CRÓNICA DE Vítor Calisto: BACK TO THE FUTURE

Por a 13 Dezembro 2019 19:16

Vamos até á Lagoa Azul? Vamos ripar serra acima?
Vamos lá? Não sejam cortes…
…..Estrela da Graça, café de Bairro numa sexta-feira à noite corria o ano de 1976….
Eu levo o meu carro que o meu pai nem desconfia…Tu trazes o do teu pai… e tu o da tua
irmã…
Embora lá que a noite tá boa…
E se acontece alguma coisa?
Tás maluco…O que é que pode acontecer?
E era assim, invariavelmente às sextas-feiras á noite, em romaria, gastando o poupado da mesada
da semana, para meter 20 litros e arregaçar serra acima, imitando os ídolos que víramos passar na
noite de Sintra do Rali TAP.
Lá íamos, correndo todos os riscos. Os que sabíamos que poderiam aparecer e aqueles que
imaginávamos não existir…nada ia acontecer… Era a magia de Sintra
Era mais forte a voz que ecoava dentro de nós e que nos impelia para serra acima, peninha abaixo,
com carros do dia a dia sem qualquer preparação ou segurança, percorrer aquelas estradas vezes
sem conta, como se todas aquelas curvas e qualquer metro entre elas, fosse a coisa mais
importante das nossas vidas…
E foram tantas vezes que o fizemos, com chuva, com lama, com nevoeiro e também com os azares
que estavam sempre à espreita e que fazíamos de conta não existir…
Hé pá o gajo não devia já ter aparecido? Eh pá terá acontecido alguma coisa? E lá íamos à procura do gajo que não aparecia, e de vez em quando o que nos aparecia era uma grande carga de trabalhos, com avarias,
acidentes e outras alterações de formato da carroçaria, e o início da grande preocupação que era –
como contar aos pais o que tinha acontecido ao carro que era emprestado para ir para a faculdade

  • felizmente sem nunca alguém se ter magoado….Sorte!
    E sempre esta paixão foi crescendo e o carro de ir para a faculdade durante o dia à noite
    transformava-se numa diabólica bomba de ralis muito idêntico àquele que girava na nossa
    imaginação à boa maneira do clássico Hyde e Jekyll.
    E eu sempre ouvira dizer que quando queremos muito uma coisa e pusermos um dentinho de
    baixo da almofada, o desejo vai-se realizar… e PUFF…assim foi, e mesmo sem dente.
    Após umas incursões pelo campeonato de Iniciados, Promoção e etc, e no ano de 1982 lá chegou
    a vez da 1º participação a sério no Rali das Camélias…
    E não era que iríamos percorrer, pela primeira vez a sério e com condições de segurança mínima
    as especiais de Sintra…???

Não foi de grande duração a nossa participação, mas Sintra nunca mais morreu
E não era só nas Camélias e no Rali de Portugal se percorriam aquelas estradas.
Também na Volta a Portugal, no Rali do Sintrense na Rampa da Lagoa Azul, o asfalto de Sintra lá
estava para receber os automóveis naquele abraço tão apertado e tão sentido que se tornou
eterno, até na Banda de desenhada de Jean Graton, publicado em Portugal pela primeira vez em
1981, o livro “Rali em Portugal” em que a história relata a participação do herói Michel Vaillant na
terceira edição do Rali TAP de Portugal, ocorrida em 1969.
E então, vindo do nada, a iluminada Dra. Edite Estrela, na sua passagem pela Câmara de Sintra
(1994 a 2002), proíbe a realização de qualquer prova automobilística no Concelho, por serem
altamente poluentes e inimigas da paisagem…..
E assim Sintra e as suas estradas ficaram devotadas ao abandono, mas não ao esquecimento, e
continuaram a ser sempre objeto das nossas mais maravilhosas e mágicas histórias de
automóveis… A curva da água, a ribeira da mula, os quatro caminhos, o 1º e 2º salto da Peninha, a
curva da pedra, as quatro direitas a fundo, etc etc
E eis senão quando, renascendo das cinzas, o rali das Camélias, aí está, ainda como prova extra
campeonato e com uma aparição tímida em 2018 mas com uma confirmação absoluta neste ano
com mais de 80 inscritos, dos quais seguramente 90º nunca tinha competido nestas estradas.
E tudo se conjugou para que este extraordinário rali nos trouxesse à memória um turbilhão de
recordações, que nos fazem sentir orgulhosos por tudo o que fizemos e participámos, e também
tristes, por sentir que não há volta a dar-lhe e não estaremos por aqui para muitas mais camélias.
E tudo apareceu… Chuva, lama nevoeiro…. pisos extremamente escorregadios e difíceis de
negociar…., mas público sedento de ralis em Sintra…muito público….
… Mas isso é que é Sintra
Quem se lembra de num Rali de Portugal decidido na noite de Sintra entre o Ford Escort do
Hannu Mikolla e o Fiat 131 Abarth do Marku Allen, separados por escassos segundos e que
fizeram vibrar mais de 500 mil pessoas que não arredaram pé… Era a magia de Sintra
Sintra não é, nem nunca foi fácil… foi sempre muito especial… sempre com as suas armadilhas e
truques mas sempre com a sua beleza natural, que um dia um fogo desvirtuou, mas sempre com
os seus automóveis feitos duendes, guardados na sua memória
E é, hoje em dia extraordinário, perceber a surpresa de maioria dos nossos mais virtuosos pilotos
de ralis, quando pela primeira vez nas estradas de Sintra perceberam quem manda, e se sentiram
subjugados pela beleza e pela magia desta serra mítica para os ralis, inigualável em qualquer parte
do mundo… efetivamente a Catedral…
Digam o que disserem, e como eu ouvi… Ai é muito perigoso, não se consegue andar, nunca vi
nada assim…à noite não ponho lá os pés…. se de dia é assim á noite nem imagino, e mais coisas
que fazem pensar que talvez fosse melhor terem ficado em casa e diminuído os riscos num bom
jogo da PlayStation… bem mais barato e menos perigoso
Já vi muitas coisas nesta vida…

…Deixarem de realizar especiais nos Açores por serem muito perigosas… contestarem especiais
em Arganil pelo mesmo motivo…
…e agora Sintra?
Por favor, amigos… os Ralis são perigosos… Não estraguem a sensação que nos faz andar e viver
por dentro este desporto maravilhoso…
… Porque já iniciaram o processo colocando pressão na organização para anular as especiais
noturnas de Sintra, por serem muito perigosas.
E que por este ou outro motivo, que não nos foi explicado, foi anulada a segunda passagem pela
especial dos Capuchos, com o falso motivo de falta de segurança…
Não foi seguramente, pois do alto da minha experiência vos digo, que por poucas vezes encontrei
Sintra tão bem em termos climatéricos como na noite do Sábado passado…
… Não havia chuva, nem lama, nem nevoeiro…. o público estava bem colocado, e tudo se
conjugava para uma excelente noite…
… Mas não, tudo acabou ao intervalo,,, e vá-se lá saber porquê… Nem há video árbito
Mas que já a meio da tarde se ouvia zunzuns sobre o assunto …..
Por favor não estraguem Sintra…
Amem ou deixem !!!

Victor Calisto

Vítor Calisto, na foto com o filho, Márcio Calisto. Nas Camélias, o navegador foi Anónio Cirne.
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