Resumir 40 anos de corridas de automóveis em 4000 bytes? Impossível. Talvez em quatro mil artigos (seria melhor livros), tal o manancial de histórias e as diferenças comparativas nestas quatro décadas. Basicamente, perdura o desafio de ser mais rápido que o outro piloto ou o outro carro. O resto é um mundo sempre em mudança. A começar pela forma como se chega à informação para dar corpo à paixão. Deixou de ser preciso esperar por 5ª feira para comprar o AutoSport e saber… o possível. Agora, à distância de um comando, de um computador/ tablet ou de um simples smartphone, temos tudo, na hora, ou quase.
Numa frase: escancarámos o mundo das corridas. Nada nos impede de vermos e conhecermos a fundo o que gostamos, por mais “obscuro” que seja. Sei do que escrevo. Não era fácil ser-se fã de NASCAR e de Fórmula Indy nos anos 70 do século passado. A cibernética mudou a forma como as corridas chegam até nós. E mudou as mesmas no seu todo. Há 40 anos, a desistência por falha mecânica era uma “normalidade”. Hoje é quase uma “impossibilidade”. A eletrónica trouxe fiabilidade, sobretudo através da simulação. Mas trouxe também carros cada vez mais velozes. Ao baixar em muito a hipótese de erro, permite complicações mecânicas extremas.
Os novos materiais e técnicas de construção fazem o resto da diferença. Perceber que um F1 rodou este ano, em Suzuka, 15 segundos mais veloz por volta comparativamente a 1988, tem de nos fazer pensar e sentirmo-nos orgulhosos por estarmos a viver tudo isto. Nunca tivemos veículos tão velozes, sejam monolugares, protótipos, GT, Turismos; seja em circuito, rali ou TT; seja movidos a combustível fóssil, ou com soluções elétricas e híbridas.
Em paralelo, a cibernética possibilitou todo um mundo de Gaming. As gerações mais novas não precisam de empurrar carrinhos à escala para fazer corridas em casa (ou na rua). No computador “vive” um mundo paralelo de competições automóveis virtuais. Podemos ser piloto “a sério” ou de “sofá. Ou até dos dois, saltitando entre um e outro, em ambos os sentidos. Podemos envolvermos-nos diretamente nos vários paradigmas do espetro das corridas, ou também ir para o mundo virtual “fazendo de conta” que somos os novos Enzo Ferrari, Maurizio Arrivabene, Adrian Newey ou Eduardo Freitas. E nada nos impede de sermos apenas fãs, numa experiência, total e imediata, que há 40 anos não era possível.
Nas corridas “reais” temos mais campeonatos e disciplinas. A proporção será de 1 para 20. Temos mais pilotos, carros, pistas, provas de velocidade, ralis, convencionais ou de TT. Não se tendo democratizado o acesso (os eternos custos), existem mais portas abertas: campeonatos para pilotos 100% profissionais, mas também para Pro-Am ou para puros amadores, numa variável de idades que vai quase dos 8 aos 80. Até a utilização dos carros se alargou.
Existem alguns a correr todos os fins de semana, mundo fora, em várias disciplinas. Havendo vontade (e dinheiro), o difícil é escolher. Há mais mercados. A competição automóvel deixou de ser um fenómeno Ocidental ou de Primeiro Mundo. Espalhou-se um pouco por todo o lado e, muitas vezes, com elevada qualidade organizativa e de plantel. Acrescentámos a tudo isto um enorme reforço na segurança e na profissionalização (ou melhor, formação) de todos os “agentes”. O acidente continua a espreitar a cada metro, verdade, mas a morte perdeu quase toda a macabra inevitabilidade. Temos tudo isto, numa evolução esplendorosa, e todos os dias somos bombardeados com o chavão – “no passado é que era bom”! Quando dizemos ou escrevemos isso, estamos a matar a nossa galinha dos ovos de ouro. Se somos os primeiros a denegrir, como iremos conseguir passar o prazer das corridas às gerações vindouras? Fala-se muito numa diminuição do interesse pelo automobilismo. Ponham-se no papel de um jovem que vê o pai dizer mal das provas atuais. Como atraí-lo então?
Quem vive com os olhos postos no passado não tem futuro. Temos de preservar a história, sim, usando-a como veículo numa linha condutora que nos trouxe aqui. Mas devemos viver o presente. Glorificá-lo primeiro que tudo, perspetivando o futuro. O que ficou para trás são ensinamentos para não se repetirem erros, pese embora com as mudanças a ritmo acelerado que a sociedade está a ter, devemos sobretudo perceber o momento e traçar planos para o que aí vem. O Desporto Automóvel tem tudo para dar certo… até a história centenária. Há que usar então todos os trunfos. Só assim, os próximos 40 anos serão
ainda melhores.











