Quase 50 anos depois, o olhar inicial: Dina Lopes e Fifé na história do AutoSport, foram deles as lentes que abriram o caminho
Na antecâmara do seu cinquentenário, que o AutoSport assinalará em 2027, revisitar os primeiros tempos do jornal é também regressar à importância fundadora da fotografia, num percurso em que Dina Lopes e Filipe Fernandes, o “Fifé”, se afirmam como dois dos seus primeiros fotógrafos e como nomes marcantes de uma história construída ao longo de quase cinco décadas.
No início, para lá do verbo, era também a imagem. Numa altura em que tudo era diferente, também a forma como a imagem, o momento, eram captados, diz muito sobre o sentido estético que se praticava há quase 50 anos.
Não que esse sentido estético fosse muito diferente. Captar o momento, a imagem, refletia então uma maior proximidade com os intervenientes. É disso que falam Dina Lopes e Filipe Fernandes, o “Fifé”, dois dos primeiros fotógrafos oficiais do AutoSport, protagonistas de uma era fundadora na construção visual do jornal.
«Tudo começou, digamos, por afinidade. Casei-me com o José Vieira (ndr, fundador do AutoSport, que nos deixou a meio de 2024) e partilhamos afinidades e paixões. Os automóveis e a fotografia são apenas algumas delas.» Dina Lopes não tem dúvidas: «Tudo o que sei, aprendi com ele — o sentido estético, o espírito de reportagem.»
Com ele, começou a rodar nos circuitos internacionais, em especial na Fórmula 1 e nos Protótipos. Foi 15 vezes às 24 Horas de Le Mans, “uma prova mágica”. «Conhecia o circuito como as palmas das minhas mãos.» Dina Lopes recorda com emoção esses tempos, «em que havia uma maior proximidade com as pessoas, pilotos, mecânicos, comissários».
Lembra também as dificuldades, «os sacos cheios de rolos, as toneladas de material» que tinha de transportar. A sua primeira máquina foi «uma Nikkormate». E, enfim, fala «do momento mágico que é recolher a imagem, a verdadeira adrenalina que é carregar no botão e captar a imagem». Afinal, a arte da fotografia, em que o encanto «está no próprio momento, na luz, no enquadramento — saber quando disparar. E tudo durante uma prova de automobilismo».
Diferente, mas igualmente marcante, é a experiência de Filipe Fernandes, o popular “Fifé”, outro dos nomes incontornáveis dos primeiros anos do AutoSport.
Iniciou-se em 1972, com apenas 15 anos, e trabalhou «em tudo o que era revista e jornal de automóveis em Portugal». No AutoSport, começou logo no número 0, com uma reportagem em Vila do Conde. «As minhas características eram a minha loucura, a forma de estar na vida e as fotos arrojadas que conseguia fazer.»
Foi pioneiro em tirar fotografias nos troços de ralis, para onde «ia de bicicleta, com a minha famosa mala de alumínio», onde transportava «três máquinas e diversas objectivas, entre elas uma lente de espelhos e a 500», pesadíssima. Dessa mala, reza a história, que «ficou plana que nem um papel» quando um Triumph se despistou, levantou voo na saída da Curva 3 do Estoril «e aterrou em cima da mala. Felizmente consegui fugir!».
Fifé, que além da “prata da casa” fez reportagem no estrangeiro, «na F1, em Monte Carlo e em Indianapolis», recorda ainda que, «nessa altura, éramos nós que fazíamos tudo. Fotografavamos, revelavamos as fotos — havia um laboratório no AutoSport, no Dafundo e, um domingo em que tinha feito uma prova de carros e outra de motonáutica, não resisti e adormeci em pleno laboratório». Retirado progressivamente da fotografia, Fifé continua a dizer que ela ainda é a sua «maior paixão».












