Pode parecer estranho alguém ter saudades de 2020, um do piores anos que este mundo viveu recentemente. Mas no desporto motorizado, foi sem dúvida uma colheita muito saborosa e com motivos para recordar.
A F1 começou o ano da pior maneira. Parece ter sido já há uma eternidade mas a ida para a Austrália e a forma como toda a situação foi tratada deu uma imagem da F1 que ninguém gostaria de ver. Seguiu-se a indefinição do calendário, se haveria F1 em 2020. Então a partir daí o Grande Circo voltou a ser o que esperamos dele… uma organização bem estruturada, bem pensada, com uma visão clara e planos para o que correr mal.
Acabamos com um calendário de 17 corridas, duas corridas na mesma pista e uma terceira numa versão modificada. Tivemos as boas surpresas de Mugello, Imola e claro Portimão. Só o simples facto da F1 ter voltado a Portugal faria deste um ano em grande. Mas não foi só isso… A F1 voltou a Portugal, encantou-se com o Autódromo Internacional do Algarve que nos deu uma boa corrida e ficaram portas abertas para o futuro e fala-se que a vaga que ainda permanece em aberto pode ser nossa.
Vimos uma F1 que conseguiu evitar que a Covid 19 afetasse em demasiado a competição. A F1 que deu o exemplo de como organizar uma competição internacional, a primeira a voltar ao ativo.
Vimos corridas com um final surpreendente, vimos o recorde de Michael Schumacher ser igualado por Lewis Hamilton, o regresso ao pódio da Renault, da McLaren (desta vez sem ser preciso esperar pela decisão dos comissários), uma Racing Point competitiva e a vencer. A luta do segundo pelotão foi das melhores da era híbrida… era bom que acontecesse o mesmo no topo da tabela, mas não podemos culpar a Mercedes por fazer um trabalho estupendo todos os anos.
Vimos o primeiro pódio de Lando Norris, que este ano voltou a mostrar o seu enorme potencial, desta feita mais agressivo, sem nunca perder a irreverência que o carateriza. Vimos a dupla Carlando (Carlos Sainz, Lando Norris) pela última vez em pista, naquela que é uma amizade criada na F1, algo raro entre companheiros de equipa. Vimos Ricciardo voltar a sorrir vimos de novo o Shoey, Pérez a finalmente vencer uma corrida de F1, ironicamente na última que conseguiu terminar, fechando com chave de ouro o seu fantástico ciclo na Force India/ Racing Point. Vimos Alex Albon conquistar dois pódios apesar da época difícil que teve, George Russell brilhar na Mercedes e mostrar que o seu talento merece mais que uma Williams. Assistimos também ao declínio da Ferrari, às grandes prestações de Charles Leclerc, ao último capítulo da história de Sebastian Vettel na Scuderia, com um final longe de ser feliz, mas feito sempre com a mesma classe do alemão. Ficamos espantados com a vitória de Pierre Gasly em Monza, repetindo o feito de Vettel em 2008.
Tivemos o regresso de Esteban Ocon à F1, conquistando o seu primeiro pódio no fim da época, a última corrida de Kevin Magnussen, o último do bravos, vimos o regresso temporário de Nico Hulkenberg mostrando que quem sabe não esquece e assistimos ao milagre de Romain Grosjean, que nos provou que a F1 tem feito um trabalho fenomenal ao nível da segurança, mas que a sorte também é um fator importante.
2020 provou-nos que não precisamos de uma época grande para termos uma grande época. Que as pistas fazem a diferença e que as melhores corridas acontecem nos melhores traçados, que a F1 está recheada de grandes talentos, com carater próprio. Não são os bad boys do passado, mas a nova geração mostra que pode prender-nos ao ecrã pela sua postura. 2020 foi um ano terrível, mas se apenas olharmos para a F1… vamos ter saudades.










