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Crónica: Diário do Rali Monte Carlo 2012 by Nuno Branco

José Luis Abreu by José Luis Abreu
23 Janeiro, 2012
in Ralis
A A
Crónica: Diário do Rali Monte Carlo 2012 by Nuno Branco

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Era aguardada com enorme expectativa esta 80ª edição do Rali Monte Carlo. Por estar de volta ao Mundial de Ralis, pelas novas montadas de Petter Solberg e Mikko Hirvonen, pela presença de Armindo Araújo, pela incógnita em torno da MINI, pelo que poderia fazer Ogier, mas, acima de tudo, por ser o Monte Carlo. Por si só, a primeira prova do Mundial 2012, pelas surpresas que oferece, pela interrogação acerca da aparição da neve e pelo reencontro dos melhores pilotos do Mundo com as estradas míticas que fizeram a história da prova, já seria suficiente para justificar o atento seguimento do desenrolar dos acontecimentos.

Todos os caminhos vão dar a Valence, exceto se a estrada estiver cortada…

Numa noite fria de terça-feira, em que os termómetros rondam os zero graus, no Parque de Exposições de Valence, local que reúne o quartel-general, o parque de assistências e o parque fechado durante os primeiros três dias da prova, os carros recebem os últimos acertos antes de enfrentarem as primeiras classificativas na manhã seguinte.

As instalações são antigas e o espaço para montar todo o “Circo” necessário a um rali do WRC não abunda, ficando as condições do quartel-general de Valence a anos luz do que é montado no Rali de Portugal. A localização do Parque de Exposições no centro da Cidade também contribui para a confusão que se instala ao início da noite, por aquelas bandas, com o regresso dos concorrentes ao parque de assistência a coincidir com a azáfama dos que regressam a casa depois de um dia de trabalho. O trânsito fica muito complicado sendo a “Gendarmerie” muitas vezes obrigadas a cortar ruas de acesso a um dos centros nevrálgicos do evento.

Le Moulinon-Antraigues, a primeiro desafio

Manhã de quarta-feira, a poucas horas da primeira classificativa. Ainda noite cerrada. O termómetro marca 5 graus negativos. A povoação de “Le Moulinon” já acordou há muito. No largo principal, ouve-se música, os grelhadores já fumegam e as paredes vestem-se a rigor com fitas e balões encarnados e brancos, para receber a caravana do Rali. Logo após o largo, existe uma esquerda a 90ºC que conduz ao início do troço.

O troço Le Moulinon-Antraigues é um clássico do “Monte”, que havia sido abandonado, e foi recuperado em 2007, quando o rali passou a revisitar a região dos Montes de Ardeche, A experiência de conduzir neste troço, de noite e com piso molhado é única. Walter Rohrl considera esta estrada o melhor troço de asfalto do Mundo. Não sei se é verdade. A única coisa que sei é que é, sem dúvida, um dos troços mais estreitos do Mundo. Os primeiros 20km, até ao Col de la Fayolle são feitos com curvas sucessivas numa estrada com asfalto bastante gasto, ladeado de pequenos muros de ambos os lados. A distância entre muros é tão estreita, que finalmente, percebo a preocupação da FIA em limitar a largura dos carros de ralis (risos).

Ao longo destes quilómetros inicias, cabe apenas um carro e não há espaço para correções de trajetória. A esta hora, já os batedores percorrem o troço, registando informações sobre o estado do piso. Percorridos cerca de 17 quilómetros desta exigente e sinuosa estrada, chega-se à aldeia de Saint Julien do Gua, um dos locais mais emblemáticos do troço e a pouco mais de três quilómetros do Col de la Fayolle. A povoação é bastante pequena, com cerca de 170 habitantes e uma morfologia típica da região: casas em pedra clara, com dois ou três andares e uma igreja que dá nome à praça principal. Os concorrentes entram na aldeia, onde encontram um gancho à esquerda, e depois de uma sucessão direita esquerda, têm um novo gancho à direita, já fora da aldeia, e bastante procurado pelos fotógrafos, já que permite captar os pilotos a negociar o gancho com a aldeia em fundo. A primeira claridade aparece já bem depois das 7 horas, pelo que até aí, são as fogueiras a contrariar a escuridão e o frio que se faz sentir.

