquilo trouxe pouca credibilidade, verde (ndr, híbridos no WRC), e muito custo, portanto vamos ter que repensar qualquer coisa. E enquanto aquilo não for repensado, a Stellantis não vai para ali (WRC), nem pensar nisso.”
“Como sabem, a Lancia vai regressar agora em Rally4 e beneficiar de todo o trabalho que foi feito pela Peugeot e pela Opel, porque os chassis são mais ou menos os mesmos, e nós temos mais de 70% de quota de marcado em todo o desporto de ralis amador, com a Opel e a Peugeot, temos mais de 70% das partidas nos ralis e agora, vamos reforçar com a Lancia, e vamos começar por aí, os carros são muito competitivos, também no WRC2 o Citroën também está muito competitivo”.
“Vamos andar por aí a ver como as coisas vão, mas a gente não tem vocação, aliás é uma questão ética, não se pode gastar balúrdios, centenas de milhões de euros em desporto automóvel, quando se está a pedir aos nossos operários das fábricas de andarem à ‘caça’ do cêntimo de euro.
Eles andam à caça do cêntimo, e não se pode, eticamente, gastar centenas de milhões de euros em desporto automóvel porque eles não percebem a problemática do marketing e do retorno do marketing.
Que é real, mas tem os seus limites…
E, portanto, se a gente não se acautelar com o controlo dos custos do desporto automóvel, aquilo rebenta, é o que acontece sempre. Vai até lá acima, inflação sem controlo, rebenta, volta para cima, rebenta. E isso é que é difícil gerir…”









