Walter Wolf Racing (1977-1979): Lobo solitário

Por a 23 Dezembro 2024 15:11

Poucas foram as equipas que venceram o seu GP de estreia na F1. Na realidade, foram somente três. A Wolf foi uma dessas raras exceções: em 1977, venceu a prova de abertura da temporada e que também foi a sua primeira na F1 – o GP da Argentina. Hoje, a marca renasceu e, até em Portugal, corre um chassis com o nome do ‘Lobo’ canadiano.

Quando, no dia 9 de janeiro de 1977, no autódromo de Buenos Aires, um até aí nunca visto carro preto e dourado, com o nº 20 e as palavras ‘Walter WolfRacing’ e ‘Castrol’ escritas de lado, na aba lateral do ‘aileron’ traseiro e no ‘bico’, levou em primeiro lugar a bandeira de xadrez, as bocas abriram-se de espanto: dando de barato que a Alfa Romeo ganhou a primeira prova do primeiro Mundial de F1 e, portanto, o seu GP de estreia (o GP da Grã-Bretanha de 1950), nunca antes qualquer outra equipa tinha assinado um feito semelhante! E isso levou muitos anos a ser repetido – apenas em 2009, no GP da Austrália, tal voltou a suceder, por intermédio da Brawn, com Jenson Button.

Mas o que estava por detrás desse inédito vencedor, WolfWR1/Cosworth que, pilotado pelo sul-africano Jody Scheckter, que vinha da Tyrrell, bateu por quase um minuto Carlos Pace (Brabham/Alfa Romeo) e Carlos Reutemann (Ferrari)? Um senhor chamado Harvey Postlethwaite, britânico de 33 anos que haveria de deixar o seu nome ligado à ´Tyrrell, à Ferrari e ao projeto da Honda na F1 – e que, na nova Wolf, assinou um projeto simples e clássico, associando a um chassis sem arrojo um motor fiável e de provas dadas.

E, se se pode dizer que este primeiro triunfo teve tanto de inesperado como de sorte [Scheckter largou apenas do 11º lugar da grelha, mas estava no lugar certo na hora certa, quando os sucessivos líderes e os homens à sua frente– John Watson, James Hunt, Mario Andretti, Jochen Mass – foram ficando pelo caminho], o mesmo não se pode dizer do resto da temporada. Em 17 GP, Scheckter chegou ao fim em dez – e, nestes, apenas por uma não subiu ao pódio, no GP do Japão, onde chegou a rodar em 2º lugar, antes de se atrasar e cair para 10º. O WR1 ganhou por outras duas vezes – no Mónaco e no Canadá, o que diz bem da bondade do projeto. Infelizmente, algumas ruturas do motor e outros tantos erros do piloto impediram que Scheckter lutasse até ao fim pelo título, tendo que se contentar com o ‘vice’, atrás de Niki Lauda. A Wolf foi 4ª entre os Construtores, no seu ano de estreia.

Para 1978, Postlethwaite construiu um novo chassis, o WR5, de acordo com as regras do efeito de solo, mas não apareceu até ao GP da Bélgica, deixando para o ‘velho’ WR1 mais um pódio, no Mónaco. 1978 foi um ano ‘sui generis’: o WR5 ainda foi 4º em Espanha e 2º na Alemanha, mas a sua vida foi curta e a Wolf terminou o ano com o WR6 –e com mais dois pódios, o 3º lugar nos Estados Unidos e o 2º no Canadá.

Mas não foi tudo: ao longo desse ano, Walter Wolf vendeu dois chassis WR3 e WR4 à Theodore Racing, que os fez correr com Keke Rosberg ao volante em quatro GP. E, nos dois últimos GP da temporada, pela primeira e única vez na sua curta história, a Wolf inscreveu dois carros – além do nº 20, para Scheckter, Bobby Rahal correu com o nº 21 – um WR5 nos States e um WR1no Canadá. Rahal era um protegido de Walter Wolf e corria no Europeu de F3 com o DallaraWD1, um chassis financiado pela Wolf e que, por isso, tinha as mesmas cores do carro de F1.

No final do ano, JodyScheckter foi para a Ferrari e a Wolf contratou James Hunt para o substituir. Em 1979, a equipa começou com o WR7, também feito por Postlethwaite e que correu com o patrocínio da Olympus. Mas não era competitivo e depressa deu lugar ao WR8 – quase ao mesmo tempo, em que Hunt deixou a equipa, sendo o seu lugar rapidamente ocupado por Keke Rosberg. Antes do final da temporada, surgiu outro chassis, o WR9, mas isso em pouco alterou as más prestações da equipa. Cansado da sua aventura na F1, Walter Wolf vendeu a equipa a EmersonFittipaldi, que ‘herdou’ não apenas o WR9, como também Keke Rosberg.

Hélio Rodrigues, In Memoriam

Quem é Walter Wolf?