Os espetadores dividem-se entre o centro da aldeia e o tal gancho elevado com as casas e a igreja como pano de fundo. Outros ainda, preferiram não descer, ficando no Col de la Fayolle. Pouco depois das 8 da manhã, passa em ritmo acelerado um Renault Clio amarelo, conduzido por Jean Ragnotti. O pequeno francês, em colaboração com a Renault, parceira oficial do rali, aceitou o desafio de percorrer todos os traços do rali antes do carro 00, dando o “seu” espetáculo habitual, e abrindo o apetite a milhares de fãs que ainda hoje, nutrem uma enorme admiração por “Jeannot”.

O primeiro carro depois do último “zero” é sempre aguardado com grande ansiedade. Faz-se silêncio e os ouvidos procuram escutar os primeiros roncares de motor. Loeb é o primeiro a passar sob grande exaltação dos franceses, seguindo-se Hirvonen, Latvala, Petter Solberg, Wilson e Sordo, para gáudio dos espanhóis presentes. Armindo é o 11ª, depois de Prokop e antes de Campana. Quando chega Ogier, nova onda de manifestações ganha forma e enquanto uns incentivam, outros fazem troça, gerando-se uma troca de palavras entre adeptos, deixando entender que, neste momento, em França, o rivalidade Ogier-Loeb é um espécie de Benfica-Sporting cá do burgo.

Não há fitas a delimitar a deslocação dos espetadores e os elementos da organização, bem como as forças policiais, utilizam um maior rigor até à passagem do último zero, passando depois a gestão dos espetadores a entrar em modo “à vontade”. As pessoas atravessam a estrada e colocam-se onde entenderem, inclusivamente nas bermas, sem uma única chamada de atenção por parte do staff. Tal como no Rali de Portugal, diríamos…

Depois do último a passar, acorrem todos à “Place d’ Eglise”, no centro da povoação, onde o fumo das salsichas a assar convida a retemperar energias. Enquanto as máquinas regressam a Valence para recuperar as mecânicas, os espetadores procuram a “barraca” na praça da igreja, onde uma enorme panela ao lume anuncia a presença de “Vin Chaud”, que mais não é do que vinho colocado ao lume para ser consumido quente, com ou sem açúcar.

À porta deste bar improvisado, uma menina assa castanhas provenientes dos muitos castanheiros daquelas encostas. O Sol que incide sobre aquele local de descanso e a confraternização ajuda a esquecer o frio da manhã, mas cerca das duas da tarde, pouco antes do início da segunda passagem, já o Sol se despedira de Saint Julien do Gua e o frio de fim de tarde havia regressado. As condições do piso não sofreram alterações, ao contrário do outro troço do dia, Burzet-St. Martial, onde a neve na descida para St. Martial e em parte da subida para Lachamp Raphael, originou uma lotaria na escolha dos pneus e Latvala deu por terminada a sua participação depois de uma aparatosa saída de estrada.

“Fechado para Rali”

Esta, bem podia ser a informação coloca no segundo dia da prova, à entrada de Saint Bonnet le Froid. Com o início e a chegada a distarem apenas algumas dezenas de metros, bem no centro daquela povoação, o troço com o mesmo nome é um dos mais emblemáticos do rali. Horas antes de os concorrentes ali chegarem, S.Bonnet fecha literalmente as suas portas e toda a vida da Vila é dedicada ao rali. E quem ali se desloca naquela quinta feira (só pode entrar a pé), vai de certeza para ver carros e pilotos de rali. E por isso, durante toda a madrugada, ali chegam carros e auto-caravanas, para estacionar o mais perto possível e evitar quilómetros de caminhada.

A primeira esquerda do troço é um dos locais de eleição de fotógrafos e espectadores. Muito público, em grupos de amigos ou família, ali se desloca com o tradicional pão em forma de “baguette” debaixo do braço ou na mochila e são várias as fogueiras que combatem o frio de duas formas: produzindo calor e aquecendo panelas de vinho que, depois de bebido, afasta o frio e incentiva as manifestações de apoio aos concorrentes. Este ano, a neve não quis pintar de branco aquelas paragens a mais de 1100 metros de altitude.

