Numa altura em que a Renault protestou a Racing Point e e processo está em andamento importa perceber o que está aqui em causa.
A equipa de Silverstone assume que copiou o Mercedes W10, mas fê-lo construindo as suas próprias peças e não através de documentação que recebeu da Mercedes. A questão de como todo este processo decorreu não é o que queremos aqui analisar neste momento, mas sim tentar perceber o que as equipas de Fórmula 1 podem ou não fazer.
Caso a FIA conclua que a Racing Point desenvolveu as peças do seu carro a partir do zero, não haverá nada a apontar à equipa, pois não existe nada nas regras que impeça uma equipa de olhar para outro carro e tentar fazer igual. Aliás, fazê-lo bem é o mais complicado de toda esta situação e a verdade é que se o RP20 não estivesse a andar tão bem, ninguém se teria preocupado em protestá-lo. É que neste momento, até a Red Bull se tem de preocupar com o RP20, e a própria Mercedes foi mais lenta numa das fases da corrida da Estíria.
O leitor pode estar a pensar como é possível copiar tão perfeitamente sem batota um carro vencedor? É isso mesmo que a FIA tem que tentar descobrir. Nós não conseguimos nem podemos dizer que é impossível desenhar um carro tão bom a partir de fotografias.
Assim sendo, porque mais equipas não copiam os bons carros? Isso tem a ver com filosofia dos conceitos de cada equipa. A verdade é que todos os projetos dos Fórmula 1 nascem do zero e do que é a filosofia das equipas ou dos seus responsáveis técnicos.
Tomemos como exemplo a Mercedes e a Red Bull. A Mercedes tem por hábito construir carros mais compridos, baixos e ‘diretos’ enquanto a Red Bull os faz normalmente mais pequenos e ‘inclinados’ (ndr, por exemplo em 2018 o Red Bull tinha um ângulo de 1.9º enquanto o Mercedes apresentava apenas 1.2º, com a traseira mais alta que a frente em ambos os casos, sendo que a Ferrari ficava entre ambos com um ângulo de 1.5º).
Isto significa, para ser ‘simples’ no exemplo, uma asa ‘XPTO’ que fosse desenhada por uma equipa e daí resultasse um crescimento competitivo muito grande, essa não podia ser copiada por outra equipa que tivesse uma filosofia de carro diferente. Uma boa asa num Red Bull não significa que funcionasse num Mercedes, que é construído numa filosofia diferente.
Todos os conceitos funcionam, mas de formas distintas, e como se pode calcular, todos os carros são desenhados de acordo com as filosofias de cada equipa. Por isso vemos designs tão diferentes, desde as formas dos flancos, às asas que ficam na frente desses flancos, e tudo o resto. Quase tudo é diferente de equipa para equipa, porque quando um conceito é pensado, normalmente a partir da asa da frente, tudo o resto é construído e desenvolvido a partir daí.
Ou seja, o fluxo aerodinâmico que surge para lá da asa dianteira vai definir o que é o resto do carro em termos aerodinâmicos, e apesar de tudo isso estar envolto no maior dos segredos no seio das equipas, quando uma equipa segue um conceito, tem de trabalhar sempre no seio dessa filosofia e é muito difícil alterá-la a meio. Esse é o grande desafio das equipas: ‘perceberem’ como funcionam os seus carros, pois as variáveis são tantas, que com as limitações existentes de túnel de vento é muito difícil ‘acertar’.
O que pode ter acontecido aqui é que devido ao facto de ter motores e caixas de velocidades Mercedes, a Racing Point percebeu que quanto mais semelhante fosse o seu carro do Mercedes que tinham disponível, o W10 (logicamente o projeto W11 só foi visto em pista já em 2020) seguiram-no, e pelos vistos acertaram na mouche.
Mais tarde se saberá se foram perspicazes o suficiente para copiar e fazer bem, ou há gato escondido com o rabo de fora. Sinceramente, não nos parece que a Mercedes se metesse numa ‘alhada’ dessas. Mas a verdade é que não é preciso recuar muito no tempo para recordar como em 2007 a McLaren teve que pagar 100 milhões de dólares de multa por ter copiado a Ferrari através de centenas de documentos passados por Nigel Stepney.