Walter Wolf é um milionário canadiano, de origem austríaca, que fez fortuna no negócio do petróleo. Nasceu na cidade de Graz, em 5 de outubro de 1939, de pai austríaco e mãe eslovena. Foi no país materno, em Maribor, que passou a infância, depois da família ter que fugir dos nazis. Mais tarde, quando o seu pai regressou do campo de internamento soviético em que tinha estado desde o final da II Grande Guerra, em 1951, a família mudou-se de novo, agora para a cidade de Wuppertal, na nova Alemanha Ocidental. Sete anos depois, nova mudança, agora para mais longe – o Canadá, país que o jovem Walter adotou como seu e onde se iniciou nos negócios, mais precisamente na maquinaria de extração necessária aos poços de petróleo, fornecendo a maioria das plataformas existentes do Mar do Norte.

Depois de passar pela F1, Walter Wolf – que é hoje também o nome de uma marca de cigarros croata – desfez-se da marca em 1980, mas esta regressou em 2009. O percurso deste canadiano pela grande finança tem sofrido alguns altos e baixos, que o levaram mesmo à barra dos tribunais – como em 2008, onde foi suspeito num caso de corrupção envolvendo a empresa finlandesa Patria e que envolveu diversos governos, entre eles o da… Eslovénia. Tanto Wolf como o primeiro-ministro Janez Jansa refutaram as acusações, declarando-se inocentes, mas chegou a ser emitido um mandado de captura, que não foi, no entanto cumprido até hoje.

Os dias de hoje

A Wolf renasceu durante a década de 80, na Alemanha, construindo os Ford Sierra RS500 de Grupo A para as corridas de Turismo, mas não teve muito sucesso, pois as escolhas das grandes equipas, como a Eggenberger Motorsport, a Rousesport e a Dick Johnson Racing, tinham outra orientação.

Depois, o silêncio – ou o vazio. Até que, em 2009, a marca Wolf reapareceu, com as mesmas cores dourado e negro originais, quando os direitos foram comprados por Giovanni Bellarosa, da equipa Avelon Formula. Nessas vestes, foi concebido o chassis Wolf GB08 que, equipado com um motor Honda 2.0, ficou apto a discutir as primeiras posições na Classe CN2, nas corridas de Sport-Protótipos. A sua estreia foi no dia 25 de abril de 2010, em Misano, com Ivan Bellarosa a dominar as corridas. Um bom prenúncio para o resto da temporada, que coroou Bellarosa como campeão italiano de Sport-Protótipos. No ano seguinte, o Wolf GB08 foi o carro a bater por toda a Europa, em campeonatos como o Eurosport Prototypes Series, o European Speed Series e o VdeV Proto Endurance Series, que venceu, bem como de novo no campeonato italiano.

Nos anos seguintes, o modelo continuou a vencer provas, com o seu motor preparado pela Mugen, capaz de desenvolver 497 cv. A segunda série apareceu em 2013. Muitas equipas optaram por este chassis – uma delas, a portuguesa CRM, liderada por Tiago Raposo de Magalhães, que em 2013 e 2014 disputou o CNV com os italianos Ivan Bellarosa e os gémeos Stefano e Nicola de Val.

PALMARÉS

Nome: Walter Wolf Racing [Wolf]

Sede: Reading, United Kingdon

Nascimento: 1976

Fundador: Walter Wolf

Estreia na F1: 1975 (60% da Frank Williams Racing Cars)

GP F1: 48

Primeiro GP F1: GP Argentina 1977

Último GP F1: GP Estados Unidos 1979

Vitórias: 3

Primeira vitória F1: GP Argentina 1977

Última vitória F1: GP Canadá 1977

Pódios: 13

“Pole positions”: 1

Melhores voltas: 2

Pontos: 79

Melhor resultado CM F1: 4º, 55 pontos (1977)

Pilotos: Jody Scheckter (1977/1978); Bobby Rahal (1978); James Hunt (1979); Keke Rosberg (1979)

Chassis: Wolf WR1 (1977/1978); WR4 (1978); WR5 (1978); WR7/WR8/WR9 (1979)

Motores: Ford Cosworth 3.5 V8 (1977-1979)

Fim: 1980

ANO A ANO

1977 (Jody Scheckter)

GP Argentina – 11º/1º; GP Brasil – 15ª/Abandono (motor); GP África do Sul – 5º/2º; GP Estados Unidos-Oeste – 3º/3º; GP Espanha – 5º/3º; GP Mónaco – 2º/1º; GP Bélgica – 4º/Abandono (motor); GP Suécia – 4º/Abandono (acidente); GP França – 8º/Abandono (acidente); GP Grã-Bretanha – 4º/Abandono (motor); GP Alemanha – 1º/2º; GP Áustria – 8º/Abandono (pião); GP Holanda – 15º/3º; GP Itália – 3º/Abandono (motor); GP Estados Unidos – 9º/3º; GP Canadá – 9º/1º; GP Japão – 6º/10º