Após a passagem dos primeiros carros, o público e fotógrafos sobem o monte para os ver novamente a negociar o “esse” que antecede a chegada ao final. O facto de se poder assistir ao início e ao fim da classificativa, torna-a especial. Após a primeira passagem, e tal como acontecera em Saint Julien do Gua, o povo ruma à rua principal de Saint Bonnet le Froid, para aquecer o corpo e a alma com vinho quente. O centro da vila torna-se pequeno para receber tanta gente. No largo da Igreja e na rua, cada degrau é ocupado por gente que confraterniza naquele que será o dia mais concorrido do ano em Saint Bonnet.

Bruno Saby passeava, certamente para matar saudades do ambiente do Monte Carlo e Jean Ragnotti satisfazia os desejos dos fãs, ora dando autógrafos, ora pousando para as fotos. À conversa com Jeannot, percebe-se que a vitória no Monte Carlo de 81 ainda está bem fresca na sua memória, no ano em que “o Audi Quattro deixou toda a gente de boca aberta, o Renault 5 Turbo não era muito rápido na neve, perdendo terreno para os restantes, mas construiu a sua vitoria nos troços secos, onde o R5 era muito rápido”. O segundo lugar no Rali de Portugal de 1987 também não foi esquecido, embora Ragnotti faça questão de lembrar que “o Alen era muito bom e também merecia ganhar. Nós tentámos tudo com o Renault 11 Turbo, mas ele tinha um Lancia…”

Nesta altura, recomeçava a azáfama dos carros dos batedores a passar na rua principal e Phil Mills, antigo navegador de Petter Solberg, integrava uma dessas equipas. Quando o relógio da igreja anuncia as três da tarde, já todos estão de novo a caminho da classificativa. O ritual mantém-se: ver os primeiros no início, subindo depois o monte para os esperar à chegada. A festa continuava com pão, vinho, fogueiras e bandeiras francesas a apoiar Loeb, Ogier e restante companhia gaulesa.

O regresso a Valence permitiu passar por outras povoações que haviam recebido igualmente a competição naquele dia. Em Lamastre, por exemplo, houve também festa rija e em Alboussiere, um fogo de artifício pintou os céus de Ardéche com as cores do rali.

Quando o nevoeiro não avisa a sua chegada…

O terceiro dia era o mais longo em quilometragem, mas o mais curto em termos competitivos, com apenas três troços, dois deles na região montanhosa de Royans, no parque natural de Vercors, e um terceiro, já mais a Sul, que intercalava a longa ligação ao Mónaco. A região de Royans acordou com chuva e a probabilidade de queda de neve não se verificou. O mercúrio dos termómetros estava acima dos zero graus. A subida ao alto da montanha atravessa várias povoções cujo nome inclui o nome da região a que pertencem: Saint Nazaire en Royans, Saint Thomas en Royans e a mais conhecida de todas, Saint Jean en Royans, que recebia com festa, mais uma edição do rali, vestindo-se também a rigor para o arraial.

O fim da segunda classificativa situava-se no Col do Gaudissart, a cerca de 800 metros de altitude, e daí, partiam caminhos literalmente esculpidos na montanha, com pequenos túneis a fazer lembrar passagens de outros tempos pelos Alpes Marítimos. A chuva que começava a cair com maior intensidade deixava a estrada bastante escorregadia. Do público, que ali não abundava, destacava-se um grupo de três anciãos, que aguardava os concorrentes bebendo vinho quente e recordando histórias de outros tempos. Da improvável vitória de Rohrl no Opel Ascona 400, aos Porsche dos irmãos Almeras, passando pela beleza do Lancia 037 até à evolução tecnológica do Audi Quattro.

A poucos minutos da passagem de Loeb, um inesperado nevoeiro cerradíssimo, que apareceu sem anunciar, e já depois dos batedores tirarem as suas notas, reduziu, em menos de 5 minutos a visibilidade a zero! Foi notoriamente um troço difícil para os pilotos. Petter Solberg fez uma escolha errada de pneus, sendo quase dobrado por Hirvonen, o seu irmão Henning passou com uma roda a arrastar e e Bryan Bouffier, o vencedor do ano passado, não evitou um toque que alterou o design da traseira do Peugeot 207 S2000.

