Há ecos no pit lane que o tempo nunca apaga. E há sexta-feiras em que o passado parece antecipar o futuro com uma clarividência arrebatadora. No verão de 2006, o Grande Prémio da Turquia preparava-se para ser apenas mais uma etapa do calendário do circo máximo do automobilismo. No entanto, o asfalto de Istambul guardava um segredo que mudaria para sempre a rota da história moderna da Fórmula 1.
A inesperada promoção de Robert Kubica a piloto titular da BMW Sauber deixou vago o posto de terceiro homem da estrutura de Hinwill.
A aposta recaiu sobre um jovem alemão de caracóis dourados e aspeto quase juvenil: Sebastian Vettel. Com uma bagagem escassa ao volante de um monolugar da categoria rainha e um desconhecimento absoluto da exigente pista turca, ninguém ousava antecipar fogos de artifício. Mas a inexperiência cedeu rapidamente lugar ao puro instinto.
A tarde em Istambul que deixou o paddock de boca aberta
Se a oitava posição na sessão matinal já tinha merecido olhares de soslaio por parte dos veteranos, o que aconteceu na segunda sessão de treinos livres roçou o delírio. Vettel cravou o melhor tempo do dia, relegando para segundo plano os monstros sagrados do campeonato e escrevendo de imediato o seu nome nos registos como o piloto mais jovem de sempre a participar num fim de semana oficial de Grande Prémio.
No final da jornada, o contraste entre a timidez da idade e a euforia do prodígio era evidente. «Estou muito surpreso com este resultado. Foi um dia difícil para mim, porque não conhecia a pista e antes só tinha feito um verdadeiro teste com um F1. No entanto senti-me bem integrado desde o início e acho que fui capaz de dar boas informações à equipa para a escolha dos pneus. Ficar com o melhor tempo do dia foi a cereja no topo do bolo!», confessou, visivelmente radiante.
A vertigem da velocidade e o batismo do paddock
Apurar as sensações de pilotar um BMW F1.06 pela primeira vez no limite revelava o deslumbramento de quem acabara de tocar no céu.
A força invisível da aerodinâmica e a violência mecânica deixaram marcas indeléveis na memória do jovem alemão. «O que se passa nas curvas rápidas é indescritível. A carga aerodinâmica e a aderência dos pneus dão-te uma velocidade fantástica e a travagem também é verdadeiramente impressionante», descreveu com o entusiasmo próprio de quem descobria uma dimensão paralela.
Entre o deslumbramento da pista e as exigências burocráticas da categoria, houve também tempo para a aprendizagem inevitável dos bastidores, temperada com o humor característico que viria a marcar a sua personalidade ao longo dos anos. «Também aprendi duas lições importantes: que deves carregar no limitador de velocidade nas boxes para não seres multado, senão o erro custa-te muitos dólares; e como é que se faz um teste anti-doping. Para um dia só, já é muito bom!»
Olhando para trás, aquele brilho fugaz sob o sol turco não foi obra do acaso, mas sim o vislumbre precoce de uma voracidade competitiva imparável. Tudo o que se passou a seguir, é história…