4º CM Construtores, 55 pontos (Jody Scheckter, 2º nos Pilotos)

1978 (Jody Scheckter e Bobby Rahal)

GP Argentina – 15º/10º (JS); GP Brasil – 12º/Abandono (acidente) (JS); GP África do Sul – 5º/Abandono (pião) (JS); GP Estados Unidos-Oeste – 10º/Abandono (acidente) (JS); GP Mónaco – 9º/3º (JS); GP Bélgica – 5º/Abandono (pião) (JS); GP Espanha – 9º/4º (JS); GP Suécia – 6º/Abandono (sobreaquecimento) (JS); GP França – 7º/6º (JS); GP Grã-Bretanha – 3º/Abandono (caixa de velocidades) (JS); GP Alemanha – 4º/2º (JS); GP Áustria – 7º/Abandono (acidente) (JS); GP Holanda – 15º/12º (JS); GP Itália – 9º/12º (JS); GP Estados Unidos – 11º/3º (JS); 20º/12º (BR); GP Canadá – 2º/2º (JS); 20º/Abandono (pressão de óleo) (BR)

5º CM Construtores, 24 pontos (Jody Scheckter, 7º nos Pilotos)

1979 (James Hunt e Keke Rosberg)

GP Argentina – 18º/Abandono (problema elétrico) (JH); GP Brasil – 10º/Abandono (direção) (JH); GP África do Sul – 13º/8º (JH); GP Estados Unidos-Oeste – 8º/Abandono (transmissão) (JH); GP Espanha – 15º/Abandono (travões) (JH); GP Bélgica – 9º/Abandono (acidente) (JH); GP Mónaco – 10º/Abandono (transmissão) (JH); GP França – 16º/9º (KR); GP Grã-Bretanha – 14º/Abandono (pressão de óleo) (KR); GP Alemanha – 17º/Abandono (motor) (KR); GP Áustria – 19º/Abandono (problema elétrico) (KR); GP Holanda – 8º/Abandono (motor) (KR); GP Itália – 23º/Abandono (motor) (KR); GP Canadá – NQ; GP Estados Unidos – 12º/Abandono (acidente) (KR)

Os primeiros passos foram com a Williams

Walter Wolf deu os primeiros passos na F1 em 1975, quando começou a frequentar os ‘paddock’ dos GP europeus. Nessa altura, tinha já uma fortuna considerável, que usou para comprar, no ano seguinte, 60% da Frank Williams Racing Cars – a equipa que um tal Frank Williams estava a tentar fazer vingar na F1. Só que o britânico tinha um grave problema de liquidez – o mesmo com que, na verdade, tinha iniciado a sua aventura, em 1969, criando equipas como a Politoys ou a Iso-Marlboro. Por isso, quando se lhe deparou aquele homenzinho atarracado, de sebosos cabelos pretos, uma testa maior que o rosto e com uma mala cheia de notas, nem hesitou. Até porque ambos acordaram em que Frank ficaria como diretor da equipa, embora o ‘chefe’ fosse Walter Wolf. Este adquiriu ao mesmo tempo, os restos da defunta Hesketh Racing, coisa muito mais eficaz do que aquilo que ainda era a equipa Williams – e trouxe tudo isso, bem como os chassis Hesketh 308C que ainda existiam, para as instalações da Williams, em Reading.

O 308C depressa se transformou em Wolf-Williams FW05 e, com a mesma velocidade, foi chamado para chefiar o departamento de desenvolvimento um tal Harvey Postlethwaite [04/03/1944 – 13/04/1999]. Mas nem isso tornou a Williams mais competitiva do que tinha sido até então. Jacky Ickx e Michel Leclère depararam-se com enormes dificuldades em qualificar os carros. O francês foi substituído por Arturo Merzario depois do GP de França de 1975 e Ickx acabou despedido logo a seguir, ao voltar a não qualificar o FW05, em Silverstone. O seu lugar foi aqui e ali ocupado por pilotos-pagantes, como Chris Amon, Warwick Brown ou Hans Binder. Sem resultados de relevo, é claro!

Então, cansado dessa falta de resultados, Wolf decidiu agitar as águas, no final a temporada de 1976. Afastou Frank Williams e foi buscar para o seu lugar Peter Warr, que estava na Lotus. Esta decisão fez com que Williams deixasse mesmo a equipa e levasse consigo Patrick Head, para fundar a Williams Grand Prix Engineering. Mas isso não afetou a Wolf, que tinha em Postlethwaite um engenheiro capaz e ambicioso. O seu primeiro chassis, o WR1, era bastante convencional e de fácil manutenção, sem grandes rasgos tecnológicos – o segredo para, desde o início, ser competitivo. O futuro da Wolf nasceu, portanto, promissor. Mas foi por pouco tempo…

FOTO WRI2 Images/Jean François Galeron

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