Tradição manteve-se no Turini

O Mónaco tem um encanto especial e nas suas ruas, respira-se história do desporto automóvel. Apesar do espaço não abundar, também é verdade que ali não falta experiência para acomodar grandes eventos nas ruas do principado. A caravana do rali utilizou algumas zonas que ficaram famosas pelo Grande Prémio de F1. Enquanto o parque fechado se encontrava junto à curva “Rascasse”, a zona de assistências e a fã village foram montados junto às piscinas.
Foi uma manhã de sábado soalheira e tranquila na baía de Monte Carlo, já que as hostilidades só começariam à hora do almoço com uma última assistência antes da subida ao famoso Col du Turini.

É impensável assistir ao Rali de Monte Carlo sem subir ao Col du Turini. Este ano, a classificativa que ali passava, fazia a ligação Moulinet-La Bolene Vesubie, com pouco mais de 23 quilómetros, contando com duas passagens: uma ainda de tarde e a segunda, já ao início da noite.

A passagem pelo Turini faz parte do património histórico dos ralis e a sua magia começa a sentir-se logo no acesso, feito pelo lado de Peira Cava. São cerca de 20 quilómetros de ganchos sucessivos que nos elevam a uma altitude de 1607 metros, com uma vista única sobre a montanha e a estrada serpenteada, que este ano se encontravam despidas de neve. 

Estávamos a cerca de três horas do início das hostilidades. A cinco quilómetros do Turini, começam a aparecer os primeiros carros estacionados. Ávidas de voltar a ver o Mundial de Ralis naquelas paragens, centenas de pessoas de mochila às costas e crianças nos ombros, subiam já em direção ao mítico local. Naquele “santuário” dos ralis, são já aos milhares, os “fiéis” que escolhem o melhor local para ver os seus ídolos. A famosa passagem no ponto mais alto da classificativa, mais não é do que uma sequência direita esquerda rápida, intercalada por uma pequena reta.

De um lado e do outro da estrada, a multidão aguarda impaciente. Vários helicópteros sobrevoam o local e os fotógrafos começam a chegar. Junto à esquerda que marca o início da descida para La Bolene, uma enorme bandeira das quinas aguarda Armindo Araújo. Grupos de espetadores, já bastante “animados”, contribuem para o ambiente de euforia que se faz sentir. Pouco depois das 15 horas, o barulho do motor do DS3 WRC de Loeb a subir o Col do Turini anuncia o início da festa.

Entre as duas passagens, o bar do “Hotel des Trois Vallées”, acolhe os espetadores mais sedentos. Nas paredes, respira-se história. Centenas de fotos, algumas autografadas, relembram os carros e pilotos que marcaram as várias épocas dos ralis. Quase todas têm um denominador comum: foram tiradas naquele local, reforçando assim a carga histórica e emocional daquele sítio.

O hotel é assim uma espécie de ponto de encontro de gerações, de gente ligada à modalidade. Já de noite, e com o frio a aparecer, começam os adeptos a retomar os seus lugares para a segunda e última passagem. E é de noite que se faz sentir a verdadeira alma do Turini. Fogueiras, “very light”, fogo de artifício e cânticos em francês, italiano e espanhol, de ambos os lados da estrada, cumprem uma tradição de décadas. Milhares de adeptos concentram-se em pouco mais de 100 metros de troço e aqui, pela primeira vez em todo o rali, elementos da organização e forças policiais implementam especiais medidas de segurança. É ao som de cânticos que os faróis de Loeb irrompem no Turini, cruzando o imenso clarão provocado pelos flashes das máquinas fotográficas.

O ambiente que ali se vive é de facto único. No céu, as estrelas parecem estar ao alcance da mão, bem perto de outros astros que, na estrada, movem milhares e alimentam paixões.

O Monte Carlo está de volta ao WRC e, sempre que ali passarem os melhores pilotos do mundo, os cânticos, as fogueiras e os flashes, darão continuidade à lenda do Turini.

Nuno Branco 

Tags: Nuno BrancoRali Monte Carlo
José Luis Abreu

José Luis Abreu

Entre curvas e muito pó, descobri que o olhar treinado pela fotografia e a paixão pelos ralis só podiam levar a um destino: o jornalismo desportivo. E já lá vão mais de 30 anos…

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