Simo Lampinen e o seu navegador, o conceituado jornalista John Davenport, tomavam tranquilamente a refeição no hotel, antes de se dirigirem para a cerimónia de partida da edição de 1974 do Rali Sanremo, onde participariam ao volante de um Lancia Beta. A televisão do hotel transmitia aquilo que parecia ser um resumo do rali do ano anterior, mas, à medida que a emissão avança, Lampinen e Davenport apercebem-se de que se trata da transmissão em direto da partida de 74… onde ambos já deveriam estar.
Num ápice, saem a correr do hotel em direção ao Lancia e arrancam a fundo rumo ao local da partida, chegando cerca de 2 minutos após a hora prevista. Resultado: exclusão imediata da prova! Ao desalento do piloto finlandês, juntava-se a frustração do seu navegador por não ter atualizado o horário na sequência de um aditamento que antecipava a partida em uma hora. Regressavam a casa sem a oportunidade de provar as potencialidades do Lancia mas, curiosamente, quando um dos mecânicos levava o carro de volta para a assistência da equipa, a transmissão cedeu e o Beta não andou mais…
Apesar deste episódio, a prova italiana acabaria por sorrir à Lancia, já que Sandro Munari e Mario Mannucci conquistaram no Sanremo uma vitória histórica, na estreia do Lancia Stratos em provas do Mundial. O sonho de Cesare Fiorio tornara-se realidade e o modelo desenvolvido a pensar na competição iniciaria aí um domínio incontestado na alta-roda dos ralis.
Esta linha ténue, que separa o êxito do infortúnio, espelha na perfeição o que tem sido a história do mais alto patamar das provas de estrada. Mais do que um mero acervo estatístico, o seu património assenta em quatro décadas de ‘estórias’ onde homens (e algumas mulheres) e máquinas desafiaram os seus próprios limites em lugares perdidos, das estradas geladas do Monte Carlo, aos tórridos e demolidores trilhos da Grécia, dos pisos técnicos da Argentina e Portugal aos estradões da Finlândia e Nova Zelândia.











