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Fórmula 1: 18 corridas pode ser um erro

José Manuel Costa by José Manuel Costa
14 Abril, 2020
in Autosport Exclusivo, F1, FÓRMULA 1, Newsletter
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Fórmula 1: 18 corridas pode ser um erro

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Por José Manuel Costa

A F1 procura soluções para salvar a época 2020 e são várias as propostas colocadas em cima da mesa para ter o máximo de provas. Mas será que esta situação está a ser vista de forma clara?

A F1 está um momento delicado, que coloca em causa o desporto, as equipas e toda uma estrutura que dá emprego a milhares de pessoas em todo o mundo. Há contratos, obrigações a cumprir e há compensações a serem pagas caso o espetáculo não aconteça. E daí se entende a necessidade de ter o maior número de provas possível. Mas será que a F1 está a ver a situação da melhor forma?

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Há, antes de mais o fator logístico. Transportar o ‘Grande Circo’ para os quatro cantos do mundo é um exercício exigente numa época normal.
A coordenação necessária e os tempos limitados exigem das equipas e das transportadoras o máximo de empenho e perfeição. Condensar tudo em seis meses parece, à distância, tarefa praticamente impossível, além de aumentar drasticamente os custos para as equipas.
Frederic Vasseur já avisou que os custos podem ser incomportáveis para as equipas pequenas, pois Grandes Prémios seguidos significam transportar mais material, mais peças e trabalhar com mais mecânicos. E isso custa mais dinheiro.

Embora os valores do custo operacional de uma equipa sejam variáveis, não é difícil imaginar que uma época bem planeada seja cara.
Basta pensar a cada corrida são deslocados 2000 toneladas de equipamento, 600 dos quais transportados por via aérea e que numa época com 20 provas apenas o material que segue por avião faz 132 mil quilómetros no ar. E nestas 600 toneladas apenas uma parte de todo o material necessário. Numa época condensada, a quantidade de material a transportar via aérea será inevitavelmente maior e com isso os custos irão subir dramaticamente.

Há também o fator humano e talvez o mais importante. A experiência foi feita em 2018, com três corridas seguidas. Ninguém gostou, as equipas queixaram-se que tal era demasiado exigente, e a qualidade do espetáculo refletiu-se. A F1 não é um jogo de futebol, não pode ser banalizada. A sensação que tive no final da terceira corrida é que já começava a ser forçado, não se sentia a mesma adrenalina o mesmo entusiasmo por parte dos intervenientes que inevitavelmente estavam mais cansados e isso reflete-se no show.
Cada corrida de F1 é um evento em grande, que vai crescendo ao longo do fim de semana. Há uma mecânica própria que perde encanto e espetacularidade se servida de forma sucessiva. É preciso ter sede e fome de F1 para ver o fim de semana de forma conveniente, para que os intervenientes estejam também em forma e possam dar o melhor de si.

E o fator humano que refiro engloba pilotos e staff. Se para os pilotos é difícil fazer três corridas seguidas e manter um nível de excelência, imagine-se para os mecânicos. Homens e mulheres que viajam em classe económica, que pouco tempo têm para respirar num fim de semana, com horas de trabalho intenso e pouco descanso. O número de engenheiros e mecânicos que saem da F1 passado pouco tempo de terem ingressado no ‘Grande Circo’ tem aumentado pois a exigência da F1 tem aumentado de forma desmesurada.
20 corridas por ano, uma pressão constante em busca de mais e melhor. Muitos não aguentam a pressão e há casos de pessoas que ficam seriamente afetadas.
Por exemplo, o ex-assessor de imprensa da Williams Aaron Rook, que diz que até pensou em suicídio numa corrida porque simplesmente não aguentava mais: “A F1 é uma empresa com um pouco de desporto à mistura, como uma salada agarrada a um gorduroso Kebab”, escreveu num post no seu blog. “Isso provavelmente explica a pressão constante e desnecessária 24 horas por dia, 7 dias por semana, exercida sobre a equipa. Nem mesmo algo como um colapso mental completo, associado a pensamentos suicidas, poderiam dar um momento de descanso.”
Ele acrescentou: “Enquanto muitos deslizavam para as festas chiques para ver quem poderia juntar-se à pessoa mais famosa, eu estava sentado num quarto de hotel comendo fast-food e a ver televisão estrangeira.”
“Nem um segundo se passou sem que eu pensasse na minha família e meus amigos em casa e em quanto eu sentia falta deles e precisava deles. Na F1 eu era um fantasma. Na verdade, quase me tornei num.”
Este é um caso extremo, mas numa época que poderá ser também extrema, talvez seja importante reconhecer que este pode ser um problema, que mais erros podem acontecer dentro e fora de pista e que o espetáculo pode sair manchado.

E por fim a questão do novo coronavírus. Os estudos apontam para uma nova vaga de Covid 19 no fim do ano. Será que a F1 está a ter isso em conta? Será que uma época de 18 corridas em seis meses, interrompida novamente por novo surto poderá provocar mais danos à F1?
Enquanto não tivermos vacina, o mundo estará em suspenso, e poderá ter de parar novamente. É uma realidade dura, que todos desejam que não aconteça mas que num desporto de milhões, tem de ser acautelada.

Talvez a F1 precise ser mais realista, e elaborar um plano exequível e não tentar o impossível. Uma época de 10 ou 12 provas no máximo, com um formato repensado. Uma época sustentável num momento em que as incertezas se acumulam. Um plano que minimize estragos, mas não prejudique o espetáculo e quem nele trabalha. Um plano racional que não provoque mais danos do que os existentes.

José Manuel Costa

José Manuel Costa

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