A 15ª edição do RallyLegend foi, uma vez mais, a celebração do reencontro com o passado. No entanto este ano, tendo como pano de fundo a homenagem a um dos pilotos mais virtuosos e carismáticos da história dos ralis, os organizadores superaram as expetativas. Transformando sonhos em realidade, conseguiram reunir um verdadeiro álbum de ouro de Campeões do Mundo, que não quiseram deixar de recordar e manifestar o seu apreço pelo precocemente desaparecido Colin McRae. A festa, cumprindo a tradição, proporcionou emoções fortes… tal como Colin McRae sempre nos habituou!
Texto: Jorge Cardoso, Fotos: Jorge Cardoso e João Costa
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“As retas são para os carros velozes, as curvas para os pilotos rápidos”. O piloto que proferiu esta afirmação já não se encontra entre nós, mas as memórias de quem o viu esgotar todo o potencial de carros como o Subaru Impreza ou Ford Focus, atestam a veracidade destas palavras, levadas ao limite da mestria.
Vito Piarulli e Paolo Valli, os pais do RallyLegend, desde 2003 que nos habituaram a um outonal final de outubro próprio para acordar paixões antigas, daquelas difíceis de esquecer. Os ‘peregrinos’, sedentos do reencontro anual com o despertar das ‘belas adormecidas’, rumam ao sul da Europa e exclamam, massivamente – Presente! Este ano foram cerca de 100 mil(!) a ‘invadirem’ uma pacata Républica, onde a população local em pouco ultrapassa as 30 mil pessoas. Não que esta multidão que acorre aos Apeninos, para se deliciar com o RallyLegend, seja uma novidade, mas nunca foi tão expressiva. Motivos? Os mentores do Legend ousaram sonhar ainda mais alto, uniram esforços com Luis Moya, uma espécie de embaixador dos ralis por esse mundo fora, incluindo junto da actual caravana do WRC, e conseguiram reunir 15 Campeões do Mundo de Ralis em San Marino. Segundo o ex-navegador de Carlos Sainz, a tarefa não foi fácil, mas também não foi hercúlea. Existia um código de duas palavras com “poderes especiais”: Colin McRae. E também desta forma se aquilata como a admiração e o respeito pelo piloto escocês, desaparecido há 10 anos, perduram no tempo.
Claro que com pilotos de eleição, mas sem as máquinas que nos fizeram (e ainda fazem) arregalar os olhos, a ‘degustação’ deixaria algo a desejar. Mas não, de todo! Uma colheita vintage é por definição extraordinária: Sébastien Ogier (Vw Polo R WRC), Sébastien Loeb (Citroen C4 WRC), Marcus Gronholm (Peugeot 206 WRC), Petter Solberg (Subaru Impreza WRC), Juha Kankkunen (Lancia Delta HF Integrale), Didier Auriol (Toyota Celica GT4), Miki Biasion (Lancia Delta HF Integrale), Timo Salonen (Peugeot 205 T16), Stig Blomqvist (Audi Sport Quattro S1 E2), e Ari Vatanen (Ford Escort MkII). Também Sandro Munari (Lancia Stratos), vencedor da Taça Fia de pilotos em 1977, assim como os navegadores de Bjorn Waldegard (Hans Thorszelius) e o do próprio Colin McRae (Derek Ringer e Nicky Grist), bem como Luis Moya, em representação do bicampeão mundial Carlos Sainz, marcaram presença. De entre os (poucos) que faltaram à chamada, Markku Alén (que nesse dia fazia as delícias dos muitos ocupantes das bancadas do Autódromo de Estoril), foi, talvez, a ausência mais notada. Por ser presença habitual no Legends e, sobretudo, por ter deixado um solitário Fiat 131 Abarth, completamente desolado, no interior da tenda gigante onde se resguardaram da noite estas ‘peças de arte’.
Conta Miki Biasion, que o seu amigo David Richards, patrão da Prodrive e responsável pela ‘revelação ao mundo’ de um jovem talentoso que haveria de lhe proporcionar muita despesa, lhe terá um dia confidenciado que a casa-mãe da Subaru ‘exigia’ um mínimo de duas vitórias anuais. Ora, conhecedor das limitações dos carros que fazia correr, face a uma concorrência mais artilhada e beneficiária de um maior envolvimento das marcas, Richards apostava grandemente no fator humano. No início do anos 90, tal dava pelo nome de Colin McRae, a quem era dada total liberdade para ‘fazer o que quisesse’ do carro, mesmo que o epílogo se traduzisse numa saída de estrada ou na chegada à linha de meta com uma viatura que de tão ‘amarrotada’ fosse difícil identificar como um Subaru… As ‘contas’ eram feitas no balanço anual, e o que importava era que a contabilidade assinalasse pelo menos as tais duas vitórias. Curiosamente, durante 1994 as duas chegadas na primeira posição, nos ralis da Nova Zelândia e Grã-Bretanha, apenas permitiram o 4º lugar final no Campeonato de Pilotos, mas, a dupla de vitórias no ano seguinte, foram suficientes para o almejado título de Campeão do Mundo.
