O lugar de diretor de corrida é de grande responsabilidade e muitas vezes ingrato. As decisões são sempre questionadas e há sempre que tenha uma visão mais esclarecida do que quem está perante um muro de ecrãs, que debitam muito mais informação do que o comum dos seres humanos está preparado para receber. É preciso ter muito sangue frio e saber que se zela pela segurança de 20 pilotos e muitas mais pessoas à volta da pista, mas é preciso ter a noção que se pertence a um espetáculo perigoso. Há uma linha muito ténue entre o que é espetáculo e o que é demasiado perigoso. Depois de ter estado ao leme em Barcelona, Eduardo Freitas voltou a comandar a orquestra da F1.
Não pudemos deixar de registar que perante alguma imprensa estrangeira, a decisão de adiar o arranque da corrida e de o fazer sob Safety Car foi criticado e questionado. Chegou a dizer-se até numa transmissão que a falta de experiência na F1 estaria por trás do que foi considerado uma má decisão. Não parece que o tenha sido. Freitas tem experiência para dar e vender, subiu cada degrau do desporto motorizado até chegar ao topo e agora, por mérito próprio, é diretor de corrida da F1, no Mónaco e no WEC em Le Mans. O português é o responsável por duas das maiores corridas do mundo. E não chegou onde chegou por falta de experiência.
A decisão tomada de começar a corrida mais tarde foi a melhor. Com os pilotos e equipas sem informação nenhuma de como seria a pista com aderência reduzida, começar atrás do Safety Car, apesar da obrigatoriedade de colocar pneus de chuva, pareceu uma boa ideia. Permitiu às equipas prepararem-se para a prova e o arranque aconteceu no momento em que uma espécie de dilúvio se abateu sobre a pista. As bandeiras vermelhas foram mostradas e demoraram a ser retiradas, mas o objetivo era simples. Deixar passar aquele núcleo de nuvens para podermos ter uma corrida seguida, sem mais interrupções devido ao mau tempo, como acabou por acontecer. Graças à visão da direção de corrida, pudemos ter uma prova sem interrupções em demasia. Não tivemos 77 voltas, mas tivemos um bom espetáculo. E desta vez o espetáculo nem foi privilegiado, mas sim apenas a segurança. É que já vimos no passado que tentar privilegiar o espetáculo nem sempre dá bom resultado.
Não podemos deixar de notar que vimos erros. Sergio Pérez foi apontado como o culpado por ter transposto a linha de saída de boxe, quando foi claramente Max Verstappen. Houve pormenores que não correram bem. Mas a estrutura atual dos comissários, se antes era demasiado simplificada, agora parece ser demasiado complexa e ainda longe de estar afinada. Ter dois diretores de corrida não parece ser o ideal, olhando à exigência que o cargo tem. Freitas e Niels Wittich vão-se revezando, mas é inevitável que ambos tenham visões diferentes. É preciso consistência, é preciso hábito, é preciso continuidade. Há ainda muitas arestas a limar, mas hoje pudemos ver que a decisão de adiar, foi a correta, a gestão da corrida foi também a correta, apesar de ter sido complicada. Eduardo Freitas não precisa de advogados de defesa. O trabalho dele fala por si. Mas desta vez achamos por bem falar também.










