Diz-se que a sorte dá muito trabalho, mas para uns dá mais do que para outros. Lando Norris merece todo o crédito que lhe é atribuído, mas o timing da sua entrada na McLaren foi perfeito.
Lando Norris tem mostrado nas primeiras corridas do ano que tem o talento necessário para chegar a campeão do mundo. As prestações na Áustria merecem todos os elogios possíveis e a maturidade que o jovem britânico vai ganhando ao longo do tempo irá catapultá-lo para voos ainda mais altos. Mas a situação de Norris é em tudo favorável e a sua afirmação na F1 tem sido menos complicada, comparando com outros jovens talentos trazidos pela McLaren.

A lista de pilotos que foram apoiados pela McLaren enquanto jovens conta alguns nomes sonantes, mas a grande pérola saída do programa chama-se Lewis Hamilton. Piloto apoiado pela marca desde 1998, chegou à F1 em 2007 como a grande aposta da equipa para o futuro. O seu talento era inegável e logo no primeiro ano teve de lutar contra um tal de Fernando Alonso, que não é conhecido por facilitar a vida aos colegas de equipa. Conseguiu superar essa prova de fogo, sendo vice-campeão na época de estreia e campeão na época seguinte. O resto da história de Hamilton é bem conhecida, mas os jovens talentos lançados pela McLaren nos anos seguintes não tiveram a mesma sorte.

Kevin Magnussen terá sido o piloto que mais entusiasmou a seguir a Hamilton, no programa da McLaren. Subiu à equipa principal em 2014, para substituir Sérgio Pérez, fazendo dupla com Jenson Button. Não podia ter desejado melhor estreia com um pódio na primeira corrida, mas depois a situação difícil que a equipa viveu e a entrada de Fernando Alonso, atiraram Magnussen para fora da equipa, sem culpa e sem ter tido prestações tão negativas que justificassem o tratamento.

Mas havia outro talento na calha, do qual se esperava muito, chamado Stoffel Vandoorne. O belga chegou à F1 com um currículo impressionante mas chegou na pior altura. A parceria McLaren/Honda ia de mal a pior e a equipa de Woking queria a todo o custo satisfazer a estrela (Alonso), o que dificultou a integração do jovem piloto, que teve duas épocas para esquecer (depois de uma excelente estreia em 2016 no Bahrein). A maturar no programa já tínhamos Nyck de Vries, um talento holandês que se mostrava nas categorias de acesso à F1, mas a chegada em cena de Lando Norris atraiu as luzes da ribalta. O bem disposto jovem britânico mostrou todo o seu potencial nas categorias de iniciação e passou a ser aposta pessoal de Zak Brown.

Mas ao contrário dos outros colegas de programa, Lando Norris encontrou um cenário muito diferente. Uma equipa em remodelação, sem pressa de atingir o sucesso e com vontade de fazer um trabalho de base sólido e sustentável, um colega de equipa já experiente mas sem o CV dos campeões que a McLaren tinha até há pouco tempo e um ambiente de pressão reduzida. No fundo o ambiente ideal para começar aos poucos a dar nas vistas na F1.
Que fique claro que este texto não pretende menosprezar o que Lando Norris conquistou até agora. Sendo um apreciador das qualidades do jovem dentro e fora de pista, as suas prestações neste arranque não me surpreendem. Mas o facto é que a McLaren desperdiçou outros talentos em anos recentes. Magnussen pode ter um feitio especial, mas na Hungria voltou a provar que tem talento para mais do que uma Haas. Vandoorne não mostrou nem um terço do que realmente vale na sua passagem pela F1 e a forma pronta como a Mercedes o foi buscar para o seu projeto na Fórmula E é no mínimo um sinal da sua qualidade. Nyck de Vries é um caso especial pois nunca teve verdadeiramente espaço para subir. Quando estava no ponto para dar o salto deixou-se ultrapassar por Norris, mas quem acompanha a sua carreira não pode deixar de apreciar o seu talento e rapidez.

Mesmo Sérgio Pérez, que não pertenceu ao programa, mas foi ainda jovem para a McLaren foi “arrumado para canto” depois de um ano em que a equipa fez um péssimo trabalho no chassis. Um dos talentos mais entusiasmantes da época ia perdendo o lugar no Grande Circo depois de um ano abaixo do esperado.
O programa de jovens da McLaren resume-se até agora a Lewis Hamilton. Da lista de pilotos que fizeram parte do programa, Geido Van der Garde, Alex Albon, Kevin Magnussen, Stoffel Vandoorne e Lando Norris chegaram à F1. Não tem faltado qualidade. Faltou sim um ambiente mais indicado para receber jovens promessas, algo que agora existe e ainda bem pois seria uma pena perder Norris. Os astros alinharam-se para agraciar o talento do #4 com as circunstâncias certas. Mas como se pode ver no caso dos nomes acima referidos, nem sempre o talento chega para alcançar o topo.