Certo dia perguntaram a Colin McRae como é que ele procedia para conseguir realizar saltos tão longos numa das lombas existentes no último troço do Rali da Acrópole. O escocês terá perguntado – “Estás a ver o punho do acelerador de uma moto de cross? Para saltares alto e comprido tens de rodar o punho até ao fim. Com um carro é igual, mas com o pé a carregar no acelerador!” História, tantas histórias, e, inevitavelmente, algumas estórias. Todas elas o clã McRae – Jimmy McRae, pai de Colin e ‘primeiro professor nas artes da domesticação de animais de quatro rodas’, a mãe, o irmão Alister (que participou no Legend ao volante do Subaru Legacy RS Turbo com que Colin McRae correu no Rali da Suécia de 1992), e a filha Hollie – ouve com atenção e com um brilho nos olhos. Sentirão saudade, mas também o orgulho que o reconhecimento e a admiração dos “nossos” tende a induzir.
Com a família McRae sentada de um lado e Thierry Neuville do outro, Kris Meeke resiste às tentativas deste último para dialogarem entre eles. Provavelmente o belga quereria discutir qual a melhor estratégia para ‘segurarem’ Ogier durante o Rali da Grã-Bretanha/Gales, continuando assim a acalentar uma ilusão que, como entretanto se verificou, disso não passou. Mas a Meeke interessa sobretudo ouvir o que está a ser dito sobre o seu herói e primeiro responsável por se encontrar onde está. Neuville pode esperar.
Quem nunca foi dado a grandes paciências foi Timo Salonen e, agora que já não fuma, se calhar ainda menos. Na opinião do finlandês que um dia respondeu não saber com que pneus tinha acabado de efectuar um troço do Rali de Portugal, mas ter a certeza que eram pretos e redondos, a conferência de imprensa, com todos os campeões convidados para o tributo a Colin McRae, já ía longa. Pelo que, mantendo-se fiel ao estilo a que nos habituou nos idos anos 80, com um copo de champagne na mão, não se inibiu para perguntar a Ari Vatanen se ainda faltava muito tempo para irem jantar.
Palavras, relatos, histórias. Juntar-se-ão a tantas outras e darão mais cor à coletiva paixão dos adeptos dos ralis. Mas, as imagens têm outro poder. E para memória visual futura ficarão dois momentos: o alinhamento dos carros conduzidos pelos Campeões do Mundo na posição mais favorável para a fotografia em perspetiva aérea que vai constituindo a imagem de marca deste tipo de eventos; e logo depois, a Champions for a Champion Parade, em que os campeões, bem como Kris Meeke (Citroen Xsara WRC) e Thierry Neuville (Hyundai i20 WRC), cumpriram um troço denominado The Legend, dando um espectáculo que incluiu longos slides e muito cheiro a borracha queimada.
Claro que para além de todos estes acontecimentos em torno do tributo a Colin McRae, em que os Campeões Mundiais e as suas gloriosas máquinas foram os principais protagonistas, correu-se um rali. Quase centena e meia de inscritos; três dias de competição; 12 classificativas; 85 quilómetros a desafiar o cronómetro; troços diurnos debaixo de um sol aconchegante a darem lugar a especiais noturnas exigindo proteção contra o frio e a humidade; very lights a iluminar o breu da noite; aplausos sem fim; assistências nas ligações, à moda do século passado; cheiro a gasolina; moto-serras sem lenha para cortar; uma verdadeira Torre de Babel de pessoas e idiomas; bandeiras de inúmeros países, incluindo Portugal, agitadas à passagem dos concorrentes; ‘cantares à desgarrada’ entre os vários ‘irmãos’ do Grupo B e os ‘primos’ da extensa família do WRC (nesta particular competição, os silvos do Audi Sport Quattro ganharão sempre a palma de ouro!); centenas de derrapagens controladas, numa ‘luta fratricida’ entre o san-marinense Paolo Diana (Fiat 131 Racing), o austríaco Christof Klausner (Audi Quatro) e o norte-irlandês Frank Kelly (Ford Escort MkII); uma fila de mais de 30 carros de todas as gerações a aguardarem pela sua vez para iniciarem o shakedown, com os respetivos pilotos no exterior em amena cavaqueira e sempre disponíveis para mais uma fotografia, mais um autógrafo; um estádio de futebol (casa da Seleção de San Marino) transformado em parque fechado, aberto aos milhares de fãs desejosos de “verem com as mãos”; … e muito mais, ‘embrulhado’ numa atmosfera de grande festa popular. Tudo isto é o RallyLegend!
Claro que também existem classificações… e até taças para os vencedores. Já em Lisboa, soube-se que Marco Bianchini (Lancia Rally 037) venceu a categoria Historic, Simone Romagna (Lancia Delta HF 4WD) a Myth e Luciano Cobbe (Ford Focus WRC) a categoria dos WRC-Kit Car. Mas, alguém liga a isso?

