O lendário engenheiro Gordon Murray, criador do icónico Brabham BT52, esteve no Autódromo do Estoril para acompanhar mais uma vez aquele que considera um dos seus carros mais especiais, novamente conduzido por Nelson Piquet, num reencontro especial. Numa conversa com o AutoSport, Murray abriu o coração sobre as memórias do projeto, a filosofia por trás do carro e a sua visão sobre a Fórmula 1 atual e o futuro dos automóveis.
Gordon Murray, engenheiro automóvel nascido na África do Sul e naturalizado britânico, é um dos nomes mais inovadores da história do desporto motorizado. Entre 1969 e 1986 liderou a Brabham, criando carros icónicos como o BT46B “fan car” e o BT52, que deu o segundo título a Nelson Piquet. Mais tarde, na McLaren (1987–1991), foi peça-chave no desenvolvimento do MP4/4, dominador da temporada de 1988 e responsável pelo primeiro título de Ayrton Senna.

No mundo dos automóveis de estrada, esteve na génese da McLaren Cars e concebeu o lendário McLaren F1, considerado um dos melhores supercarros de sempre. Posteriormente criou a Gordon Murray Design e a Gordon Murray Automotive, apostando em soluções leves e inovadoras como o T.25 e o GMA T.50.
Reconhecido pelo seu contributo disruptivo no design e na engenharia automóvel, foi distinguido com o título de Comendador (CBE). A sua filosofia de leveza e eficiência continua a marcar profundamente a Fórmula 1 e os supercarros modernos.
Falando do belíssimo BT52, Murray admitiu que foi um carro especial, por vários motivos:
“É sempre um carro especial para mim, por causa do campeonato do mundo conquistado com o Nelson, e também por ter sido o primeiro carro a fazer paragens nas boxes. Sempre teve um significado único. A equipa da BMW cuidou dele muito bem e o carro continua a estar em excelente forma. É um dos meus favoritos”.

A revolução depois do fim das saias laterais
O Brabham BT52 nasceu de uma mudança drástica nos regulamentos. Murray recorda: “No inverno de 82 proibiram os ´skirts´[usados para selar o fundo do carro e aumentar o efeito solo]. Sem isso, perdíamos 80% da carga aerodinâmica. Eu tinha acabado de terminar o BT51, com três carros construídos, que tería meio depósito de combustível, desenhados para correr com ´skirts´. Bernie [Eccleston] continuava a dizer que eles não iam proibir as ´skirts´e depois isso aconteceu. Mas, de repente, tinha apenas três meses para fazer um carro totalmente novo. Não houve tempo para desenvolver side pods convencionais, sem ´skirts´.”
A solução passou por arriscar. “Fui pelo caminho oposto. Sabia que sem essa carga aerodinâmica íamos ter problemas de tração, por isso movi 7% do peso para trás e eliminei por completo os side pods. Colocamos muita asa à frente e atrás. E funcionou. O carro manteve-se equilibrado, com boa resposta na frente, mesmo com o peso mais atrás. Claro que precisávamos de mais carga no eixo traseiro, mas o equilíbrio foi conseguido. Foi um bom carro de corrida e tenho muito orgulho nele.”

A diferença entre a F1 de ontem e de hoje
Questionado sobre a Fórmula 1 atual, Murray não esconde a falta de entusiasmo: “Hoje já não me adaptaria bem. Não é possível fazer grandes mudanças. Só se alteram centenas de pequenos detalhes. Eu gosto de pensar num conceito novo que, de repente, seja dois segundos mais rápido. Essa era a verdadeira aventura. Hoje o desafio é diferente: é quase só aerodinâmica.”
Segundo o engenheiro, na sua época a aerodinâmica representava “40 a 50% do desempenho”, sendo o resto fruto do motor, do grupo mecânico e da forma como o carro usava os pneus. “Hoje é provavelmente 90% aerodinâmica”, lamenta.

A liberdade que encontrou nos automóveis de estrada
Essa limitação na F1 levou Murray a procurar outras formas de liberdade criativa: “Nos carros de estrada tenho a mesma liberdade que procurava na Fórmula 1. Posso fazer tudo: qualquer peso, qualquer potência, qualquer carga aerodinâmica. E também é importante fazer carros bonitos. Tenho muito prazer nisso.”
Recentemente, Murray fundou a Gordon Murray Special Vehicles, dedicada a projetos muito exclusivos. “Lancei a empresa no ano passado. Fazemos apenas pequenos projetos, carros diferentes. Lançámos os dois primeiros em Monterey. Enquanto isso, na Gordon Murray Automotive temos supercarros mais convencionais. Mas esta nova empresa vai dar-me muita diversão.”

O prazer de continuar a criar
Apesar de alguns desafios pessoais recentes, a paixão mantém-se intacta. “Tive cancro no ano passado e agora só consigo trabalhar cerca de 11 horas por dia”, revelou com humor, “mas continuo a divertir-me imenso.”
E afinal, o que mais o motiva? “O design, o conceito e a criação. Não tanto a condução. Nos carros de corrida, antigamente, o piloto era essencial para o desenvolvimento. Nos supercarros de estrada não sabemos quem os vai conduzir, por isso desenhamos o melhor que conseguimos, entregamos e esperamos o melhor.”
No Estoril, entre memórias de glória e novos projetos, Gordon Murray mostrou que continua a ser movido pela mesma paixão que, há mais de 40 anos, deu vida ao Brabham BT52 e ajudou Nelson Piquet a conquistar o título mundial.











