Muito mudou desde que Sergio Marchionne assumiu o comando do Grupo Fiat. Responsável por retirá-lo da falência através da aliança bem-sucedida com a Chrysler, o italiano procurou sempre fazer da Lancia aquilo que ela não era na mente de todos os que viveram com intensidade o período compreendido entre o final da década de 1970 e o início dos anos 90: uma marca de luxo.

Lancia Thema
Dos Grupo 5 e 6 do mundo da resistência aos Grupo 4, B e A dos ralis, a marca fundada por Vincenzo lançou sucessivamente automóveis emblemáticos que ainda hoje permanecem na memória de todos, do Stratos ao Beta Montecarlo, do 037 ao Delta. O leque abrangente dificulta a escolha sobre qual será o ‘nosso’ favorito, mas arrisco dizer que, em termos desportivos, o Stratos e o Delta serão os que maior significado têm para a marca e igualmente para a grande maioria dos seus adeptos.
Nascido em 1979 das mãos de Giorgetto Giugiaro, o que desde logo explica muito do fascínio que rodeia o pequeno compacto de cinco portas italiano, o Delta foi sofrendo pequenas atualizações até finalmente ser substituído por uma nova geração, em 1993.
Só que o corte com as linhas do modelo original foram um erro, impedindo que a nova encarnação repetisse o sucesso e a longevidade do primeiro Delta. A marca acabaria por declarar o seu fim em 1999, prolongando esse hiato até 2006, ano em que foi lançada a terceira e última geração do Delta, enquanto a Lancia paulatinamente abandonava as suas raízes desportivas para se tornar numa marca burguesa (até o pequeno Y era descrito como um utilitário requintado).
O resultado foi novamente desastroso, fruto de uma plataforma e motores desatualizados, e, novamente, de um posicionamento elitista, ao qual não é imune a estética pretensiosamente avant-garde, mas cujo resultado prático esteve longe de representar dignamente o perfume italiano. Tudo numa época em que a fusão entre a Fiat e a Chrysler era já uma realidade, e que teve como consequência decisões estratégicas que penalizaram como nunca o nome Lancia, cujos 110 anos (!) de história mereciam mais do que a mercantilização que sofreu.
Angelo Granata e Andrea Bonamore são responsáveis por duas das melhores interpretações de um Lancia Delta contemporâneo, mas sem fugir às suas raízes históricas
No início desta década, os Chrysler transformaram-se em Lancia e os Lancia tornaram-se Chrysler (os modelos Thema, antigo Chrysler 300, e Voyager, o popular monovolume norte-americano, são dois bons exemplos), no mesmo instante em que a insígnia era cada vez mais ‘encostada’ com o objetivo de alimentar os mercados emergentes – uma espécie de Dacia da Renault, embora a primeira seja assumidamente uma marca low-cost e não um baluarte do requinte automóvel.

Lancia Voyager
A atual ‘desconsideração’ pela Lancia não deixa de ser curiosa se pensarmos que a marca foi adquirida em 1969, após grandes dificuldades financeiras, e que a aposta no desporto motorizado foi determinante para o seu renascimento, trazendo, ao mesmo tempo, um enorme prestígio ao Grupo Fiat. A Alfa, por outro lado, está na sua posse desde 1986, numa reunião motivada pelos mesmos problemas e solucionada pela mesma política desportiva, desta feita nos turismos.

Enquanto a Lancia continua a ser delapidada (na Europa já só se vende em Itália e com uma gama composta por apenas um modelo, o Y), Marchionne tem vindo a promover a revitalização da Alfa Romeo, apregoando sempre a segunda como a grande marca desportiva do Grupo Fiat. O dirigente até já fala num regresso à Fórmula 1, um passo importante para cimentar novamente o seu prestígio e impulsionar as vendas da Alfa no mercado… norte-americano, cujo regresso foi outra das decisões marcantes da sua gestão. O encanto é evidente e eu não tenho rigorosamente nada contra ele. Mas e a Lancia, Sergio? Está condenada a ficar fechada numa gaveta?
A bem da verdade, além destas duas marcas Marchionne tem ainda de se preocupar com a Ferrari, a Maserati e a Abarth, provando que talvez nem todas deveriam estar sob o seu comando ou a égide da Fiat. Mas não muito longe das fronteiras italianas, o Grupo VAG, com um problema semelhante em mãos, tem sabido promover as suas insígnias – Porsche (Endurance), Audi (Endurance), Volkswagen (Ralis), Seat (Turismos), Skoda (Ralis), Lamborghini (Endurance) e Bentley (Endurance), alternando até os seus programas desportivos. O sucesso desta operação leva-me a suspeitar se, com boa vontade, o mesmo não poderia ser feito no Grupo Fiat, para mais quando, das cinco marcas referidas, apenas a Lancia foi condenada ao ostracismo.
André Bettencourt Rodrigues