Vínculos a Portugal
Depois das passagens por San Marino, em edições transatas do RallyLegend, da Renault 4 L mais famosa do mundo dos ralis e do Ford Sierra Cosworth com as cores da Construciv, conduzidos, respetivamente, por Pinto dos Santos e Rui Madeira, este ano não se verificou qualquer participação de pilotos provenientes de Portugal. No entanto, foi possível encontrar sinais de conexões ao nosso país, curiosamente tendo como denominador comum o ano de 1998.
Steven Rockingham, um gentleman driver inglês, presença assídua em provas históricas, retirou da garagem o Subaru Impreza com a placa de matrícula R 19 WRC, número três nas portas, que é nem mais nem menos que o carro com que Colin McRae venceu o Rali de Portugal de 1998. Este chassi realizou a sua estreia em provas do Mundial no Rali da Finlândia de 1997, pilotado por Kenneth Eriksson, passando no ano seguinte para as mãos do virtuoso escocês. Em 1999, já ‘despido’ do resplandecente ‘azul-Subaru’, haveria de voltar às classificativas nacionais, conduzido por Frédéric Dor. Atualmente esta viatura regressou às cores originais, apresentando igualmente as placas alusivas ao nosso rali mundialista, onde se destaca o logotipo da TAP. Que assim se conserve por muitos anos!
O outro protagonista chama-se Toyota Corolla WRC. Destacava-se à distância pela familiaridade dos patrocinadores exibidos (Galp, Montepio Geral e TMM), sendo o carro que possibilitou a Rui Madeira presentear Fabrizio Tabaton, alma mater da Grifone, com a Taça Fia de Equipas de 1998. Neste ano, o piloto português conseguiu reunir apoios para efetuar as etapas espanhola, grega, finlandesa e italiana do Campeonato Mundial, tendo obtido como melhor resultado a 7ª posição no Rali da Acrópole. Em sintonia com a predileção que Tabaton sempre revelou pelo Rali da Madeira, a visita à ilha também foi contemplada no programa. O Toyota com a matrícula K-AM 422 ainda voltou a Portugal no ano seguinte, para efectuar, enquanto carro zero, o Rali F.C. Porto, servindo na altura para o actual piloto de velocidade Miguel Ramos ensaiar uma eventual incursão pelos ralis com esta viatura, o que não se viria a concretizar.

O orgulho de Simo Lampinen
Na Rally Village, antes dos pilotos Campeões do Mundo presentes desfilarem, verificou-se um animado período de convívio intergeracional. Um dos pilotos mais acarinhados foi Simo Lampinen, actualmente com 74 de idade. Conforme se ía cruzando com os seus pares, Lampinen fazia questão de tirar uma fotografia com cada um deles, antecedida por uma sistemática abertura da camisa, para que se pudesse visualizar a imagem impressa na t-shirt que envergava por baixo desta. A cena estampada não poderia ser mais representativa do orgulho do finlandês no seu rali: o Vw Polo R WRC, versão de 2016, no famoso troço de Ouninpohja, mais precisamente a passar por Kakaristo, uma das zonas mais emblemáticas e fotogénicas do Rali da Finlândia.
Dando mostras de uma excelente memória, rapidamente recordou 1970 como o ano da sua vitória no Rali de Portugal, deixando para trás o seu colega de equipa, Sandro Munari, no outro Lancia Fulvia HF 1600, bem como Bjorn Waldegard, aos comandos de um Porsche 911 S. A conversa não haveria de terminar, sem que Lampinem me mostrasse a t-shirt do seu contentamento, aproveitando para perguntar se já tinha ido alguma vez ao Rali da Finlândia. A resposta negativa desencadeou-lhe uma expressão facial de admiração com tal lacuna.

As lendas não morrem
A caminho de San Marino, com proveniência do norte de Itália, atravessa-se a verde região de Emilia Romagna, conhecida entre os entusiastas dos automóveis como Motor Valley. Para trás, resistindo à tentação de uma visita, vão ficando, sucessivamente, o Museu Enzo Ferrari em Modena, a fábrica e o Museu Ferrari (distanciado poucos quilómetros do anterior) em Maranello, e os Museus Lamborghini e Ducati, nos arredores de Bolonha. Contudo, perante a placa sinalizadora da saída para Imola, torna-se irresistível não abandonar momentaneamente a Autoestrada do Adriático, tendo como destino o Autódromo Internacional Enzo e Dino Ferrari, ‘mesmo ali ao lado’.
Assim que se entra na pequena cidade medieval de Imola, surgem inúmeras indicações referentes às várias zonas do autódromo que foi desenhado na mancha verde envolvente desta comuna. Obviamente que, o objetivo só podia ser a Variante Tamburello, onde, na zona exterior da rede, o mito Ayrton Senna continua bem vivo. Volvidos mais de 20 anos sobre um dos fins-de-semana mais negros da história da Fórmula 1, são inúmeras as homenagens deixadas junto da estátua do piloto brasileiro, pela romaria de fãs oriundos de todo o mundo.












Afinal há quem saiba escrever no autosport. Parabéns!
Belíssimo artigo! Sinceros parabéns!!!